sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sonhos Repetidos

Na magia, o caminho a seguir não é sempre homogêneo e linear. Às vezes mergulha-se fundo no inconsciente por um longo tempo (e isso é muito importante para se estruturar psiquicamente); às vezes vivencia-se a realidade prática do dia-a-dia (que é o fruto externo do que se planta interiormente); e às vezes passa-se por um período de deterioração (de deixar para trás o que não tem mais a ver consigo mesmo). Usualmente são longos períodos, os quais só reconhecemos com o passar dos anos (pois são cíclicos e, por isso mesmo, podem ser reconhecidos ao se tornarem recorrentes). Há quem afirme que existe um início e um fim no caminho do mago, mas estou desconfiado de que ele nunca acaba. Talvez seja apenas o caso do "mapa" estar incompleto.

Recentemente eu demonstrei, através de meus posts,  um pouco do que é mergulhar no inconsciente e amadurecer as relações internas. Acredito que agora já é hora de dar uma pausa e continuar abordando outros temas também relacionados à minha própria história no ocultismo. No entanto, para quem aprecia os sonhos que narrei, não se preocupem. Haverão mais sonhos a serem descritos, em momentos propícios. Hoje, para encerrar (por enquanto) este assunto dos sonhos, vou falar sobre um tipo de sonho especial: o sonho repetido. Quem nunca teve um sonho repetido? Não vale dizer "Não" se você não lembra dos sonhos que tem. Porque será que, de vez em quando, nossa mente repete experiências inteiras?

O motivo é que os sonhos deste tipo representam questões a respeito de aspectos que ainda não conseguimos equilibrar, harmonizar, ou dar uma resposta satisfatória em nossas vidas. Por exemplo, quando eu era pequeno meus pais haviam me dado um robô de brinquedo de presente. Ele tinha um funcionamento simples: buzinava muito e mudava sua direção quando eu acionava o controle remoto (do mesmo jeito que os carrinhos de brinquedo fazem). Ele também tinha uns braços estilizados (que não se moviam sozinhos) e luzes vermelhas que piscavam. Tudo isso junto em um brinquedo me impressionava.

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Robô Arthur, da Estrela

Por um tempo eu considerei aquele robozinho mais importante até mesmo que as pessoas ao meu redor. Eu queria protegê-lo, guardá-lo para mim, não deixar outros brincarem. Ainda que isso ferisse os sentimentos alheios. Então, certo dia percebi claramente o que tinha: pequenos truques. Nada dele era tão misterioso e fantástico, e eu percebi isso. Percebi também que havia deixado as pessoas de lado. Naquele mesmo dia sonhei que todos em minha família haviam sido transformados em robôs e que não possuíam mais sentimentos. O sonho demonstrava minha inversão de valores.

Este sonho se repetiu na época da minha adolescência. Foi quando ganhei meu primeiro computador. Na realidade, nada sofisticado quando comparado aos computadores atuais, mas foi com ele que comecei a aprender a criar software. Eu visualizei alí possibilidades praticamente infinitas que dependiam apenas do que eu pudesse elaborar. Todo dia eu me confinava no quarto, como se aquele fosse meu tesouro (“meu precioso”, numa analogia à trilogia Senhor dos Anéis). Não levou muito tempo para que eu percebesse que faltava consciência naquela máquina (pois o computador não era um ser pensante, da mesma forma que faltava consciência no robô de brinquedo que tive quando criança). Naquela noite tive o mesmo sonho, apontando a mim uma inversão de valores semelhante à vez anterior. Então entendi seu significado e o sonho nunca mais retornou (como se a mensagem enfim tivesse sido entregue).

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TK85 - Um clone do ZX-81 da Sinclair
Eu tinha apenas o computador (á esquerda). Eu não possuía o joystick (á direita).

Apenas para “fechar”, existe também outro tipo de sonhos que se repetem, só que variando em alguns aspectos (ou seja: não são exatamente iguais). Esta variação indica que algo se transformou e, possivelmente, continua se transformando. Pode ser uma metamorfose naquele que sonha (revelando uma mudança de consciência), ou então uma transformação na situação em que se está inserido (revelando uma mudança de contexto). Nesse caso, o sonho demonstra uma dinâmica que pode ser tanto interna quanto relacionada a eventos externos (em ambos os casos, usualmente acontecendo de forma sutil, por se dar ao longo do tempo).

Fica então uma questão para você, meu leitor: você já teve (ou tem) um sonho repetido? Sobre o significado desse sonho, você já o compreendeu?

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Olhando para Dentro de Si

Certa vez eu sonhei que estava em uma espécie de universidade. Ali cada um dos alunos (inclusive eu) tinha um apartamento para si e existiam imensos corredores mal iluminados, com a atmosfera característica dos prédios antigos. Já os apartamentos, estes tinham boa iluminação interna, transmitindo uma impressão mais jovial.

Os alunos se cumprimentavam dentro desses corredores quando estavam saindo ou chegando. Nesses momentos, breves conversas aconteciam. Por acaso eu e um colega estávamos chegando ao mesmo tempo e, enquanto tirávamos as chaves do bolso, eu o cumprimentei:
- Olá! Tudo bem?
- Olá, tudo - ele respondeu.

Prosseguiu:
- Você é novo por aqui?
- Sim, cheguei há pouco tempo.
- Pois então, há algumas vantagens de ficar por aqui. É muito confortável e você é bem assistido. Praticamente não há porquê se preocupar a respeito de suas necessidades básicas.
- Isso é realmente muito bom - assenti.
- O único detalhe é que você precisa estudar, e isso pode ser um tanto difícil para alguns alunos.
- Mesmo? Porque?
- Digamos que nem todos tem sangue frio para os conteúdos ensinados aqui. São um tanto demoníacos.

Fiquei em silêncio por alguns segundos e indaguei:
- Demoníacos?
- Sim, demoníacos. Mas agora preciso entrar. Depois conversamos mais.

Entrei em meu apartamento e encostei a porta. Aquela revelação me assustou. Sobre este trecho do sonho, me parece um tanto estranho. O fato é que, para alguém como eu, já acostumado às experiências relacionadas à goécia (a arte do contato com demônios internos), uma revelação deste tipo não deveria me perturbar tanto mas, enfim, era um sonho e os sonhos muitas vezes seguem por uma lógica própria, a qual nem sempre correponde ao que pensamos durante os momentos de vigília.

Retornando à narração do sonho, decidi então abandonar aquele lugar e fiquei algum tempo fora do campus (eu não tenho uma percepção exata de quanto tempo se passou). No entanto, mudei de opinião e resolvi voltar. Ao retornar, encontrei um dos professores da faculdade (ao menos me parecia assim). Cumprimentou-me e começou a conversar comigo. Em certo momento indagou:
- Posso lhe fazer uma pegunta, mesmo arriscando-me a ser indiscreto?
- Sim, é claro que pode - respondi.
- Percebi que você se ausentou por um tempo. Estava pensando em nos deixar, não estava?
- Estava - confessei.

Houve uma breve pausa, como se ele estivesse ponderando sobre o que me dizer. Prosseguiu:
- Muitos têm esse impulso, mas é preciso dizer-lhe que nenhum de nós deseja mantê-lo aqui à força. Você pode nos deixar ou pode resolver ficar, mas irá se beneficiar se passar alguns anos aqui conosco.
- Como assim? Explique.
- Você gostaria de ter um significado para as pessoas?
- Um significado?
- Sim. Você quer que seu nome represente algo para as pessoas? Quer que possam procurá-lo e encontrá-lo se de fato o desejarem?
- Quero - eu disse.
- Então fique conosco - concluiu.

***

O período em que tive este sonho (e outros) foi caracterizado por muitos contatos “demoníacos” (para mais detalhes confira o post Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda). Estas experiências ocorreram dentro de um processo de imersão na goécia e estou relatando-as neste blog. O que talvez não esteja muito claro nestas narrações é o motivo destes contatos terem acontecido.

Para fornecer esta explicação, é necessário considerar que estou tratando aqui sobre como segui meu próprio caminho na magia, lembrando que a arte de um mago é, principalmente, um meio para alcançar a realização própria. Existe uma crença errada que se baseia no princípio de que é preciso fazer uma escolha entre servir a si mesmo ou servir aos seus semelhantes. Por esse princípio, aqueles que decidem servir a si próprios normalmente são rotulados como egoístas. Já os que decidem servir aos demais, sem pensarem em si mesmos, são considerados altruístas.

No entanto, será que esta escolha é realmente necessária? Será que é benéfica? Imaginem se todos negassem a si mesmos em prol de uma coletividade. Seriam felizes? Certamente que não. Da mesma forma, não haveria bem algum à humanidade se cada um de nós buscasse a realização individual sem considerar os demais. Pode-se deduzir que o verdadeiro desafio não é escolher focalizar seja o indivíduo, seja o coletivo. O objetivo mais importante é satifazer ambas condições, simultaneamente.

Difícil fazer isso? Nem tanto. Quando comparando o indivíduo versus o coletivo, o que exatamente consideramos ser este coletivo? A pluralidade é homogênea (todas as pessoas são iguais) ou é heterogênea (cada pessoa tem um objetivo diferente)? É óbvio que a coletividade é heterogênea. Portanto há quem tenha ressonância conosco e também há quem tenha dissonância. Só precisamos saber reconhecer qualitativamente o que nos cerca, isolando-nos de situações em que percebemos conflitos, e buscando unir-nos àqueles que nos completam. Dessa forma as necessidades individuais e coletivas se harmonizam.

No entanto, antes de buscarmos o que nos completa, precisamos saber o que somos. É basicamente disto que trata este sonho. É a necessidade imperativa de definir a si mesmo primeiro (assumindo um compromisso nesse sentido), antes de encontrar ressonâncias externas. Enquanto não nos definimos, somos parte do problema pois nenhuma solução que se apresente a nós nos satisfaz. Nessa condição, somos uma incógnita e não criamos sinergias. Colocamo-nos literalmente em cima do muro, tornando-nos sem expressão, sem significado e, por isso mesmo, desinteressantes.

As pessoas normalmente procuram as respostas para suas vidas, só que o fazem olhando para fora de si mesmas, quando deveriam olhar para dentro de si. É dentro de cada um que está a chave para a auto-realização. Essa é uma verdade tão insuspeita quem nem sequer é necessário ocultá-la dos incautos. Você pode espalhá-la pelos quatro cantos do mundo, mas as pessoas em geral não a ouvem. Teimam em acreditar que aquilo que são, de fato, não importa para atingirem o sucesso pois julgam-se ser “meras gotas de água dentro de um imenso oceano” e, por isso mesmo, tentam se conformar. Importa para essas pessoas conseguir uma promoção, ir bem nas provas, seguirem uma religião que lhes apresenta um modelo do que devem ser (ignorando por completo o que realmente são). Enfim, focalizam no que lhes é externo. Não lhes passa pela cabeça que a realidade externa pode se tornar a consequência de uma estruturação que começa internamente, expandindo-se depois.

Não parece um tanto absurdo tentar controlar tantas condições alheias a nós mesmos? Nunca sabemos exatamente o que outra pessoa pensa e sempre cometemos erros de julgamento. Não somos infalíveis na nossa forma de avaliar o mundo. Por outro lado sabemos quem somos. Porque não partir desse princípio?

É disso que trataram estas experiências que surgiram espontaneamente na minha vida: definir-me. Enquanto eu definia a mim mesmo, é claro que minha relação com o inconsciente ia se estruturando. Não era ainda um momento para ser eficaz na realização de ritos mágicos mas eu estava criando minhas relações com o invisível. Essas relações iriam influenciar o mundo visível no devido tempo. Mas isso eu vou contar mais para frente.

sábado, 22 de março de 2014

Respondendo ao Diabo

Nos posts Uma Conversa com o “Diabo” e O Diabo e os Folhetos de Missa, narrei as duas primeiras partes de um sonho. Neste sonho, o Diabo (tal como havia se identificado a mim) levou-me primeiro ao Éden e, logo em seguida, à uma igreja. O post atual descreve a parte final do sonho.

Havíamos nos desmaterializado na igreja e estávamos então em um deserto. Apesar do Sol ali estar forte, a temperatura ambiente não me parecia quente. Caminhamos até uma rocha onde havia uma caixa sobre a mesma. O Diabo tomou-a em suas mãos, abriu-a e mostrou-me seu conteúdo. Havia ali uma pedra que brilhava quase que hipnóticamente. O interior da caixa estava escuro, protegido pela sombra, mas mesmo assim a pedra brilhava como se tivesse luz própria. Eu a observava quando ele iniciou o diálogo:

- Esta pedra representa tudo o que você possa desejar. Não existe limite para o que ela possa realizar.

Eu continuava observando-a. No entanto, eu não apenas a observava. Eu também a desejava. Ele prosseguiu:

- Você a considera interessante?
- Sim, muito interessante - respondi.
- Então sirva a mim e poderá ter tudo o que ela significa.

Assustei-me. Apesar de seduzido pelas possibilidades daquela pedra, eu não tinha intenção de submeter-me ao Diabo, mesmo que fosse para obtê-la. Dei-lhe minha resposta:

- Desculpe. Não posso. Permite que eu lhe explique o motivo?

Procurei ódio no seu olhar mas não encontrei. Na realidade ele estava prestando atenção às minhas palavras, como que interessado no que eu estava para dizer. Continuei:

- Não posso servir alguém acima de mim mesmo. Eu penso que este é o verdadeiro significado da idolatria. Não posso lhe jurar lealdade. Quero propor-lhe outra coisa.

Ele continuou prestando atenção ao que eu dizia. Dei continuidade à minha proposta:

- Eu posso me unir a você à medida que nossos ideais forem os mesmos. Se estes assim o forem, não há problema em prosseguirmos juntos. Porém, se nossos ideais forem diferentes, ou tornarem-se diferentes, cada um de nós é livre para seguir seu caminho. Que acha disso?

Ele não me deu resposta. Apenas observava e aparentemente refletia sobre o que eu lhe tinha dito. O sonho se encerrou nesse momento.

***
Nos dias que seguiram logo depois de meu sonho, um grande fluxo de intuições veio à minha mente a respeito de Lúcifer. Conforme os anos se passaram, este fluxo diminuiu mas, de tempos em tempos, sempre existiram alguns lampejos. A impressão que eu tenho é que Lúcifer acabou levando em conta a minha reposta.

Confesso que por muitos anos esse sonho me deixou um tanto confuso. Afinal trata-se de um ser que tornou-se proscrito por não aceitar uma existência de possibilidades previstas e confinadas à imutabilidade (conforme o post Uma Conversa com o “Diabo”) e, ao mesmo tempo, trata-se de alguém que usa toda uma gama de conhecimento e consciência contra uma visão estéril, auto-rotulada como cristianismo que busca se impor sobre tudo o mais como o único meio de se chegar à verdade (conforme o post O Diabo e os Folhetos de Missa). Será que ele se tornaria exatamente aquilo que persegue? Será que alguém consegue abrir a mente de outras pessoas sem abrir sua própria mente?

Só recentemente cheguei a um posicionamento a este respeito que aparenta explicar estas discrepâncias. A sugestão de Lúcifer (“Sirva-me”) foi um teste. De um lado, a possibilidade de possuir tudo o que se quer. De outro, a possibilidade de perder-se a si próprio. O teste seria: “Dependendo do preço, você abre mão de seus ideais?”. A resposta que dei-lhe foi exatamente com base nos meus ideais.

Há alguns meses conversei com uma amiga que disse que havia tido uma experiência de contato com Lúcifer há alguns anos atrás. Só que no caso dela não foi apenas um sonho, e sim um contato de aproximadamente um mês que eu presumo que tenha acontecido pelo astral. O interessante é que a narrativa dela concluiu também da mesma forma, com a mesma proposta de Lúcifer. Ela se negou, tal como eu o fiz, mas eu fico curioso para saber os detalhes de sua resposta.

Eu suspeito que Lúcifer sempre fez esta questão, às mais diversas pessoas, conforme passaram-se os milênios. A bíblia relata o momento em que Jesus respondeu a essa mesma pergunta, embora eu não saiba quão fiel ao fato original esta descrição bíblica realmente é. Confira o seguinte trecho:

Então Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então, aproximando-se o tentador, disse-lhe: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães".
Mas Jesus respondeu:
"Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. " Então o diabo o levou à Cidade Santa e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra. "
Respondeu-lhe Jesus:
"Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus. "
Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe:
"Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares". Aí Jesus lhe disse:
"Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto. " Com isso, o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e puseram-se a servi-lo.
Mateus 4, 1-11 (Bíblia de Jerusalém)

É de senso comum no ocultismo que Jesus também foi um mago, o que eu acredito que seja verdade, mas não penso nele como o filho de Deus. Eu acredito que ele tenha sido apenas um mago como tantos outros. As experiências que ele viveu, por mais que possam ter parecido assombrosas para aqueles que com ele conviveram, não são experiências únicas. Também é óbvio que há invenções e exageros. Digamos que o mago que Jesus foi verdadeiramente é tão próximo ao mito criado sobre o mesmo quanto as bruxas verdadeiras são capazes de voar em vassouras…

Enfim, o que significa passar nessa prova de Lúcifer? Será que dá o direito a alguém de usar uma pedrinha mágica que realiza qualquer desejo? Duvido… Afinal de contas tudo na minha vida tem sido ação e reação, tal como na vida de qualquer pessoa. Você colhe aquilo que planta. Se souber plantar bem, colhe bem. Esta pergunta permanece sem resposta.

domingo, 16 de março de 2014

O Diabo e os Folhetos de Missa

No post anterior (Uma Conversa com o “Diabo”), eu comecei a narrar um sonho onde o “Diabo” havia se apresentado a mim (com ressalvas em relação a este nome mas, enfim, era um sonho). A minha narração tinha prosseguido até o momento em que eu e o Diabo havíamos entrado em um elevador e estávamos nos deslocando junto com o mesmo. Prossigo agora com o sonho.

De repente, então, nos materializamos dentro de uma igreja. Ela estava aberta e o ambiente era escuro, da maneira característica de muitos destes templos. Não havia missa naquele momento, porém diante de nós estavam posicionados alguns folhetos que as pessoas costumam utilizar para acompanhar as celebrações e assim poderem participar quando solicitadas.

O Diabo tomou em suas mãos um destes folhetos e mostrou-me. Prosseguiu dizendo:
- Há mais de cem anos eu comecei a mudar a igreja Católica. Lamento não ter conseguido começar antes.

Na sequência, iríamos então nos materializar em um novo local.

***

É certo que o sonho não acaba neste ponto (ainda há mais uma parte) mas pretendo comentar, com alguma profundidade, esta breve passagem descrita aqui. Interpretando-o à luz de minha percepção atual, vêm à minha mente a ocorrência de símbolos e contextos considerados sagrados por muitas pessoas mas que parecem mais familiares do que se supõe que deveriam ser a Lúcifer (é a forma que prefiro chamá-lo, ao invés de “Diabo” como sugere o sonho).

Observe estas afirmações atribuídas ao próprio Jesus:

Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar, e quando eu me for e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também.
E para onde vou, conheceis o caminho". Tomé lhe diz: "Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" Diz-lhe Jesus: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes".
Filipe lhe diz: "Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!" Diz-lhe Jesus: "Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: 'Mostra-nos o Pai!'? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras.
(João 14, 1-11, Bíblia de Jerusalém)

De acordo com esse trecho, Jesus se coloca como o caminho, a verdade e a vida. Ele também se identifica plenamente com o Pai. Ele está no Pai e o Pai está nele. Muitos utilizam desta argumentação para justificar que não existe nenhum outro meio de salvação a não ser por Jesus Cristo e, portanto, pelo cristianismo. Daí que tudo o que é alheio ao cristianismo, é considerado o caminho para a danação, ao invés da salvação.

Quando essa exclusividade (no que diz respeito à salvação) é questionada, a resposta é: “Como podes dizer: 'Mostra-nos o Pai!'? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?”, sendo negada a resposta a este questionamento. A repreensão conclui da seguinte forma: “As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras”.

Não me considero capaz de afirmar se Jesus de fato proferiu estas palavras que lhe foram atribuídas, mas sei que são um argumento perigoso em uma época em que nenhum de nós viu estas obras de fato e, portanto, não podemos atestá-las. O que nos é pedido neste trecho bíblico é que acreditemos em algo que nega tudo o mais sem um bom motivo para fazê-lo. Este “tudo o mais” que é negado representa justamente aquele que muitos chamam de Satanás, ou Lúcifer (embora Lúcifer e Satanás sejam palavras com significados distintos), ou o “Diabo”.

E é aí que entra o papel deste personagem controverso. Ele é diretamente negado pelo suposto sagrado, e daí que é até lógico imaginar um interesse dele nesse sentido. A questão é: que armas ele poderia utilizar? Uma possibilidade é utilizar-se da lógica, da ciência, da filosofia, dos conceitos do esoterismo e do ocultismo, das mais diversas religiões de origem pagã e, enfim, de tudo que não tem laços de dependência em relação ao cristianismo. Mas utilizar-se de toda essa gama de consciência para quê? Simples: para questionar o que, segundo a bíblia, é inquestionável. Questionar é o mesmo que acusar. A palavra Satanás, na verdade, significa exatamente isso: acusador.

Por exemplo, quando culturas inteiras foram expostas ao homicídio em massa (sob requintes de tortura), culminando até mesmo com a morte nas fogueiras, quem era o acusador? Satanás. Aliás, a igreja católica até hoje não se retratou por estes atos de crueldade e violência (embora não tenha sido a única responsável). A humanidade, em geral, não tem memória de atos tão antigos.

Já a palavra Lúcifer tem um sentido bem mais complexo. No mito era um anjo cuja função era conduzir a Luz (Lux Ferre, onde Lux é luz e Ferre é conduzir). Porém, ao invés de desejar ser meramente o condutor, ele pretendeu ser a luz. Ser a luz, de uma forma bem simplista, pode significar também ser consciente (o que envolve toda a gama da consciência que há, e não apenas uma pequena parte, a qual nega a validade do tudo o que lhe é diferente). No entanto, não se trata apenas disso. Ser a luz também significa reconhecer que a divindade está em si mesmo pois ela está em tudo. A divindade é tudo.

Aliás, a palavra Diabo também tem um significado. Ela vem de Diabolos, que é o oposto de Símbolo. O Símbolo dá significado a algo. Já Diabolo, diz respeito a destruir esse significado. De certa forma, também é verdadeira.

O que teriam os folhetos de missa a ver com tudo isso? Há um século não existiam os folhetos de missa pois eram em latim. O conteúdo destes era cifrado para a grande maioria das pessoas, e isto os tornava virtualmente inquestionáveis. A tradução da bíblia católica em diversas línguas (que aconteceu no século passado), bem como a criação dos tais folhetos, trouxe os conteúdos da religião às mentes das pessoas que assim puderam começar a questioná-los.

No próximo post eu vou concluir a narração do sonho e sua interpretação.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Uma Conversa com o "Diabo"

Certa vez, em meio às minhas experiências relacionadas à goécia, eu tive um sonho onde surgiu um homem diante de mim. Ele tinha estatura mediana, cabelos curtos e negros e pele clara. As roupas eram um tanto formais, tratando-se apenas de um terno simples. A expressão facial nada dizia do que se passava em seu interior. Não havia pista alguma do que se seguiria no sonho. Apresentou-se:

- Olá, eu sou o Diabo.
- O Diabo?
- Sim.

Talvez muitas pessoas considerem esta identificação estranha, afinal costuma-se relacionar a goécia a demônios internos, e não a um ser identificando-se como o “Diabo” (afinal nem mesmo é propriamente um nome). No entanto, quando se reflete que as imagens que brotam na experiência com o inconsciente são fortemente condicionadas pelas impressões pessoais daquele que tem o sonho, não se deve estranhar que a simbologia fuja à uma norma padrão.

Prossegui com o diálogo:
- E porque razão você veio aqui conversar comigo?
- Apenas quero fazer um convite a você. Gostaria de conhecer o paraíso?
- E você, sendo quem é, pode visitar o paraíso?
- Posso, sempre que quero. Quer ver como é?

Irrefletidamente, respondi:
-Quero.
E estávamos então em um jardim. Ele continuou a falar:
- Este é o paraíso. O Jardim do Éden.

Eu observei o local. Era preponderantemente natural. O máximo que pude encontrar ali (no que diz respeito a construções "artificiais") eram bancos, onde algumas pessoas se sentavam. Quase não conversavam entre si. Não havia estímulo, nem propósito de realizar coisa alguma. Não havia atividade intensa, nem conversas inflamadas. Eu tive uma impressão de calma e previsibilidade. Senti-me desconfortável por causa da ausência de ação naquele ambiente.

Ele continuou a falar:
- Eu também não me sinto bem. Vamos sair daqui?
Fiz uma pequena pausa e consenti:
- Vamos.

De repente, estávamos diante de um elevador e entramos nele (assim são os símbolos nos sonhos, às vezes muito triviais). A porta se fechou e o elevador subiu. O movimento do elevador me surpreendeu pois eu esperava que o paraíso que eu havia visitado estivesse acima de tudo e, portanto, o elevador deveria descer ao invés de subir. Meu estranho interlocutor olhou para mim seriamente, sem dizer palavra alguma.

***

No mito bíblico do Jardim do Éden não era pressuposto que o ser humano possuísse a capacidade de diferenciar entre o Bem e o Mal (ou julgar a si mesmo e o que existe ao seu redor). O papel de Adão era cuidar do jardim, enquanto o papel de Eva era ser sua companheira. Idealmente todas as transformações ocorriam de acordo com a forma que haviam sido planejadas e, enquanto a humanidade (no mito, reduzida a Adão e Eva) não fosse capaz de efetuar distinções de valores (definindo o Bem e o Mal), permaneceria integrada àquela existência em harmonia e, portanto, sem que pudesse causar danos. Uma condição de inocência, por assim dizer.

No entanto, a distinção entre os seres já existia e a serpente estava ciente disso (ou seja, o paraíso já não era mais harmonioso). Homem e mulher haviam sido proibidos por Deus (ou melhor dizendo, aquele que era considerado Deus na bíblia), o que já indicava que havia uma separação fundamental entre Deus e o ser humano (o qual lhe devia ser obediente). Em suma, as divergências já existiam: apenas não eram percebidas pelo ser humano.

A desobediência foi um ato espontâneo, pois Adão e Eva não poderiam qualificar aquela ação fosse como boa, ou fosse como ruim. Já a expulsão se deu não por causa do castigo do pecado cometido (um pecado inconsciente, por sinal, afinal não se compreendia sua malignidade), e sim devido às possibilidades que o ser humano poderia assumir caso não fosse contido (caso não fosse limitado), uma vez que já possuía a capacidade de discernimento e, portanto, tinha em si os primórdios da própria consciência.

O fruto do discernimento entre o Bem e o Mal tem o mesmo significado que o fogo roubado por Prometeu na mitologia grega. Neste mito, Prometeu havia roubado o fogo de Zeus e o dado aos mortais. Dessa forma, a humanidade havia adquirido o poder do fogo, deixando sua condição de fragilidade. Prometeu foi amarrado a uma rocha como punição. Todos os dias uma águia devorava seu fígado, e o fígado se regenerava somente para ser devorado de novo no dia seguinte. Tal punição prosseguiu até o dia em que Hércules o libertou.

A semelhança entre Prometeu e Lúcifer (simbolizado pela serpente) é clara, bem como o estígma que obteve por ter profanado o fruto da árvore do Discernimento entre o Bem e o Mal (tal como Prometeu foi acusado, quando profanou o fogo de Zeus).

Por enquanto, vale refletir sobre os mitos e conteúdos expostos aqui. Em breve irei acrescentar novos posts, adicionando mais alguns comentários e, é claro, também irei prosseguir com a narração do sonho (há uma quantidade relativamente diversificada de conteúdo que quero expor sobre o mesmo e, por isso, optei por fazê-lo gradualmente).
Para aqueles que desejarem conferir os trechos mencionados na bíblia, verifiquem Gênesis 3, 1-22. Apenas sugiro utilizarem de uma boa tradução (pessoalmente prefiro a Bíblia de Jerusalém, mas fica a critério de cada um).

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Preço Exigido na Magia

Um dos padrões que percebi no contato com os seres que encontrei no inconsciente é que raramente se fala sobre preço. Talvez você se espante com este conceito que parece tão mundano (preço), e por isso é preciso ressaltar que não se trata de pagar em dinheiro ou vender a alma (na verdade, quando se fala em preço, é isso que as pessoas pensam). Trata-se simplesmente de ação e reação. Para toda ação há uma reação, que pode ser contrária à ação ou não. Esse é o preço.

O universo tem memória. Ele se lembra dos efeitos que sofre e reage a estes. Eu acredito que esta seja uma boa definição para a palavra Kharma (a reação do universo), independente de se crer ou não em reencarnação. Uma das reações possíveis às próprias ações é a qualidade daqueles que você atrai para si, ou seja, da companhia que você tem. Se você buscar o amor, por exemplo, irá atrair quem também busca o amor e se cercará por pessoas assim. Quando você necessitá-lo, irá encontrá-lo. E se você buscar a agressividade, como outro exemplo, irá atrair quem é estimulado pela agressividade. Não espere, portanto, encontrar amor se passar a vida a negá-lo, nem espere encontrar forças para combater algo agressivamente, se tiver reprimido este atributo em si mesmo, sistematicamente, por toda sua vida.

Tratam-se de escolhas e, nestas escolhas, sempre nos unimos a algo e sempre deixamos o que sobra de lado, ou pior: às vezes negamos conscientemente uma qualidade específica, considerando-a um defeito apenas porque não nos convém (ou não nos convém admitir a outros). O que se nega conscientemente terá seus atributos negados na própria existência, distanciados. Portanto, deve-se tomar cuidado caso deseje-se criticar aqueles que possuem fama, dinheiro, prazer, sucesso, etc. Tudo o que se nega, tende-se a excluir de si próprio. Em magia, a pior atitude a se tomar é a hipocrisia.

O preço idealmente é aquilo que tem pouca importância, não sendo de fato o que deveria ser mais relevante. É aquilo que você deixa de lado e que não se importa de excluir de sua vida. É necessário ser fiel a si próprio, com sinceridade para consigo mesmo, para realizar sabiamente as escolhas e seus preços.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Uma Bruxinha e seus Livros

Já há um tempo eu venho falando aqui sobre a Goécia, conhecida como a arte de se entrar em contato com “demônios internos”, mas tenho procurado demonstrar que o termo “demônio” é apenas um estereótipo e, como tal, é só uma forma de se discriminar toda uma pluralidade oculta no inconsciente (veja o post Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda).

É óbvio, portanto, que nem todas as imagens que surgem do inconsciente (dentro desse processo) são demoníacas. Afinal, não é apenas porque rotulamos algo que a experiência real deve se adequar a este rótulo. É o que aconteceu em um sonho que eu tive durante o período em que vivi minha imersão inicial na Goécia, quando vi-me diante de uma bruxa (muito simpática, por sinal) que propunha ensinar-me sobre magia.

Eu acredito que seja um padrão nestas experiências que algo sempre seja oferecido, e talvez seja por isso que pessoas mal intencionadas são atraídas para este caminho (na ânsia de obter coisas). No caso, o que estava sendo ofertado era o conhecimento, e eu o aceitei de bom grado. A bruxa simpática tinha em suas mãos diversos livros, e até mesmo alguns que eu já havia lido.

Estranho repensar um sonho que tive há tanto tempo. Penso principalmente em um livro que vi em suas mãos (Autobiografia de uma Feiticeira, de Lois Bourne) e que já conhecia. Na época em que o li, eu o considerei um tanto questionável, na verdade. Ele reportou alguns fatos que julguei um tanto mágicos demais, forçando um pouco contra a percepção do que se considera normal. Mas hoje em dia eu não sei mais o que pensar sobre o livro, afinal já se passaram treze anos que eu o li. Minha mente se abriu bastante desde aquela época e, se eu o reler, pode ser que eu me surpreenda.

Decidi. Vou relê-lo. Quem sabe eu descubra algo a mais sobre o real significado que aquele encontro com a bruxinha teve em minha vida?