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domingo, 16 de março de 2014

O Diabo e os Folhetos de Missa

No post anterior (Uma Conversa com o “Diabo”), eu comecei a narrar um sonho onde o “Diabo” havia se apresentado a mim (com ressalvas em relação a este nome mas, enfim, era um sonho). A minha narração tinha prosseguido até o momento em que eu e o Diabo havíamos entrado em um elevador e estávamos nos deslocando junto com o mesmo. Prossigo agora com o sonho.

De repente, então, nos materializamos dentro de uma igreja. Ela estava aberta e o ambiente era escuro, da maneira característica de muitos destes templos. Não havia missa naquele momento, porém diante de nós estavam posicionados alguns folhetos que as pessoas costumam utilizar para acompanhar as celebrações e assim poderem participar quando solicitadas.

O Diabo tomou em suas mãos um destes folhetos e mostrou-me. Prosseguiu dizendo:
- Há mais de cem anos eu comecei a mudar a igreja Católica. Lamento não ter conseguido começar antes.

Na sequência, iríamos então nos materializar em um novo local.

***

É certo que o sonho não acaba neste ponto (ainda há mais uma parte) mas pretendo comentar, com alguma profundidade, esta breve passagem descrita aqui. Interpretando-o à luz de minha percepção atual, vêm à minha mente a ocorrência de símbolos e contextos considerados sagrados por muitas pessoas mas que parecem mais familiares do que se supõe que deveriam ser a Lúcifer (é a forma que prefiro chamá-lo, ao invés de “Diabo” como sugere o sonho).

Observe estas afirmações atribuídas ao próprio Jesus:

Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar, e quando eu me for e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também.
E para onde vou, conheceis o caminho". Tomé lhe diz: "Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" Diz-lhe Jesus: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes".
Filipe lhe diz: "Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!" Diz-lhe Jesus: "Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: 'Mostra-nos o Pai!'? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras.
(João 14, 1-11, Bíblia de Jerusalém)

De acordo com esse trecho, Jesus se coloca como o caminho, a verdade e a vida. Ele também se identifica plenamente com o Pai. Ele está no Pai e o Pai está nele. Muitos utilizam desta argumentação para justificar que não existe nenhum outro meio de salvação a não ser por Jesus Cristo e, portanto, pelo cristianismo. Daí que tudo o que é alheio ao cristianismo, é considerado o caminho para a danação, ao invés da salvação.

Quando essa exclusividade (no que diz respeito à salvação) é questionada, a resposta é: “Como podes dizer: 'Mostra-nos o Pai!'? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?”, sendo negada a resposta a este questionamento. A repreensão conclui da seguinte forma: “As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras”.

Não me considero capaz de afirmar se Jesus de fato proferiu estas palavras que lhe foram atribuídas, mas sei que são um argumento perigoso em uma época em que nenhum de nós viu estas obras de fato e, portanto, não podemos atestá-las. O que nos é pedido neste trecho bíblico é que acreditemos em algo que nega tudo o mais sem um bom motivo para fazê-lo. Este “tudo o mais” que é negado representa justamente aquele que muitos chamam de Satanás, ou Lúcifer (embora Lúcifer e Satanás sejam palavras com significados distintos), ou o “Diabo”.

E é aí que entra o papel deste personagem controverso. Ele é diretamente negado pelo suposto sagrado, e daí que é até lógico imaginar um interesse dele nesse sentido. A questão é: que armas ele poderia utilizar? Uma possibilidade é utilizar-se da lógica, da ciência, da filosofia, dos conceitos do esoterismo e do ocultismo, das mais diversas religiões de origem pagã e, enfim, de tudo que não tem laços de dependência em relação ao cristianismo. Mas utilizar-se de toda essa gama de consciência para quê? Simples: para questionar o que, segundo a bíblia, é inquestionável. Questionar é o mesmo que acusar. A palavra Satanás, na verdade, significa exatamente isso: acusador.

Por exemplo, quando culturas inteiras foram expostas ao homicídio em massa (sob requintes de tortura), culminando até mesmo com a morte nas fogueiras, quem era o acusador? Satanás. Aliás, a igreja católica até hoje não se retratou por estes atos de crueldade e violência (embora não tenha sido a única responsável). A humanidade, em geral, não tem memória de atos tão antigos.

Já a palavra Lúcifer tem um sentido bem mais complexo. No mito era um anjo cuja função era conduzir a Luz (Lux Ferre, onde Lux é luz e Ferre é conduzir). Porém, ao invés de desejar ser meramente o condutor, ele pretendeu ser a luz. Ser a luz, de uma forma bem simplista, pode significar também ser consciente (o que envolve toda a gama da consciência que há, e não apenas uma pequena parte, a qual nega a validade do tudo o que lhe é diferente). No entanto, não se trata apenas disso. Ser a luz também significa reconhecer que a divindade está em si mesmo pois ela está em tudo. A divindade é tudo.

Aliás, a palavra Diabo também tem um significado. Ela vem de Diabolos, que é o oposto de Símbolo. O Símbolo dá significado a algo. Já Diabolo, diz respeito a destruir esse significado. De certa forma, também é verdadeira.

O que teriam os folhetos de missa a ver com tudo isso? Há um século não existiam os folhetos de missa pois eram em latim. O conteúdo destes era cifrado para a grande maioria das pessoas, e isto os tornava virtualmente inquestionáveis. A tradução da bíblia católica em diversas línguas (que aconteceu no século passado), bem como a criação dos tais folhetos, trouxe os conteúdos da religião às mentes das pessoas que assim puderam começar a questioná-los.

No próximo post eu vou concluir a narração do sonho e sua interpretação.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Direito de Ser Quem Você Deseja Ser

Trago a vocês um de meus posts originalmente publicado na comunidade Repensando a Magia e o Ocultismo (clique aqui para ver o post especificamente). Apesar das propostas da comunidade e deste blog não serem as mesmas, eventualmente surgem alguns conteúdos que podem ser compartilhados entre os dois espaços.

O post tem forte relação com a história pessoal sobre meu caminho na magia, porém é conceitual. Seu objetivo (assim como de alguns outros) é ajudar a qualificar os eventos que venho narrando. Transcrevo-o abaixo: 


Encontrei recentemente um artigo sobre mapas mentais (http://parquedaciencia.blogspot.com.br/2013/10/cartografia-pessoal-os-mapas-mentais.html). É um conceito novo para mim. Não que se trate de um tema esotérico, mas é uma forma de estudar como um indivíduo se sente em relação ao seu meio. Uma maneira de investigar o subconsciente.

Penso a este respeito, visualizando o que poderia ser feito em termos de investigação no ocultismo. Poderíamos descobrir como as pessoas se sentem em ambientes específicos. Saberíamos as impressões que lhes são causadas. E então, pela soma das respostas, conheceríamos algo sobre como as consciências individuais se dinamizam coletivamente.

Pena que nem todos se permitem dizer exatamente o que pensam e sentem, o que prejudica o estudo neste sentido. Infelizmente vivemos em um mundo cheio de tabus, onde as pessoas são criticadas pelo que desejam mais intimamente. Como se não tivessem o direito de simplesmente ser quem desejam ser... O desejo é reprimido com base em valores morais questionáveis à luz de uma ética simples, a qual deveria ser o limite da liberdade inalienável de ser simplesmente quem você é.

Criam-se dogmas para que as pessoas adequem suas formas de desejar a fim de que se conformem com os mesmos. Reprimindo o que alguém quer mais intimamente, você adquire mais poder às custas deste que é reprimido. E quando o indivíduo reprime a si mesmo em favor de algo que você impõe, ele dá (de livre e espontânea vontade) o poder a você. É uma relação de abuso. E normalmente o abusado torna-se abusador, criando um ciclo vicioso.

Pior que isso, para se impor com mais eficiência, os abusadores chamam-se a si mesmos de detentores da moral (que é uma coisa absolutamente relativa, dentro de cada cultura) e da espiritualidade (que é uma profanação desta palavra).

O segredo oculto à maioria das pessoas é que a pretensa luz é, na realidade, expressão das verdadeiras trevas (trevas no sentido de que você nada pode ver além delas). Tudo o que se coloca além desta pretensa luz foi chamado de diabólico, de demoníaco.

Há apenas diferença e o respeito por esta diferença deveria ser a tônica de todos os relacionamentos, sem maior e sem menor. Rotular alguns seres como divinos e angelicais e outros como demoníacos é um profundo desrespeito à diversidade (observe que a diversidade é realmente muito, mas muito ampla).

Quantos de nós não se sentem mal por algo que se pensa e que vai de encontro aos tabus sustentados por uma maioria inconsciente? Quantos de nós deixamos de fazer algo simplesmente porque a religião não permite?

Acreditam que isso realmente vai libertá-los, que isso vai levá-los à Verdade? Se abusados tornam-se abusadores e se há muitos abusadores, quebremos o ciclo, revertendo-o. Se persistirmos, eventualmente a opressão cessa.

Alguns de meus textos parecem ser um tanto negros, um tanto demoníacos até. Eis a explicação. Não posso me conformar com atitudes inconscientes, mesmo que isso pudesse me trazer algum tipo de conforto.

sábado, 1 de junho de 2013

O Número 2 e sua Relação com Meus Primeiros Contatos com a Bruxaria

Após estudarmos o número 1 (no post Compreendendo o Número 1 no Sistema de Numerologia de 18 símbolos), vamos então para o número 2. O número 2, com sua natureza fixa, estabelece algo, concretizando-o, mas aquilo que é concretizado não é exatamente sólido (estrutural), nem é uma experiência emocional, nem é um estado de consciência especial. Na realidade, o que é concretizado pelo número 2 é uma vivência: uma experiência nova, dentro de um contexto diferente, que é vivida intensa e extensamente. Nesta vivênvia você percebe algo de si mesmo e do que realmente é capaz de realizar. É a descoberta de seu próprio mérito quando diante de um desafio realmente novo.

As pessoas que têm este número associado às suas datas de nascimento (descubra como calcular também no post Compreendendo o Número 1 no Sistema de Numerologia de 18 símbolos) são pessoas cujas atitudes e pensamentos se identificam com o número 2, e que se permitem mergulhar de cabeça em experiências novas e intensas, aprendendo algo sobre si mesmas, e frequentemente têm a sensação de terem realizado algo especial, ou seja: de terem provado seu próprio valor. Isso inúmeras vezes.

No meu caminho pessoal na magia, eu vivi nitidamente o número 2 quando me aventurei a escrever os Ensaios Esotéricos para o site Yogabrasil. Eu contei parte desta história aqui, no post Sabedoria e Entendimento do blog O Mestre Que Nada Sabe, mas certamente há mais a dizer do que foi exposto ali, tão sumariamente. Na realidade, o contato que eu tive com a Eloísa Vargas, e com outras pessoas, trouxe à minha consciência o que de fato é a Bruxaria.

Durante a minha infância, eu cresci com aquelas ideias de contos de fadas onde eram separadas as fadas e as bruxas, nos quais as fadas sempre eram boas e as bruxas sempre más, ainda que, pensando um pouco na literatura infantil, no livro O Maravilhoso Mágico de Oz (The Wonderful Wizard of Oz) de Lyman Frank Baum, já apareciam os termos “bruxa boa” e “bruxa má” (revelando talvez um início de dissolução do preconceito em relação à Bruxaria). Essa era então a bagagem que eu tinha em minha mente sobre as bruxas até quase meus 30 anos de idade. Então aconteceu de que eu de fato conheci duas amigas bruxas e, mais tarde, no breve período em que estive em contato com o Yogabrasil, eu pude compreender do que realmente se trata a Bruxaria.

A Bruxaria é extremamente bela em seus conceitos, mas de uma forma que não parece tão clara para quem a vê de fora. Nela existem a Deusa (a qual representa todas as deusas) e o Deus Cornífero (o qual representa todos os deuses), sendo este o consorte da Deusa. A princípio pode parecer que a Deusa e o Deus sejam distintos dos outros seres (como que meros mortais), mas a ideia não é essa. Na realidade a Deusa é a consciência que interliga e harmoniza todas as coisas, identificada com o planeta Terra e com a Lua. É por isso que ela é tão grandiosa, e tão central na Bruxaria. E também é por isso que o papel das mulheres é tão valorizado e distinto na mesma: as mulheres representam a Deusa.

Já o Deus Cornífero simboliza a totalidade dos atos individuais que buscam renovar o todo. Ele nasce da Deusa, sendo seu filho, e mais tarde será também representado no masculino que corteja o feminino, e também no masculino que se une ao feminino, fecundando-o e renovando-o. Toda essa simbologia é associada aos ciclos da passagem do ano, que se relacionam com os incessantes movimentos de nascimento e morte representados pelas estações do ano (primavera, verão, outono e inverno).

Se há algo que não há na Bruxaria (quando interpretada de forma consciente), é a idolatria. Idolatria é adorar algo acima de si mesmo, colocando-se abaixo. É desvalorizar a si para valorizar outro objeto. Na Bruxaria, Deusa e Deus são vivos em todos os seres. Somos Deusa e Deus. É como se fizéssemos parte de um mesmo corpo. Só que, nessa analogia, existem partes distintas, umas mais conscientes e outras menos (da mesma forma Deusa e Deus existem também como consciências, e são acessíveis). A Bruxaria, portanto, é essencialmente uma visão panteísta, onde tudo é divino. O meu post Quando Tudo é Divino: um Universo sem Criador e sem Criatura expõe também uma visão panteísta, porém não relacionada diretamente com a simbologia da Bruxaria, embora não seja contraditória à mesma.

Revendo a ação do número 2 no meu caminho da magia, eu me sinto bem ao perceber que foi justo no contexto da Bruxaria que eu vivi o desafio que este número me propôs, travando contato com pessoas ligadas à antiga religião, e ao mesmo tempo escrevendo meus Ensaios Esotéricos, que eram então publicados. Eu devo dizer que não conseguiria descrever toda a extensão da Bruxaria neste post se eu assim o desejasse. Há muitos mistérios, sendo que alguns eu tive o mérito de compreender, e há uma multitude que estão além do meu alcance. Somente como exemplo, perceba que a Bruxaria envolve certamente a magia com elementos da natureza porque ela diz respeito a tudo o que há, mas ela não nega outros tipos de crença e de expressão pois, ao envolver tudo, também aceita esta diversidade. Assim, rotulá-la é sempre um erro.

No próximo post, eu vou falar a respeito do número 3 no sistema de numerologia de 18 símbolos e, a partir deste número, vou dar continuidade à narrativa do meu caminho na magia, contando novos fatos. Como eu citei uma vez, no post Algumas Bases Numerológicas, o caminho de um mago sempre é pautado por um ciclo que envolve constantemente buscar algo novo, sedimentar e estabelecer algo, e então desvencilhar-se do que fez para poder prosseguir adiante. Estas três ações são as bases de um sistema de numerologia e eu procurei mostrar que isso já vem sendo percebido pela humanidade há muitos milênios (no post Goécia: Refletindo Sobre o que Marginalizamos no Inconsciente).

sábado, 16 de março de 2013

O Maior Círculo em que Alguém Pode se Iniciar

No post Preparando-se para Iniciar-se como um Mago, eu coloquei algumas considerações a respeito da iniciação, a qual significa passar a comungar com uma egrégora, tornando-se parte de um círculo, entendendo por círculo algo que une e protege o que está dentro de si, de uma forma distinta daquilo que está fora do mesmo, existindo uma infinidade de egrégoras (formas-pensamento, ou redes de ressonâncias criadas por uma coletividade de seres). Hoje em dia, o termo Mago tem múltiplas conotações, de forma que há os que se consideram magos brancos ou magos negros, e outros um tanto indiferentes a estas classificações, principalmente no que diz respeito a muitos magos do caos. No entanto, existe uma acepção mais nobre desta palavra e simplesmente fazer parte de uma egrégora não qualifica alguém neste sentido.

Na verdade há um Círculo maior, cuja natureza eu já comecei a discutir no post Quando Tudo é Divino: um Universo sem Criador e sem Criatura, onde coloquei o postulado de que a divindade está em tudo, e assim de fato tudo é a divindade, de forma que não existe nada que não a seja. A totalidade do que existe pode ser comparada a um organismo e, neste organismo, cada parte tem funções distintas. Se pensarmos neste como o ser humano, o Círculo seria o centro da consciência, o cérebro por assim dizer. A iniciação em relação a este Círculo, esta sim, é o que caracteriza um verdadeiro mago. Não que esta iniciação seja exclusiva, mas ela deve ser a base para as demais. Quando esta fundamenta o desenvolvimento na magia, tudo o mais que se segue é essencialmente branco.

A essência do Círculo é incognoscível se tentarmos dissecá-la em partes lógicas menores, tentando assim detalhar toda sua estrutura. O motivo é que não se trata de uma construção estagnada, sendo na realidade um objetivo constante, um ideal, sempre aliado à criatividade e inteligência em movimento. O fato é que todos os pontos do universo são perceptivos ao universo inteiro, com cada ponto sentindo este universo, mesmo que inconscientemente. Assim, todo o universo encontra-se representado em todas as partes que o formam. O que está acima é como o que está abaixo. Ou, tal como na oração cristã, assim na Terra como no Céu. Dentro de cada parte, representa-se a totalidade (a essência de cada parte é, dessa forma, a totalidade). Ou seja, a essência de tudo o que há é tudo o que há. Esta mesma essência, quando criou sinergias em si mesma, criou o Círculo. A consciência brotou da inconsciência (que era consciência potencial).

Hà um conceito de vida que vai além dos processos biológicos. Tudo é energia e consciência em potencial. Quando esta energia se organiza, a consciência se organiza. A partícula que faz um átomo é um ser em si, da mesma forma que o átomo é um ser em si, mesmo sendo uma pluralidade de partículas. O mesmo vale para as moléculas e para as células e para os seres multicelulares. Somos todos comunicantes e integrados. A dor de um reflete-se no todo. A satisfação de um reflete-se no todo. Daí que um dos fundamentos do Círculo, é a realização de todos os seres, em qualquer nível de abstração. Isso é impossível de explicar, mas não é impossível como objetivo. Quando existe um objetivo, você pode até falhar, mas vai continuar tentando. Assim, a essência do Círculo não é um mecanismo intrincado, e sim uma direção comum. Quanto mais sinergia surge nesse sentido, mais forte este se torna, e mais perfeitos são seus resultados. Essa essência visa afirmar a tudo e nada consegue negá-la. Nesta essência não há a separação entre os seres: não existe mal, nem bem. Existe apenas a unidade. O Círculo está acima das tradições, acima de todas as religiões, e de todas as separações. Tudo emana dele e não há nada que não emane do mesmo.

Todos os posts que escrevi até agora dizem respeito a congruir quem se é, descobrindo o próprio significado e encontrando, assim, o Círculo em si mesmo. É intrigante como encontramos estes conceitos dentro de nós quando os procuramos com todo nosso esforço e imaginação. É mais intrigante quando percebemos que não estamos sós nestas conclusões (pois outros chegam e já chegaram às mesmas) e verificamos assim que o universo realmente é comunicante e partilha de uma consciência comum. Quando esta congruência de si mesmo acontece em toda sua intensidade é o verdadeiro momento de iniciação em relação ao Círculo. Eu suspeito que não exista como prever o exato momento em que isso acontece. Esta iniciação é uma experiência de contato com o que se passou a chamar, em português, o SAG (Sagrado Anjo Guardião), ou HGA (Holy Guardian Angel, em inglês). Se bem que estes termos são apenas interpretações desta experiência, ligadas a crenças específicas. A experiência real, frequentemente, nada tem a ver com as noções de anjos que nos foram incutidas. Os posts que vou escrever a partir de agora vão se focalizar no que vem após esse momento da iniciação com o Círculo embora, é claro, muitos ainda terão um teor reflexivo que pode ser utilizado na congruência inicial.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Esoterismo (Com S) Versus Exoterismo (Com X)

Esoterismo (com s) ou exoterismo (com x)? o que diferencia estas palavras? Será apenas uma questão de grafia?

O exoterismo diz respeito a adquirir conhecimento através de meios externos, ao invés de explorar a via interior (a via intuitiva). O conhecimento é exotérico quando se adota uma postura dogmática para obtê-lo, onde não se admite o questionamento, ou quando se recebe algum tipo de informação de uma fonte externa (seja através de espíritos, de representantes oficiais de alguma religião ou escola, ou de livros em que se leu algo emitido por uma fonte privilegiada). No exoterismo preponderam palavras. A informação é dita, detalhadamente explicada, mas frequentemente não é questionada. Há também símbolos não-verbais, porém para cada símbolo há uma extensa literatura explicando-o, de forma que, para que haja uma interpretação “correta”, é necessário inteirar-se da literatura descritiva que o acompanha.

Já o esoterismo é o oposto do exoterismo. Esoterismo é aprender através da via interior, ao invés de meios exteriores. É um aprendizado que está à disposição de qualquer um porque não depende de meios e condições externas. É explorar o universo dentro de si mesmo, com  os próprios recursos, por assim dizer. No esoterismo preponderam símbolos que precisam ser contemplados e interiorizados. É o caso dos mantras (sons), yantras (símbolos visuais, relacionados ao tantrismo) e mandalas (símbolos visuais circulares). Não que haja algum conteúdo a ser apreendido destes simbolos, mas eles costumam provocar estímulos naqueles que os experimentam e, se as pessoas mantém este contato e permanecem atentas aos estímulos percebidos, a mente se enriquece a partir de seus próprios recursos, de sua própria linguagem, que não é feita necessariamente por palavras.

A diferença se trata então de duas vias: a interior (esotérica) e a exterior (exotérica). Utilizando um exemplo prático, quando alguém lê o tarot, está utilizando a via interior ou a via exterior? Depende. Um arcano (no caso representado numa carta, ou lâmina do tarot) pode ser interpretado tanto pela via interior, quando quem o interpreta usa a via intuitiva, ou pela via exterior, quando a interpretação reflete apenas a erudição ao invés de um estímulo autenticamente pessoal. Assim, percebe-se que um símbolo não é necessariamente esotérico, ou exotérico em si próprio, pois pode ser utilizado em ambos os contextos.

Na atualidade, mesmo nos meios ditos esotéricos (que deveriam buscar a via interior), há muitas pessoas que utilizam a via exterior de aprendizado, ao invés da via interior. Basta lembrar do “fim do mundo” (que acreditava-se de acordo com o calendário maia), e refletir sobre como isto perturbou de fato o mundo (embora o mundo não tenha acabado). Nós estamos sempre nos deixando desviar a atenção de nós mesmos para simplesmente nos sentirmos indefesos frente a “fatos” revelados do “alto”, sobre os quais não temos poder algum. Motivados pela insegurança, buscamos informação, que nos vêm muitas vezes pelo Google, por redes sociais, ou por e-mail. Buscamos palavras, meios absolutamente exotéricos, dos quais não participamos nem sequer minimamente para ajudar a produzi-las.

Cabe lembrar que a magia explora o mundo interior de cada um, o qual é ligado ao mundo exterior, permitindo que se possa agir como causa, ao invés de ser mero efeito. Imaginem o que seria do mundo se houvessem mais magos. Certamente seria um mundo mais difícil de ser controlado. Porém, o desenvolvimento na magia ocorre na medida em que se transcende o próprio ego, unindo-se ao universo de uma forma cada vez maior e, por consequência, mais harmoniosa. Dessa forma, é correto afirmar que o objetivo último de um mago implica em atingir esta união e harmonia (por extensão, o objetivo último da magia e dos magos). A via interior é verdadeiramente libertadora. Como todos nós possuímos potencial para explorar esta via e, como existem muitas estruturas de controle neste mundo, pode ser conveniente para poucos que a grande maioria não saiba o potencial que pode desenvolver. No entanto, para desenvolver este potencial, é preciso começar a fazê-lo e não deixar-se desviar neste processo.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Tornando-se Uma Resposta

Se você pudesse escolher entre oferecer uma pergunta ou uma resposta ao mundo, com qual das opções gostaria de contribuir? Muitos responderiam que preferem oferecer respostas às perguntas do mundo, e outros tantos responderiam que preferem oferecer perguntas pois há respostas demais e perguntas de menos. O que muito poucos perceberiam é que eles mesmos são as respostas para as próprias perguntas. O fato é que cada um de nós vê o mundo sob uma perspectiva única porque muitos aspectos da vida de cada pessoa são únicos.

E que aspectos são esses? O emprego ou o negócio que lhe serve de fonte de renda, por exemplo. Mas você pode estar desempregado, ou optar por não trabalhar seja porque decidiu cuidar de sua casa enquanto o cônjuje trabalha, ou porque optou por não trabalhar com remuneração porque é uma freira, ou um padre. Você pode estar com suas contas em dia, assim como pode estar endividado. Pode ser solteiro, pode estar casado, ou ter filhos. Pode ser uma mãe solteira. Pode ser um adolecente que ainda não teve seu primeiro relacionamento, pode ter se casado, pode estar vivendo uma crise, pode ser viúvo. Pode estar bem de saúde, ou não estar. Estes são alguns poucos aspectos superficiais e há certamente uma infinidade de outros que tornam a sua perspectiva única e que tornam a resposta que você precisa para sua vida extremamente específica.

Compreendendo a pergunta, você poderá começar a construir a resposta. Sim, construir a resposta, pois ela não está pronta (e provavelmente nunca vai estar completamente pronta), mas o eixo em que você deverá sustentá-la é o ponto em comum que existe em todos os elementos de sua pergunta, que é você mesmo. Afinal, se há alguém que é mais interessado na sua perspectiva, só pode ser você. Então faz sentido você considerar a si próprio como a pedra fundamental de sua própria solução. Com isso definido, sobra a você decidir entre buscar esta solução e ser si mesmo, indo adiante, signifique o quer que seja que isso possa significar, ou então você pode optar por negar-se.

A sociedade nos ensina a nos negarmos de uma forma tão continua, e às vezes até sutil, que começamos a fazê-lo sem percebermos. São sistemas de valores que nos são passados, sentimentos de culpa que nos são plantados, ideias sem qualquer coerência lógica que nos são instiladas porque alguém ou algo pretensamente superior as declarou (mas que nos causam medo), possibilidades de erro e fracasso que nos são apontadas, compensações materiais (em forma de dinheiro, por exemplo), compensações imateriais (um possível perdão por sermos diferentes, o alívio do sentimento de culpa, a chance de sairmos dessa para melhor quando chegar o fim do mundo), e outras formas de manipulação. Tudo isso desvia nossa atenção de nós mesmos, detonando respostas instintivas que nos colocam em um estado de torpor. A vida então parece sem sentido ou surge um vazio que não se consegue explicar.

Negar-se é permanecer nesse estado. É agir como se está acostumado. O preço é alto mas as pessoas geralmente não percebem que o estão pagando e esse é um dos motivos de o continuarem fazendo. Mas há outro motivo. O problema é que é difícil desligar-se de todo este comportamento instintivo. É difícil não se deixar manipular. Quando percebemos, já estamos de novo repetindo velhas respostas, velhos comportamentos que nos esgotam. Um bom jeito de começar a agir é prestar atenção justamente nesses momentos em que a energia se vai, analisar a forma que se agiu, procurando descobrir as reações automáticas, e propor-se a ter atitudes conscientes, ao invés de forma instintiva. Este processo de definição terá efeitos primeiro em suas crenças porque você perceberá que muitas das atitudes que você toma são fundamentadas na forma que você acredita que a realidade é. Gradualmente, conforme você mudar suas atitudes, você mudará também seus atos, pois eles apenas refletem as mesmas. E dos atos, você acabará mudando também suas realizações.

Porém um aviso: nada disso virá sem um preço, embora eu acredite que não custe mais do que o preço de não assumir as rédeas de sua própria vida. A diferença é que será um preço perceptível e consciente, ao invés do preço imperceptível e inconsciente ao que as pessoas em geral estão acostumadas. Ainda assim, sempre existirá algum significado, embora em alguns momentos possamos sentir dúvidas. E sempre existirá algo além do vazio, embora frequentemente haja ainda algum vazio a ser preenchido, e esse vazio a preencher pode ser grande em alguns momentos da vida.

O preço, no começo, é a sensação de indefinição, de não se saber mais com que rótulos se descrever. Conforme se começa a descartar os rótulos e desenvolver conceitos, as pessoas se acostumam à falta de rótulos e depois até estranham quando alguém lhes pergunta o que elas são, ou a qual grupo pertencem. Afinal este é um processo de busca de uma resposta única que não tem muito a ver com rótulos ou grupos. Na sequência, o preço vem de mudar as atitudes e atos. Mesmo insatisfeitos, nós todos desenvolvemos, com o desenrolar dos anos que vivemos, um contexto ao nosso redor. Mudar nossa forma de lidar com o mundo é desestabilizar esse contexto a princípio, até mesmo quebrando alguns laços mesmo sem intenção de fazê-lo (ou intencionalmente). Com os laços quebrados, há uma desorientação inicial, mas pagar este preço é fundamental para se criar novos laços.

Muitas vezes é necessário passar por esse processo novamente, em etapas diferentes da vida. Na primeira vez que isso acontece, a reestruturação de crenças é que parece mais difícil. Em outras vezes, podem ser os laços externos que configurem o que nos fragiliza mais. Os primeiros laços perdidos são os mais doloridos. E não sei se os laços quebrados podem ser restaurados com o passar do tempo, mas eu suspeito que sim porque estes laços normalmente estão associados a formas de amor (entender-se como todas as suas formas, seja fraternal, filial, amizade, romântico, etc) e enquanto houver amor dentro de si, não se é completo até realizar este amor, permanecendo este sentimento como parte da pergunta individual a ser respondida. Eu já vi laços se manterem firmes mesmo em momentos difíceis, e já pude ver laços se curarem de formas que não se poderia imaginar. Mas também já vi laços que jamais se curaram. Mas, é claro, quando não há amor, deixe os laços quebrados para trás.

Resta apenas salientar que se deve sempre procurar fortalecer-se interiormente, pois é o interior que lhe dará força para enfrentar os desafios exteriores. Com o passar do tempo, conforme novos laços surgirem, passa-se a contar com ressonâncias exteriores também, as quais lhe farão sentir-se mais seguro quando precisar viver este processo de novo. A transformação que você busca em sua vida precisa se desenvolver de dentro para fora e, se sentir que o risco é grande demais, aja com cautela.

O post O Prazer e a Dor pode lhe fornecer mais alguns insights na busca de definir-se. Caso deseje ler um pouco mais a respeito da opção de afirmar-se, ao invés de negar-se, o post Libertando a Si Mesmo, poderá lhe ajudar nesse sentido. O post Verdades Absolutas Que Não São Tão Absolutas Quanto Parecem Ser pode lhe dar alguns exemplos de verdades que fomos condicionados a aceitar como universais e que podem ser questionadas. Ainda para ajudá-lo a descondicionar-se, você pode ler o post Como Agir Diante do Bombardeio de respostas do Mundo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Papel da Ciência

Nos últimos séculos o ramo do conhecimento que mais tem desafiado a magia, o esoterismo, e até mesmo a religião, é aquele que chamamos de ciência (ou melhor dizendo, as ciências exatas, entre elas sendo considerada a Física como o pivô desse desafio). Não que os cientistas sejam todos céticos. Não é esse o ponto. De fato é precisamente o oposto, para a ciência, não importa o que o cientista pensa, nem quais sejam suas posições pessoais, nem onde viveu, nem quando viveu (a ciência não é feita só de conhecimento novo). A ciência é um corpo de conhecimentos que se forma a partir de observações múltiplas, da coletividade dos cientistas, de onde surgem teorias que são postas à prova em experimentos, os quais nada mais são do que formas de se obter novas observações. É assim que funciona o método científico e é por isso que o que esse método descobre é tão eficaz: é um conhecimento verificado, que se torna a base da tecnologia e a tecnologia se mistura ao ser humano, modificando-o e modificando o mundo também, por extensão.

A ciência, por ser formada por um conhecimento verificado, e também por causa de todos os benefícios que ela tem trazido ao mundo do ponto de vista tecnológico, é, sem dúvida, imensamente sedutora. Quando se diz que algo é científico, o que quer que seja, passa a ser considerado como verdadeiro, ou pelo menos um candidato muito provável a ser verdade. Já quando se diz que algo não é científico, as pessoas tendem a acreditar que é falso. Mas isso não deveria ser assim, afinal, apenas porque algo ainda não foi verificado cientificamente, não quer dizer que seja falso. Ainda assim, torna-se cada vez mais difícil manter certas posições arraigadas quando a ciência insistentemente aponta para outra direção. Por exemplo, citemos o Gênesis bíblico, o qual muitas pessoas ainda acreditam ser uma descrição literal de como o mundo foi criado:

Deus disse: "Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas", e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao firmamento "céu". Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia. Deus disse: "Que as águas que estão sob o céu se reúnam numa só massa e que apareça o continente" e assim se fez.
(Gênesis 1; 6-9 - Bíblia de Jerusalém)

A despeito de todo conteúdo ocultista que haja no texto, está também revelado aí como pensavam as pessoas, sobre a criação do mundo, na época em que foi escrito, em que a ciência como a conhecemos era ainda primitiva. O que se destaca neste trecho específico diz respeito à água. A ideia é que havia água em toda a parte (a Bíblia não deixa claro como a água surgiu) e que foi feito um firmamento (algo firme, pensemos numa redoma como metáfora) que separou a água acima (formando o céu), da água abaixo (os mares), e depois da água surgiram os continentes. Afinal o céu é azul, não é? E chove também a partir dele. Isso tudo só pode indicar que é cheio de água. Ou pelo menos era o que parecia para as pessoas na época. Ainda sobre o firmamento:

Deus disse: "Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra" e assim se fez.
Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para  separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia.
(Gênesis 1; 14-19 - Bíblia de Jerusalém)

Os luzeiros, nessa explicação, foram colocados na redoma. O Sol e a Lua se movendo nela, e as estrelas afixadas. As pessoas sequer imaginavam que o universo estava (e está) em expansão, de forma que as estrelas não tem posições fixas. Na realidade, essa forma de pensar, de um universo eternamente estacionário, continuou até o começo do século XX, até que observações mostraram o contrário.

Eu gosto desta visão de Stephen Hawking, um físico notório da atualidade, em seu livro O Universo Numa Casca de Noz:

Uma teoria científica segura, seja do tempo ou de qualquer outro conceito, deve, na minha opinião, ser baseada na mais viável filosofia da ciência: a abordagem positivista formulada por Karl Popper e outros. Segundo essa maneira de pensar, uma teoria científica é um modelo matemático que descreve e codifica as observações que fazemos. Uma boa teoria descreverá uma vasta série de fenômenos com base em uns poucos postulados simples e fará previsões claras que podem ser testadas. Se as previsões concordam com as observações, a teoria sobrevive àquele teste, embora nunca se possa provar que esteja correta. Por outro lado, se as observações discordam das previsões, é preciso descartar ou modificar a teoria. (Pelo menos, é isso que deveria acontecer. Na prática, as pessoas muitas vezes questionam a exatidão das observações, a confiabilidade e o caráter moral de seus realizadores).

Esta citação resume a essência da ciência e também o seu valor. Essa essência, por mais que nos incomode, não deve ser mudada. É ela que nos garante o eterno questionamento que nos aponta a nossa própria cegueira. É claro que o conhecimento científico é apenas uma pequena parte da Verdade. Há muito que ainda precisa ser verificado para se tornar verdade científica. Muitos de nós gostaríamos que o que pensamos fosse tornado parte desse corpo de conhecimento sem mudanças, e essa é uma aposta ainda mais cega quando não questionamos as raízes do que sabemos, confiando, sem questionar, em dogmas que não criamos. Para nosso alívio, não podemos nos esquecer que a ausência de evidências não é a mesma coisa que a evidência da ausência, o que significa que não precisamos procurar justificar nossa forma de pensar e ser, com base exclusiva no que postula a ciência. Na realidade há duas falhas que devemos evitar: a primeira é ignorar a ciência; a segunda é endeusá-la. Precisamos aceitar que a ciência de um lado, e a magia, o esoterismo e o ocultismo de outro, têm naturezas diferentes, porém complementares e que irão interagir, transformando-se. O fato é que o conhecimento da verdade absoluta não está em lugar algum. Deixo aqui um comentário de Carl Sagan (09/11/1934-20/12/1996), astrônomo e astrofísico renomado por divulgar a ciência ao público leigo, a respeito de uma conversa que teve com Dalai Lama (o livro de que foi retirada a citação, apesar do título, não se trata de demonologia e sim da relação da ciência com demais campos de conhecimento):

Quando discuto teologia com líderes religiosos, pergunto freqüentemente qual seria a sua reação se um dogma central de seu credo fosse refutado pela ciência. Quando fiz essa pergunta ao atual dalai-lama, o 14.º, ele me deu sem hesitar uma resposta que nenhum líder religioso conservador ou fundamentalista daria: nesse caso, disse ele, o budismo tibetano teria de mudar.
- Ainda que fosse um dogma realmente central - perguntei - como a reencarnação?
- Ainda assim - ele respondeu. Entretanto - acrescentou com uma piscadela - vai ser difícil refutar a reencarnação.
Sem dúvida, o dalai-lama tem razão. A doutrina religiosa imune à refutação tem poucos motivos para se preocupar com o progresso da ciência.
A idéia grandiosa, comum a muitos credos, de um Criador do Universo é uma dessas doutrinas - é igualmente difícil prová-la ou refutá-la.
(“O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan)

domingo, 25 de novembro de 2012

Como Agir Diante do Bombardeio de Respostas no Mundo

Quantas vezes acontece de se apresentarem, diante de nós, respostas para a vida? E cada uma delas é apresentada como a única resposta certa, invalidando todas as outras. Depois de um tempo, quem nos deu a resposta muda de ideia, como se aquela ideia perfeita não mais valesse, e então nos oferece uma nova, perfeita de novo. Há tantos que se oferecem com respostas perfeitas que nem sabemos por onde começar.

Estamos recebendo um verdadeiro bombardeio de respostas, sem termos sequer formulado uma pergunta. Apenas aproximam-se de nós e dizem “Eu tenho a resposta para sua vida”, e então se dissermos “Você conhece a minha vida?”, simplesmente nos tratam como se não importassem nossas particularidades pois, quaisquer que elas sejam, estão presumindo que a resposta oferecida é perfeita. Caso realmente provemos que nossas particularidades não se ajustam à resposta (o que tornaria a resposta inadequada), nos é dito que não é a resposta que é inadequada, e sim nós que o somos. Nós que não pegamos o X da questão e, portanto, deveríamos ouvir mais e falar menos.

Entramos assim, sem querer, em um jogo de hierarquias onde existem aqueles que têm mais acesso à uma pressuposta verdade e que estão em uma posição natural de líderes, e também existem aqueles que apesar de indígnos de ter acesso a verdades tão maravilhosas, têm a oportunidade (a sorte) de ter a benevolência dos superiores, e que fariam muito bem se deixassem-se guiar submissos, ao invés de ficarem fazendo perguntas irrelevantes que só tiram as pessoas do propósito verdadeiro. É assim que as pessoas se deixam influenciar. É assim que pessoas conscientes se transformam em uma massa humana, muitas vezes sendo comparadas a um grande e imenso gado.

Particularmente, essa massa humana se forma principalmente em situações de opressão. Parece que quantos menos você tem, quanto mais difíceis as condições de realização no mundo, mais suscetíveis as pessoas são de pensarem de uma forma diferente. É nesse momento que as pessoas podem ser manipuladas a acreditarem em algo que, em outras condições, não acreditariam. Há um lado positivo nessa condição, quando chega a abrir nossas mentes e até mesmo nos conduz a uma autêntica experiência mística (veja o post A Bíblia e a Experiência Mística, que explora esta condição), a qual é uma experiência de contato consigo mesmo, encontrando, em si, o divino. Mas também há o lado negativo, que é sermos mais facilmente manipuláveis nestas condições. Como exemplo negativo está o nazismo, no qual o povo alemão deixou-se levar por uma ideologia de ódio e preconceito, justamente porque estavam desacreditados dentro de uma grave crise econômica.

As pessoas, quando tomam atitudes nessas condições, tendem a mudar suas crenças devido ao fenômeno da dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva, em linhas gerais, é nossa tendência a ajustarmos nossos valores e crenças quando fazemos algo que consideramos inaceitável, de forma que passamos a aprovar nossos próprios atos, os quais deixam de ser incompatíveis com nossa nova forma de pensar e acreditar. Quanto mais gritante for a incompatibilidade entre nossas atitudes quando comparadas às nossas crenças e valores, maior é a dissonância cognitiva, e maior o ajuste nestas mesmas crenças para que sejamos capazes de nos sentir melhor, sendo esta uma transformação muito mais profunda do que uma mera mudança de atitude.

Este fenômeno acontece, com grande frequência, no âmbito da religião. A religião, embora tenha uma conotação de religar-se ao divino (o post Quando Tudo é Divino: Um Universo sem Criador e sem Criatura explora esta conotação), não têm este sentido quando representada pela grande maioria das religiões que existem no mundo atual. Na verdade, nestas religiões costumam ocorrer grandes massas de pessoas submissas a hierarquias de controle, ao invés de haver pessoas verdadeiramente conscientes. Estas religiões se valem amplamente da dissonância cognitiva para plantarem dentro das pessoas os seus dogmas, de forma que as pessoas já não precisam mais ser controladas, pois controlam a si mesmas. Mesmo quando a sociedade não vive situações opressivas, as religiões também conseguem exercer influência sobre as pessoas pois, quando um indivíduo destoa da maioria, a ação desta maioria se torna opressiva por ser baseada em julgamentos de valores morais (ou seja: padrões de certo ou errado, pertinentes à cada crença). Como tratam-se de hierarquias de controle, com diversas ramificações, existem diferenças de status entre as pessoas, uma desigualdade entre os indivíduos e, embora haja um grande moralismo inerente à cada religião, pouco existe de ética, uma vez que a ética é fundamentada na igualdade.

As pessoas frequentemente se encontram dentro desse processo sem que o percebam. De fato, compreender esse processo ocorrendo é o passo inicial para nos descondicionarmos dele e começar a agir verdadeiramente com consciência na própria vida. É uma transformação que começa pela análise dos atos, e então das atitudes, e prosseguindo cada vez mais para dentro de cada um, até o questionamento das próprias crenças (o qual pode ser dolorido). Para fornececer alguns insights, há os posts Modelando as Próprias Crenças (o qual pretende ajudar a começar este questionamento), Libertando a Si Mesmo (que tem enfoque na liberdade de pensamento, intrínseca a todo ser humano) e Questionando a Definição de Deus, o qual procura quebrar algumas visões que são aceitas comumente, embora sejam incongruentes entre si e, mesmo assim, não são questionadas (este último post tem um enfoque proposital em quebrar crenças e pode causar uma certa desorientação a princípio).