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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

2016 - Ano de Complementações

2016, ano novo chegando e trazendo consigo uma nova vibração, ressonando complementação. Certamente uma palavra muito promissora, mas com um significado um tanto sutil. Não se trata exatamente da materialização daquilo que almejamos, e sim daquele impulso que também deveríamos buscar se, conscientemente, por esforço próprio, procurássemos desenvolver as qualidades que nos permitiriam tornar real aquilo que mais almejamos que seja real.

Sutil demais, eu sei. Digamos que 2016 vai mostrar, bem diante de nossos narizes aquilo que nos falta, se algo nos falta (e sempre há algo por melhorar). Pode ser desconcertante descobrir a qualidade que precisamos desenvolver para concretizarmos nossos objetivos. Pode causar resistência de nossa parte. De fato, será um exercício de aprendizado. Uma chance de nos tornar mais sábios sobre o que realmente nos importa na vida. 

Agora, pode acontecer dessa lição já ter sido aprendida. Nesse caso, 2016 trará uma excitante materialização, tanto do que mais desejamos quanto do que completa e torna real aquilo que buscamos. Será, certamente, uma oportunidade de colheita para o indivíduo consciente de seus potenciais internos e das dinâmicas e mecanismos para que estes se concretizem, notadamente no que diz respeito à magia.

Ou seja, 2016 trará à tona aquilo que precisamos aprender a lidar para sermos completos. Intrigante se essa manifestação se traduzir em uma ou mais pessoas. Isso acaba por nos dar uma chance de conversamos com o que precisamos assimilar. Assim transformamos o que seria uma experiência de aprendizado numa oportunidade de harmonização. Pares podem se encontrar de uma forma bem interessante. E na magia, então? Contatos importantes, há muito tempo esperados, podem se desenvolver.

Óbvio que o que quer que 2016 revele, só irá complementar aquilo que temos realmente buscado. Se apenas reagimos às experiências do dia-a-dia, sem nos deixarmos motivar por deixar uma marca, nada acontecerá pois não haverá coisa alguma a ser complementada.

2016 vai trazer, portanto, muitas possibilidades. Espero, sinceramente, que você consiga aproveitá-lo ao máximo. 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Olhando para Dentro de Si

Certa vez eu sonhei que estava em uma espécie de universidade. Ali cada um dos alunos (inclusive eu) tinha um apartamento para si e existiam imensos corredores mal iluminados, com a atmosfera característica dos prédios antigos. Já os apartamentos, estes tinham boa iluminação interna, transmitindo uma impressão mais jovial.

Os alunos se cumprimentavam dentro desses corredores quando estavam saindo ou chegando. Nesses momentos, breves conversas aconteciam. Por acaso eu e um colega estávamos chegando ao mesmo tempo e, enquanto tirávamos as chaves do bolso, eu o cumprimentei:
- Olá! Tudo bem?
- Olá, tudo - ele respondeu.

Prosseguiu:
- Você é novo por aqui?
- Sim, cheguei há pouco tempo.
- Pois então, há algumas vantagens de ficar por aqui. É muito confortável e você é bem assistido. Praticamente não há porquê se preocupar a respeito de suas necessidades básicas.
- Isso é realmente muito bom - assenti.
- O único detalhe é que você precisa estudar, e isso pode ser um tanto difícil para alguns alunos.
- Mesmo? Porque?
- Digamos que nem todos tem sangue frio para os conteúdos ensinados aqui. São um tanto demoníacos.

Fiquei em silêncio por alguns segundos e indaguei:
- Demoníacos?
- Sim, demoníacos. Mas agora preciso entrar. Depois conversamos mais.

Entrei em meu apartamento e encostei a porta. Aquela revelação me assustou. Sobre este trecho do sonho, me parece um tanto estranho. O fato é que, para alguém como eu, já acostumado às experiências relacionadas à goécia (a arte do contato com demônios internos), uma revelação deste tipo não deveria me perturbar tanto mas, enfim, era um sonho e os sonhos muitas vezes seguem por uma lógica própria, a qual nem sempre correponde ao que pensamos durante os momentos de vigília.

Retornando à narração do sonho, decidi então abandonar aquele lugar e fiquei algum tempo fora do campus (eu não tenho uma percepção exata de quanto tempo se passou). No entanto, mudei de opinião e resolvi voltar. Ao retornar, encontrei um dos professores da faculdade (ao menos me parecia assim). Cumprimentou-me e começou a conversar comigo. Em certo momento indagou:
- Posso lhe fazer uma pegunta, mesmo arriscando-me a ser indiscreto?
- Sim, é claro que pode - respondi.
- Percebi que você se ausentou por um tempo. Estava pensando em nos deixar, não estava?
- Estava - confessei.

Houve uma breve pausa, como se ele estivesse ponderando sobre o que me dizer. Prosseguiu:
- Muitos têm esse impulso, mas é preciso dizer-lhe que nenhum de nós deseja mantê-lo aqui à força. Você pode nos deixar ou pode resolver ficar, mas irá se beneficiar se passar alguns anos aqui conosco.
- Como assim? Explique.
- Você gostaria de ter um significado para as pessoas?
- Um significado?
- Sim. Você quer que seu nome represente algo para as pessoas? Quer que possam procurá-lo e encontrá-lo se de fato o desejarem?
- Quero - eu disse.
- Então fique conosco - concluiu.

***

O período em que tive este sonho (e outros) foi caracterizado por muitos contatos “demoníacos” (para mais detalhes confira o post Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda). Estas experiências ocorreram dentro de um processo de imersão na goécia e estou relatando-as neste blog. O que talvez não esteja muito claro nestas narrações é o motivo destes contatos terem acontecido.

Para fornecer esta explicação, é necessário considerar que estou tratando aqui sobre como segui meu próprio caminho na magia, lembrando que a arte de um mago é, principalmente, um meio para alcançar a realização própria. Existe uma crença errada que se baseia no princípio de que é preciso fazer uma escolha entre servir a si mesmo ou servir aos seus semelhantes. Por esse princípio, aqueles que decidem servir a si próprios normalmente são rotulados como egoístas. Já os que decidem servir aos demais, sem pensarem em si mesmos, são considerados altruístas.

No entanto, será que esta escolha é realmente necessária? Será que é benéfica? Imaginem se todos negassem a si mesmos em prol de uma coletividade. Seriam felizes? Certamente que não. Da mesma forma, não haveria bem algum à humanidade se cada um de nós buscasse a realização individual sem considerar os demais. Pode-se deduzir que o verdadeiro desafio não é escolher focalizar seja o indivíduo, seja o coletivo. O objetivo mais importante é satifazer ambas condições, simultaneamente.

Difícil fazer isso? Nem tanto. Quando comparando o indivíduo versus o coletivo, o que exatamente consideramos ser este coletivo? A pluralidade é homogênea (todas as pessoas são iguais) ou é heterogênea (cada pessoa tem um objetivo diferente)? É óbvio que a coletividade é heterogênea. Portanto há quem tenha ressonância conosco e também há quem tenha dissonância. Só precisamos saber reconhecer qualitativamente o que nos cerca, isolando-nos de situações em que percebemos conflitos, e buscando unir-nos àqueles que nos completam. Dessa forma as necessidades individuais e coletivas se harmonizam.

No entanto, antes de buscarmos o que nos completa, precisamos saber o que somos. É basicamente disto que trata este sonho. É a necessidade imperativa de definir a si mesmo primeiro (assumindo um compromisso nesse sentido), antes de encontrar ressonâncias externas. Enquanto não nos definimos, somos parte do problema pois nenhuma solução que se apresente a nós nos satisfaz. Nessa condição, somos uma incógnita e não criamos sinergias. Colocamo-nos literalmente em cima do muro, tornando-nos sem expressão, sem significado e, por isso mesmo, desinteressantes.

As pessoas normalmente procuram as respostas para suas vidas, só que o fazem olhando para fora de si mesmas, quando deveriam olhar para dentro de si. É dentro de cada um que está a chave para a auto-realização. Essa é uma verdade tão insuspeita quem nem sequer é necessário ocultá-la dos incautos. Você pode espalhá-la pelos quatro cantos do mundo, mas as pessoas em geral não a ouvem. Teimam em acreditar que aquilo que são, de fato, não importa para atingirem o sucesso pois julgam-se ser “meras gotas de água dentro de um imenso oceano” e, por isso mesmo, tentam se conformar. Importa para essas pessoas conseguir uma promoção, ir bem nas provas, seguirem uma religião que lhes apresenta um modelo do que devem ser (ignorando por completo o que realmente são). Enfim, focalizam no que lhes é externo. Não lhes passa pela cabeça que a realidade externa pode se tornar a consequência de uma estruturação que começa internamente, expandindo-se depois.

Não parece um tanto absurdo tentar controlar tantas condições alheias a nós mesmos? Nunca sabemos exatamente o que outra pessoa pensa e sempre cometemos erros de julgamento. Não somos infalíveis na nossa forma de avaliar o mundo. Por outro lado sabemos quem somos. Porque não partir desse princípio?

É disso que trataram estas experiências que surgiram espontaneamente na minha vida: definir-me. Enquanto eu definia a mim mesmo, é claro que minha relação com o inconsciente ia se estruturando. Não era ainda um momento para ser eficaz na realização de ritos mágicos mas eu estava criando minhas relações com o invisível. Essas relações iriam influenciar o mundo visível no devido tempo. Mas isso eu vou contar mais para frente.

sábado, 22 de março de 2014

Respondendo ao Diabo

Nos posts Uma Conversa com o “Diabo” e O Diabo e os Folhetos de Missa, narrei as duas primeiras partes de um sonho. Neste sonho, o Diabo (tal como havia se identificado a mim) levou-me primeiro ao Éden e, logo em seguida, à uma igreja. O post atual descreve a parte final do sonho.

Havíamos nos desmaterializado na igreja e estávamos então em um deserto. Apesar do Sol ali estar forte, a temperatura ambiente não me parecia quente. Caminhamos até uma rocha onde havia uma caixa sobre a mesma. O Diabo tomou-a em suas mãos, abriu-a e mostrou-me seu conteúdo. Havia ali uma pedra que brilhava quase que hipnóticamente. O interior da caixa estava escuro, protegido pela sombra, mas mesmo assim a pedra brilhava como se tivesse luz própria. Eu a observava quando ele iniciou o diálogo:

- Esta pedra representa tudo o que você possa desejar. Não existe limite para o que ela possa realizar.

Eu continuava observando-a. No entanto, eu não apenas a observava. Eu também a desejava. Ele prosseguiu:

- Você a considera interessante?
- Sim, muito interessante - respondi.
- Então sirva a mim e poderá ter tudo o que ela significa.

Assustei-me. Apesar de seduzido pelas possibilidades daquela pedra, eu não tinha intenção de submeter-me ao Diabo, mesmo que fosse para obtê-la. Dei-lhe minha resposta:

- Desculpe. Não posso. Permite que eu lhe explique o motivo?

Procurei ódio no seu olhar mas não encontrei. Na realidade ele estava prestando atenção às minhas palavras, como que interessado no que eu estava para dizer. Continuei:

- Não posso servir alguém acima de mim mesmo. Eu penso que este é o verdadeiro significado da idolatria. Não posso lhe jurar lealdade. Quero propor-lhe outra coisa.

Ele continuou prestando atenção ao que eu dizia. Dei continuidade à minha proposta:

- Eu posso me unir a você à medida que nossos ideais forem os mesmos. Se estes assim o forem, não há problema em prosseguirmos juntos. Porém, se nossos ideais forem diferentes, ou tornarem-se diferentes, cada um de nós é livre para seguir seu caminho. Que acha disso?

Ele não me deu resposta. Apenas observava e aparentemente refletia sobre o que eu lhe tinha dito. O sonho se encerrou nesse momento.

***
Nos dias que seguiram logo depois de meu sonho, um grande fluxo de intuições veio à minha mente a respeito de Lúcifer. Conforme os anos se passaram, este fluxo diminuiu mas, de tempos em tempos, sempre existiram alguns lampejos. A impressão que eu tenho é que Lúcifer acabou levando em conta a minha reposta.

Confesso que por muitos anos esse sonho me deixou um tanto confuso. Afinal trata-se de um ser que tornou-se proscrito por não aceitar uma existência de possibilidades previstas e confinadas à imutabilidade (conforme o post Uma Conversa com o “Diabo”) e, ao mesmo tempo, trata-se de alguém que usa toda uma gama de conhecimento e consciência contra uma visão estéril, auto-rotulada como cristianismo que busca se impor sobre tudo o mais como o único meio de se chegar à verdade (conforme o post O Diabo e os Folhetos de Missa). Será que ele se tornaria exatamente aquilo que persegue? Será que alguém consegue abrir a mente de outras pessoas sem abrir sua própria mente?

Só recentemente cheguei a um posicionamento a este respeito que aparenta explicar estas discrepâncias. A sugestão de Lúcifer (“Sirva-me”) foi um teste. De um lado, a possibilidade de possuir tudo o que se quer. De outro, a possibilidade de perder-se a si próprio. O teste seria: “Dependendo do preço, você abre mão de seus ideais?”. A resposta que dei-lhe foi exatamente com base nos meus ideais.

Há alguns meses conversei com uma amiga que disse que havia tido uma experiência de contato com Lúcifer há alguns anos atrás. Só que no caso dela não foi apenas um sonho, e sim um contato de aproximadamente um mês que eu presumo que tenha acontecido pelo astral. O interessante é que a narrativa dela concluiu também da mesma forma, com a mesma proposta de Lúcifer. Ela se negou, tal como eu o fiz, mas eu fico curioso para saber os detalhes de sua resposta.

Eu suspeito que Lúcifer sempre fez esta questão, às mais diversas pessoas, conforme passaram-se os milênios. A bíblia relata o momento em que Jesus respondeu a essa mesma pergunta, embora eu não saiba quão fiel ao fato original esta descrição bíblica realmente é. Confira o seguinte trecho:

Então Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então, aproximando-se o tentador, disse-lhe: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães".
Mas Jesus respondeu:
"Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. " Então o diabo o levou à Cidade Santa e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra. "
Respondeu-lhe Jesus:
"Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus. "
Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe:
"Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares". Aí Jesus lhe disse:
"Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto. " Com isso, o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e puseram-se a servi-lo.
Mateus 4, 1-11 (Bíblia de Jerusalém)

É de senso comum no ocultismo que Jesus também foi um mago, o que eu acredito que seja verdade, mas não penso nele como o filho de Deus. Eu acredito que ele tenha sido apenas um mago como tantos outros. As experiências que ele viveu, por mais que possam ter parecido assombrosas para aqueles que com ele conviveram, não são experiências únicas. Também é óbvio que há invenções e exageros. Digamos que o mago que Jesus foi verdadeiramente é tão próximo ao mito criado sobre o mesmo quanto as bruxas verdadeiras são capazes de voar em vassouras…

Enfim, o que significa passar nessa prova de Lúcifer? Será que dá o direito a alguém de usar uma pedrinha mágica que realiza qualquer desejo? Duvido… Afinal de contas tudo na minha vida tem sido ação e reação, tal como na vida de qualquer pessoa. Você colhe aquilo que planta. Se souber plantar bem, colhe bem. Esta pergunta permanece sem resposta.

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Preço Exigido na Magia

Um dos padrões que percebi no contato com os seres que encontrei no inconsciente é que raramente se fala sobre preço. Talvez você se espante com este conceito que parece tão mundano (preço), e por isso é preciso ressaltar que não se trata de pagar em dinheiro ou vender a alma (na verdade, quando se fala em preço, é isso que as pessoas pensam). Trata-se simplesmente de ação e reação. Para toda ação há uma reação, que pode ser contrária à ação ou não. Esse é o preço.

O universo tem memória. Ele se lembra dos efeitos que sofre e reage a estes. Eu acredito que esta seja uma boa definição para a palavra Kharma (a reação do universo), independente de se crer ou não em reencarnação. Uma das reações possíveis às próprias ações é a qualidade daqueles que você atrai para si, ou seja, da companhia que você tem. Se você buscar o amor, por exemplo, irá atrair quem também busca o amor e se cercará por pessoas assim. Quando você necessitá-lo, irá encontrá-lo. E se você buscar a agressividade, como outro exemplo, irá atrair quem é estimulado pela agressividade. Não espere, portanto, encontrar amor se passar a vida a negá-lo, nem espere encontrar forças para combater algo agressivamente, se tiver reprimido este atributo em si mesmo, sistematicamente, por toda sua vida.

Tratam-se de escolhas e, nestas escolhas, sempre nos unimos a algo e sempre deixamos o que sobra de lado, ou pior: às vezes negamos conscientemente uma qualidade específica, considerando-a um defeito apenas porque não nos convém (ou não nos convém admitir a outros). O que se nega conscientemente terá seus atributos negados na própria existência, distanciados. Portanto, deve-se tomar cuidado caso deseje-se criticar aqueles que possuem fama, dinheiro, prazer, sucesso, etc. Tudo o que se nega, tende-se a excluir de si próprio. Em magia, a pior atitude a se tomar é a hipocrisia.

O preço idealmente é aquilo que tem pouca importância, não sendo de fato o que deveria ser mais relevante. É aquilo que você deixa de lado e que não se importa de excluir de sua vida. É necessário ser fiel a si próprio, com sinceridade para consigo mesmo, para realizar sabiamente as escolhas e seus preços.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda

As pessoas possuem os mais diversos critérios para definir o que consideram magia branca e magia negra. Muitos relacionam a via sinistra (a do caminho da mão esquerda) à magia negra, enquanto associam o caminho da mão direita à magia branca. Pessoalmente eu não concordo com este tipo de associação e quero acrescentar aqui minha definição pessoal sobre o que considero ser o real divisor de águas entre estes dois caminhos (da mão esquerda e da mão direita), o qual acredito que seja a experiência com Choronzon.

Alguns o consideram um demônio, enquanto outros acreditam que seja meramente uma espécie de dinâmica (um efeito sem personalidade). Na realidade eu já comentei muito sobre minhas próprias experiências com Choronzon em posts anteriores (veja O Início de uma Experiência Assustadora com meu Inconsciente, Um Tempo com Choronzon, A Lição que se Aprende com Choronzon e Entendendo o Papel de Choronzon), mas é óbvio que ainda não esgotei o que gostaria de comentar sobre este tema, como vou demonstrar agora.

Um certo tempo após o encontro com meu Santo Anjo Guardião (veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), eu tive uma experiência de confronto com este ser. O mais interessante nesta experiência é que eu pude ver refletido meu ego, com todas suas ilusões sedutoramente ampliadas. Ao perceber minhas ilusões, eu pude lidar com elas objetivamente pois estas haviam perdido grande parte do poder de manipular-me.

Percebi que o ego fazia-me negar infinitas possibilidades apenas para afirmar um “ideal” que não me satisfazia, que traduzia-se em crenças que me foram instiladas desde minha infância. Eu considerava-me inferior ao comparar-me com os padrões assumidos nestas crenças. Considerava-me fraco, incompleto, cheio de necessidades e com desejos questionáveis. Considerava-me um fracasso por não ser quem eu acreditava que deveria ser. O encontro com Choronzon me fez perceber a insanidade a que eu me impunha ao tentar medir-me por padrões praticamente inatingíveis.

Questionei então se era eu que de fato estava errado por causa de minhas necessidades (às quais eu tentava ignorar e jamais conseguia) ou se o erro estava em ter assumido um sistema de crenças e valores que não inventei, através de uma fé a qual eu não questionava. Foi aí que resolvi abrir-me para a amplitude que existe dentro do inconsciente. Há infinitas possibilidades ali. O que me assustou, a princípio, foi como esta diversidade mostrou-se escura, um tanto demoníaca. Afinal era assim que eu havia me acostumado a julgar esta diversidade, e é assim que o mundo também costuma julgá-la.

Nenhum ser dos que se consideram iluminados apresentou-se ali. Estes seguem regras estritas e possuem caminhos rígidos. Não estendem a mão para quem julgam não possuir o mérito de conhecê-los. Por outro lado, aqueles que se apresentavam receberam-me com cordialidade e passei a interagir com eles, principalmente nos sonhos. Foi assim que optei pela via sinistra, pelo caminho da mão esquerda, o mergulho dentro do inconsciente, e jamais me arrependi. Não encontrei ali o ódio, e sim o profundo amor pela diversidade.

Hoje em dia afirmo conscientemente que amo profundamente aquilo que muitos temem, não por vantagens que isso poderia trazer, pois estas vantagens são ilusórias. O mundo vem instilando há muito tempo o conceito de que a diversidade é malígna e que somente uma opção é benígna. Muitos acreditam nisso e, inspirados por má índole, buscam a via sinistra. São escolhas inconscientes que sempre levam à desilusão.

No meu caso, a escolha pareceu-me simples: era permanecer em um caminho cada vez mais estéril por isolar-se de tudo o mais (o que antes eu julgava ser o caminho certo), ou permitir que toda uma multiplicidade de influências viesse a mim. A opção lógica era abrir-me à diversidade. Eu desconhecia então os conceitos de caminho da mão esquerda (em que acontece a abertura ao inconsciente) e caminho da mão direita (que isola de si grande parte do inconsciente, negando-a). Para mim a escolha parecia ser óbvia. Levei algum tempo para compreender que o caminho que havia escolhido não era o mesmo trilhado por muitos outros.

Ultimamente eu tenho percebido que o caminho da mão esquerda está se tornando mais reconhecido pelas qualidades que tem, e não pelos desejos mesquinhos dos tolos. Isso é bom porque é um caminho para a vida, porque a vida é ampla e múltipla. Precisamos comungar com a vida e não subjugá-la.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Direito de Ser Quem Você Deseja Ser

Trago a vocês um de meus posts originalmente publicado na comunidade Repensando a Magia e o Ocultismo (clique aqui para ver o post especificamente). Apesar das propostas da comunidade e deste blog não serem as mesmas, eventualmente surgem alguns conteúdos que podem ser compartilhados entre os dois espaços.

O post tem forte relação com a história pessoal sobre meu caminho na magia, porém é conceitual. Seu objetivo (assim como de alguns outros) é ajudar a qualificar os eventos que venho narrando. Transcrevo-o abaixo: 


Encontrei recentemente um artigo sobre mapas mentais (http://parquedaciencia.blogspot.com.br/2013/10/cartografia-pessoal-os-mapas-mentais.html). É um conceito novo para mim. Não que se trate de um tema esotérico, mas é uma forma de estudar como um indivíduo se sente em relação ao seu meio. Uma maneira de investigar o subconsciente.

Penso a este respeito, visualizando o que poderia ser feito em termos de investigação no ocultismo. Poderíamos descobrir como as pessoas se sentem em ambientes específicos. Saberíamos as impressões que lhes são causadas. E então, pela soma das respostas, conheceríamos algo sobre como as consciências individuais se dinamizam coletivamente.

Pena que nem todos se permitem dizer exatamente o que pensam e sentem, o que prejudica o estudo neste sentido. Infelizmente vivemos em um mundo cheio de tabus, onde as pessoas são criticadas pelo que desejam mais intimamente. Como se não tivessem o direito de simplesmente ser quem desejam ser... O desejo é reprimido com base em valores morais questionáveis à luz de uma ética simples, a qual deveria ser o limite da liberdade inalienável de ser simplesmente quem você é.

Criam-se dogmas para que as pessoas adequem suas formas de desejar a fim de que se conformem com os mesmos. Reprimindo o que alguém quer mais intimamente, você adquire mais poder às custas deste que é reprimido. E quando o indivíduo reprime a si mesmo em favor de algo que você impõe, ele dá (de livre e espontânea vontade) o poder a você. É uma relação de abuso. E normalmente o abusado torna-se abusador, criando um ciclo vicioso.

Pior que isso, para se impor com mais eficiência, os abusadores chamam-se a si mesmos de detentores da moral (que é uma coisa absolutamente relativa, dentro de cada cultura) e da espiritualidade (que é uma profanação desta palavra).

O segredo oculto à maioria das pessoas é que a pretensa luz é, na realidade, expressão das verdadeiras trevas (trevas no sentido de que você nada pode ver além delas). Tudo o que se coloca além desta pretensa luz foi chamado de diabólico, de demoníaco.

Há apenas diferença e o respeito por esta diferença deveria ser a tônica de todos os relacionamentos, sem maior e sem menor. Rotular alguns seres como divinos e angelicais e outros como demoníacos é um profundo desrespeito à diversidade (observe que a diversidade é realmente muito, mas muito ampla).

Quantos de nós não se sentem mal por algo que se pensa e que vai de encontro aos tabus sustentados por uma maioria inconsciente? Quantos de nós deixamos de fazer algo simplesmente porque a religião não permite?

Acreditam que isso realmente vai libertá-los, que isso vai levá-los à Verdade? Se abusados tornam-se abusadores e se há muitos abusadores, quebremos o ciclo, revertendo-o. Se persistirmos, eventualmente a opressão cessa.

Alguns de meus textos parecem ser um tanto negros, um tanto demoníacos até. Eis a explicação. Não posso me conformar com atitudes inconscientes, mesmo que isso pudesse me trazer algum tipo de conforto.

sábado, 6 de abril de 2013

Expandindo a Consciência Além do Ego

Uma mudança realmente profunda que ocorre após a experiência de congruência (a qual culmina com o contato com o SAG - veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia) é a transformação da identidade do mago em si. Mas quando digo uma mudança de identidade, não me refiro somente à percepção de ser iniciado na magia (que também é uma mudança), mas também me refiro à forma como alguém se relaciona com o mundo ao seu redor, e também sobre como se define em relação a este mesmo mundo. Mas isso não é algo que se percebe de uma vez, e sim com o passar do tempo, com o passar dos anos mais precisamente falando.

A verdade é que se experimenta um dom, mas não no sentido comum da palavra que sugere algo inato. Não, não é algo inato, mas é algo que lhe é dado, e é nesse sentido que é um dom. Nem tampouco é a única vez que isto ocorre. Pelo contrário, trata-se de um ciclo que pode repetir-se inúmeras vezes. E a visão externa que as demais pessoas têm de alguém que vive este processo também muda. Em certas circunstâncias pode ser dolorido quando nos veem de forma diferente e se decepcionam conosco, embora isso certamente é algo necessário, uma vez que, se nos enxergam como não somos, todos os laços que se mantém não são verdadeiros e, por isso mesmo, cedo ou tarde revelam-se frágeis. Mas a mudança a que me refiro agora não tem esta conotação pesada, nem de forma alguma negativa. Na realidade, tem mais a ver com as restrições às quais acreditamos estar sujeitos, sobre o que poderíamos ser mas, por causa de um histórico de fracassos, não o somos e acreditamos não ser capazes de nos tornarmos. Na realidade esta voz que insiste em nos dizer o que não podemos ser é o ego, o qual interpreta a realidade por um ponto de vista muito restrito.

Não que o ego seja malígno em si, mas o fato é que ele é apenas o princípio da consciência, e surge das percepções mais físicas que temos do mundo, as quais são mais aparentes e, por isso mesmo, nos parecem ser “mais certas”. Mas a percepção física tende a nos fazer acreditar que a realidade é feita de objetos e seres isolados, sobre os quais se tem pouca influência e, por essa razão, somos levados a temer o que é diferente de nós e do qual não podemos prever como se comportará. Às vezes o medo prepondera e nos sentimos incapazes de nos realizar. Contudo, frequentemente optamos por agir de forma agressiva, pensando que se tivermos mais força ou, se pelo menos aparentarmos mais força, podemos nos impor àquilo que não conhecemos. A ânsia de enriquecer, por exemplo, é um meio de tentar impor-se pela força. Em suma: o ego não é malígno em si mas sustentar-se nele, pura e simplesmente, leva à uma sucessão de efeitos que podem ser considerados malígnos por muitos. É necessário perceber essa dinâmica e ser capaz de compreender o ego tal como ele é, com todas as suas limitações.

O mago, após ter comungado com seu Sagrado Anjo Guardião, começa a ter contato com sua Sombra (um termo de Carl Gustav Jung) a qual é formada por tudo aquilo que negamos pela limitação do ego, ou seja: tudo aquilo que afirmamos que não podemos ser. Parte dessa Sombra é tocada pela rede de ressonância interna que foi criada pelo mago e a experiência de congruência faz com que ela comece a se manifestar mais visivelmente. E, quando isso acontece, possibilidades que antes pareciam “fechadas” na vida alguém, começam a se abrir. E o mundo ao redor percebe isso. A vida então se divide entre um Antes e um Depois.

Pessoalmente, minha vida era bem diferente antes de eu realizar minha própria congruência. Eu era excessivamente tímido e me escondia atrás do que parecia ser mais fácil lidar: computadores ao invés de pessoas. Meu vocabulário, meus assuntos, tudo era muito restrito. E eu me afundava ainda mais na minha concha, cada vez mais estranha ao mundo ao meu redor. Mas, as pessoas me consideravam extremamente inteligente e competente, principalmente no que dizia respeito a desenvolver software, e eu tentava fazer juz a essa imagem. Só que tudo isso era apenas um estereótipo. As pessoas não percebiam que eu só era daquela forma porque eu não ousava ser de outra maneira.

Conforme a Sombra foi se manifestando cada vez mais em minha vida, experiências novas foram surgindo. O namoro, o casamento, novos desafios profissionais, os filhos, novas atitudes em relação às pessoas (mais confiantes, menos inibidas), um uso melhor do meu lado direito do cérebro (enfim aprendi a desenhar...). Tudo isso aconteceu aos poucos e eu pretendo me referir a estas experiências, às vezes mais claramente e às vezes menos, dentro do contexto da minha busca na magia. Na realidade, o desafio que eu me imponho é justamente este: relembrar, etapa por etapa, colocando detalhes e cuidando para não ir muito além do ponto em que eu os tinha percebido até então.

Isso não quer dizer que eu tinha abandonado de todo minha timidez, ou que não consiga usar o vocabulário que usava antes, ou que tenha deixado de desenvolver software. Só que tudo isso era a única faceta que eu expressava e agora há outras facetas que equilibram as anteriores, mudando a minha expressão como um todo. É claro que nem tudo foi feito de flores. Houve quedas enormes. Há um período negro que aguarda todo aquele que busca expandir sua consciência mais e mais. É a chamada Noite Escura da Alma, ou Dark Night of the Soul como é dito em inglês, a qual trata de um período realmente difícil. Eu já até mesmo conhecia o termo quando eu havia realizado minha própria congruência, mas estava tão encantado por tê-la realizado que nem pensava a respeito. De fato, levou realmente um longo período até que eu vivesse minha própria Noite Escura. Como é um tema ainda fora de sequência, ainda não vou expor a este respeito, mas fica aí a ressalva de que, embora haja situações muito agradáveis, as fases mudam. Porém, com o tempo, nos tornamos melhores em antecipá-las e agir em relação às mesmas.

sábado, 23 de março de 2013

Falando de Minha Própria Iniciação na Magia

Eu não sei até que ponto uma experiência pessoal pode servir como parâmetro para outra pessoa no que diz respeito ao momento de comunhão com o SAG (Sagrado Anjo Guardião), ou HGA (Holy Guardian Angel) ou KIA (na terminologia de Austin Osman Spare, quando introduziu a Magia do Caos). De qualquer forma, eu pretendo expor hoje minha própria experiência.


Meu primeiro motivo para fazê-lo agora é porque eu acredito que é o que vem melhor na sequencia após o post anterior (O Maior Círculo em que Alguém Pode se iniciar). Não que esta experiência seja uma meta final em si. Na realidade ela é justamente o oposto de uma meta final, pois trata-se da criação de um fundamento para tudo o mais, e tê-la é apenas a primeira realização concreta. No meu caso foi minha primeira operação mágica depois de aproximadamente três anos buscando que acontecesse. A data exata foi em 09/01/2001. E o segundo motivo é que futuramente eu prentendo me referir a este post para colocá-lo dentro de um outro contexto. A verdade é que eu só pude compreender o que havia vivido com o passar dos anos. Assim, eu pretendo introduzir este e outros temas de maneira gradual.


A maior dificuldade que eu sentia até aquela data era congruir a minha realização pessoal com a realização do universo ao meu redor. Não conseguia me convencer de que ambas eram compatíveis. Oscilava entre duas polaridades: egoísmo e altruísmo. Pior ainda, quando eu refletia sobre uma definição mais abrangente do que são os seres que existem (que são o divino se expressando, pois tudo é expressão divina), e considerava o mero fóton de luz, passando pelas partículas que formam o átomo, passando pelas moléculas, passando pelas células, passando por seres multicelulares. Seres, formados por seres, que devem igualmente se realizar, pois nenhum é maior que o outro. E a complexidade aumentava quando eu pensava nas complicações que as pessoas causam umas às outras. No meio de tudo isso, quando eu me focalizava em meus próprios objetivos, na minha própria realização que eu queria causar, eu me sentia como que buscando oprimir a realização de tudo o mais, sentia-me indígno. Sentia-me egoísta e tentava transcender este sentimento. Tentava encontrar algo que me congruiria e me harmonizaria, já cansado após anos de busca, mas não desistindo. Foi então que eu entendi que a resposta era pura e simplesmente a realização de tudo (eu, você, e tudo o mais, afinal somos parte de tudo), por mais que isso parecesse contraditório à minha compreensão: a realização até mesmo do que se opõe à própria divindade (os ateístas que tentam negá-la, por exemplo, ou então pessoas com conceitos contrários à essência da divindade). Ou seja, um profundo respeito a tudo. A aceitação de tudo. Essa era então a essência divina, da forma que eu percebia e, mesmo não sabendo como poderia ser possível que fosse real, eu a aceitei, sem compreendê-la, muito angustiado, e caí no sono.


Eu sonhei que um demônio me levava fraco, rendido, sobre suas costas. E eu simplesmente disse “Que eu me realize plenamente”. Só que este “eu” simbolizava muito mais do que um indivíduo à parte de tudo. O “eu” já não estava mais dissociado de tudo o mais. Essa era a essência que eu tinha aceitado. No sonho eu me explodi em pura luz enquanto estava deitado, rendido nas costas do demônio. E então, de repente, estava de pé, no meio do vazio, com tudo pronto para começar a construir. Nos dias que se seguiram, eu não sustentei aquela consciência que eu havia obtido naqueles minutos, mas bastou tê-la atingido para que eu alcançasse aquilo que vinha buscando. Quando eu acordei, eu sabia que tinha ocorrido.


Foi meu encontro com o SAG, ou HGA, ou KIA, conforme se queira dizer. Dá para perceber que não tem nada a ver com o que as pessoas pensam quando imaginam algo como um Sagrado Anjo Guardião. Cada um percebe de uma forma. E sempre tem alguma coisa muito pessoal e íntima, que não dá para colocar em um relato como este. Eu já ouvi o relato de uma pessoa que atingiu esta congruência de uma forma diferente. Por isso, esta experiência talvez valha como um exemplo, mas não como um modelo. A verdade é que, mesmo a essência, que eu percebi, da divindade é um ponto de vista pessoal, resultado de toda aquela congruência que eu vinha realizando em alguns anos e, certamente, ela é percebida de forma diferente por pessoas diferentes.

sábado, 9 de março de 2013

Preparando-se para Iniciar-se Como Mago

No ocultismo, há aqueles que atingem seus objetivos, mesmo a duras penas, porém há outros que jamais o conseguem, culminando com o reconhecimento pleno e dolorido de suas ilusões. O que diferencia a experiência bem sucedida da experiência do fracasso? A resposta está ligada à iniciação, sendo que esta é o ato mais importante para qualquer avanço no que diz respeito à magia. Ocorre que não se trata de um fenômeno que depende só do iniciado pois diz respeito ao ingresso do neófito dentro de uma egrégora, a qual pode ser definida como uma grande rede de ressonância criada por muitos outros anteriores àquele que pretende se iniciar. Assim, a iniciação é a aproximação de uma coletividade de seres, sendo um visível (o neófito) e uma pluralidade invisível. É essa pluralidade que pavimenta o caminho de quem segue junto com ela, e o sucesso ou o fracasso são simplesmente a diferença entre caminhar-se sozinho ou em companhia, mesmo que não se possa ver esta companhia com os olhos físicos.

A iniciação é o encontro de algo antigo (a egrégora) com algo novo (aquele que é iniciado). É uma aproximação que ocorre de duas direções, como que os dois lados de um espelho, com duas imagens cada vez mais próximas, até que se fundam em um único ser. Nas mais diversas tradições este encontro é preparado, de forma que o neófito se torna cada vez mais congruente com a egregóra na qual vai adentrar. O momento definitivo é a fusão entre ambos. As demais pessoas envolvidas, e os rituais que realizam, ajudam a catalizar este momento, porém apenas o facilitam. A essência do momento em si é pessoal, representando algo diferente para cada um, mesmo que não possa ser compreendida de forma plena a princípio.

Mas o que é que acontece quando há a auto-iniciação? Ela é possível? Sim, mas nesse caso a egrégora também aproxima-se gradualmente daquele que pretende iniciar-se, mesmo sem a participação de outras pessoas. É claro que, nessa circunstância, a iniciação pode ser mais difícil por não existir uma preparação devidamente orientada. Mas uma vez consumada, ela é autêntica, seja através de uma tradição ou não. É assim que surgem os primeiros iniciados das tradições, embora isso não queira dizer que todos os auto-iniciados irão criar suas próprias tradições. Nada disso... Mas fica visível aqui o papel da egrégora também. Antes mesmo de alguém decidir-se por ser iniciado, o indivíduo é aceito pela egrégora. Sem essa aceitação, todo seu esforço é em vão. O que “condiciona” esta aceitação é o mérito que cada um consegue atribuir a si próprio. Para assumir um papel, você precisa ser aquele que deve assumi-lo. Ressalta-se que não se pode fingir este mérito. É algo que se é ou não é. Assim, conhecer-se, aceitar-se, e buscar ser pleno, é a forma de desenvolver-se neste sentido. Na bruxaria, esse é o propósito do período mínimo de preparação de um ano e um dia antes da iniciação.

A iniciação o coloca dentro de um círculo, com finalidades únicas, no qual é possível fazer parte do mesmo e que está também, em grande medida, isolado daqueles que não obtiveram o mérito de integrá-lo. É importante ressaltar que estar em um círculo é o primeiro passo para desenvolver-se no mesmo e que este é um processo gradual. Na realidade, de tempos em tempos ocorrem outras iniciações em círculos menores dentro do círculo maior. A natureza destes passa a fazer parte da natureza da magia do iniciado, que já pode ser considerado um mago no começo de seu caminho.

Desenvolver-se em um círculo é trazer seus atributos à própria vida e isso é o que determina largamente a diferença entre vencer e falhar nos mais diversos objetivos. Mesmo sem consciência destes conceitos, há pessoas que se destacam em objetivos diversos, enquanto outros, mesmo com atitudes semelhantes, não são bem sucedidos. O motivo é a qualidade das relações com o invisível que cada um possui.

sábado, 2 de março de 2013

Quando a Evolução Leva à Desarmonia

Uma crença comum é que, uma vez que se esteja em um caminho evolutivo na magia, as relações com as pessoas em geral tendam a se harmonizar, com uma consequente redução de conflitos. No entanto, a busca pelo transcendente sempre é, em larga medida, solitária, uma vez que a grande maioria das pessoas permanece de forma estacionária, presa em questões cotidianas do mundo que percebe como concreto. Assim, desenvolver-se significa opor-se eventualmente.

Este é um dos motivos de não ser simples para um observador externo, mesmo sendo experiente na magia, avaliar corretamente a “eficiência” de outra pessoa (ou a correção de seus princípios) através de resultados ruins que sejam verificados. Os resultados ruins podem variar desde a falta de resultados (o que é comum em períodos em que o foco é a preparação interna) até resultados claramente contrários. Pode ser o caso de se estar iludido quanto às bases do que se está construindo, mas há também outra possibilidade. Ocorre que a melhor forma da magia se realizar é pelo caminho mais simples, de menor resistência, e esse caminho sempre passa pela transformação da consciência individual. Afinal não faz sentido ter atitudes e pensamentos contrários ao que se pretende realizar, sendo sempre necessário harmonizar a própria consciência.

É preciso que se perca ilusões sobre a aparente harmonia que existe com outras pessoas, uma vez que esta harmonia não se origina de naturezas que se complementam, e sim de naturezas que não se expressam. Então essa expressão deve ocorrer, surgindo conflitos, até que seja possível existir o discernimento entre as ressonâncias e as dissonâncias, e a consciência assim se amplie. É comum, então, perceber-se “isolado na multidão”. Este isolamento é uma sensação que periodicamente volta a ocorrer, e o aprendizado do propósito deste ciclo não é algo meramente teórico, envolvendo diversas experiências pessoais que frequentemente levam muito tempo e são difíceis, até que se adquira compreensão, e dessa forma, não se sinta tanto sofrimento com as dissonâncias que eventualmente ocorram, e sim se perceba que trata-se de uma dinâmica natural cujo fim é sempre levar ao aprendizado.

Enquanto o aprendizado não vem, sempre há uma possibilidade maior de erros. Um dos erros mais frequentes é a insistência em padrões antigos de decisão e de ação que aguçam ainda mais os conflitos, tornando-os mais danosos e, possivelmente, até mesmo irreversíveis. Se de fato o mago está criando uma sólida rede de ressonância, esta irá apoiá-lo e ajudá-lo a amenizar o impacto de suas falhas. Daí que, embora não seja possível avaliar com segurança alguém por seus erros de julgamento, é possível ter uma demonstração positiva da solidez do que foi construído pelo mago (em termos de ressonâncias internas) através da forma que supera os obstáculos, tornando-se melhor, e menos suscetível aos mesmos erros, à medida que o faz.