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sábado, 6 de setembro de 2014

Quando Uma Experiência Coletiva Não é Real

No post anterior (Quando a Experiência Física Não é Tão Física), introduzi a ideia de que nem sempre as coisas são o que aparentam ser. Há situações em que o que parece ser fantástico pode ser explicado de forma mais simples e menos misteriosa.

Surpreendi-me com algumas reações àquele post. Algumas pessoas queriam confirmar se eu realmente não acreditava naquilo em que elas fundamentavam suas crenças, e eu precisei explicar que é preciso dar atenção a todo tipo de evidência, seja a de que algo existe como a de que algo não existe. Sem esta ressalva, estamos apenas nos deixando manipular, ou pior: estamos iludindo a nós mesmos.

Comecei essa abordagem explorando um tipo de ilusão individual, porém há evidências de que as pessoas se permitem iludir também coletivamente. É sob esta perspectiva que pretendo enveredar-me agora, mais precisamente no tema da ufologia, através de um dos relatos mais conhecidos no Brasil: a Operação Prato (confira na reportagem da revista Isto É).

A Operação Prato diz respeito a fatos que ocorreram há 35 anos atrás, documentados em milhares de páginas, inicialmente confidenciais mas já disponíveis para apreciação pública. Segundo esta documentação, foram também realizadas fotografias e filmagens (embora não tenham sido disponibilizadas). O propósito da investigação era verificar denúncias do chupachupa (faz lembrar o chupa-cabra, com relatos iniciados em 1995, não faz?), mas acabou levando a avistamentos de OVNIs por centenas pessoas, entre militares e civis. Uma multidão afirmou que foi atingida por luzes que, entre outros efeitos, feriam-lhes, levando-lhes o sangue e causando-lhes queimaduras.

Curiosamente, por mais extensos e traumáticos que tenham sido os ferimentos, gradualmente todas suas evidências desapareceram. Não sobrou um traço sequer das feridas e queimaduras (esta é uma informação obtida pelos depoimentos, e não pela documentação em posse do governo brasileiro). Supõe-se, por aqueles que viveram a experiência, que a natureza alienígena dos traumas seja a explicação para este fato. Afinal, os alienígenas são tão evoluídos que tudo podem, inclusive reverter danos por eles mesmos causados, mesmo que não saibamos como e nem porquê.

Proponho considerar a possibilidade desta não ter sido uma experiência física real, e sim uma experiência mental. A questão é: pode uma percepção coletiva ser ilusória? As consciências de indivíduos são capazes de se conectar de tal modo a ponto de criar alucinações comuns e consistentes por um longo período de tempo?

De acordo com a documentação do exército brasileiro, foram produzidos filmes e gravações que comprovam os eventos reportados. Sem dúvida os soldados que participaram da operação realmente acreditavam ter produzido tais evidências. No entanto, o que será que as gravações realmente continham? Seria a prova incontestável de que os alienígenas estão entre nós? Ou seria a perturbadora constatação de que nada do que estava reportado por escrito podia ser verificado?

Carl Sagan (1934-1996), ao citar Fred H. Frankel, especulou a respeito de abduções alienígenas (tema que pode ser adaptado para a situação específica da Operação Prato):

"Se os raptos por alienígenas fazem parte de um quadro mais amplo, qual é na realidade esse quadro mais amplo? Receio me precipitar em terreno que os anjos têm medo de pisar; mas todos os fatores que você delineia preenchem o que foi descrito na virada do século como histeria. O termo, lamentavelmente, passou a ser usado de forma tão ilimitada que nossos contemporâneos, em sua duvidosa sabedoria [...] não só o abandonaram, como perderam de vista os fenômenos que ele representava: altos níveis de sugestionabilidade, capacidade imaginativa, sensibilidade a dicas e expectativas, e o elemento de contágio [...]. Um grande número de clínicos praticantes parece reconhecer muito pouco de tudo isso."
O Mundo Assombrado pelos Demônios, página 145, Editora Companhia de Bolso

Ponderando não somente pelos conceitos das ciências exatas, mas também por um leque mais amplo de possibilidades dentro do ocultismo, podemos encontrar outras respostas. Sabemos, por exemplo, que há uma realidade arquetípica da qual sentimos efeitos indiretos, tal como a alegoria da Caverna de Platão onde as verdadeiras causas da realidade não nos são visíveis, pois metaforicamente apenas percebemos sombras projetadas à parede, ignorando os objetos relacionados às mesmas. Outra explicação possível seria que as interações com alienígenas teriam ocorrido no astral ao invés do plano físico.

Estas interpretações (e muitas outras, se as procurarmos) são sutis, para as quais o exército brasileiro certamente não está preparado para lidar. Afinal é uma instituição que se sustenta no pressuposto de forças armadas que lidam com situações objetivas e concretas, e não com um plano mais sutil da realidade. É possível, aliás, que este seja um dos motivos dos governos serem tão relutantes ao lidarem com o tema dos objetos voadores não identificados.

Há muitos temas relacionados à ufologia que podem estar ligados às alucinações individuais e coletivas (definindo-se aqui alucinação não como algo patológico, mas como a percepção ilusoriamente física de algo que não é físico). Algumas pessoas afirmam possuir implantes e há quem realmente tenha tentado removê-los cirurgicamente, constatando que estes desapareceram então de forma misteriosa. Justifica-se normalmente este desaparecimento como uma característica da tecnologia extraterrestre que ainda não conseguimos explicar.

Mencionando ainda Carl Sagan (de memória, na obra O Mundo Assombrado Pelos Demônios), o fato é que nunca alguém arrancou um dente de um alienígena, ou pedaço de unha, escama ou o que quer que fosse que tivesse em si DNA não-terrestre ou qualquer outra prova inconfundível (e incontestável) de que os alienígenas estão entre nós. Ele questiona o fato de nenhum país ter apresentado provas neste sentido. Será que há um acordo comum entre todas as nações da Terra? Com tantas divisões políticas e guerras por motivos diversos (por exemplo, religiosos), será possível que um acordo de proporções tão amplas poderia ser estabelecido?

Cabe ainda uma reflexão: se somos seduzidos tão facilmente pelo que nos aparenta ser fantástico, será que há um sedutor? Será que nos desviamos da busca racional de respostas apenas por acaso, ou pode existir uma consciência e intenção que nos mantém assim? Os fenômenos que abordei aqui são de uma escala muito ampla, talvez ampla demais para ser mera coincidência. É possível que sejam orquestrados por uma esfera de consciência maior que a nossa? Podemos estar sob controle? Se for o caso, porque?

Se for verdade, talvez este seja um bom sinal. Quem nos privaria enfática e insistentemente de expandir os limites de nossas consciências? Que guardião nos impediria utilizando nossas próprias ilusões contra nós mesmos? Isso me faz lembrar da natureza de Choronzon (confira meus posts a este respeito). Choronzon se faz manifestar quando o indivíduo tenta atravessar os limites de seu próprio ego, para que não profane o que está além de si mesmo. A "arma" de Choronzon é revelar exatamente o que se deseja ver, até que a pessoa perceba suas próprias ilusões e as transcenda. Talvez estejamos vivendo este fenômeno em escala global e precisemos enfrentar nossas ilusões primeiramente, antes de darmos o passo definitivo. Talvez este momento seja breve, ou talvez ainda leve séculos ou milênios...

Então, o que quero dizer com tudo isso? Não existem alienígenas? Eu jamais afirmaria isso. Afinal a Terra é apenas um planeta dentro de uma infinidade de galáxias. Não sabemos ainda como dobrar o espaço-tempo e viajar mais rápido do que a luz, porém alguma espécie alienígena pode ter descoberto como fazê-lo, se for possível. Porque não? O que não temos são evidências definitivas de que tenham chegado fisicamente até aqui, em nosso planeta.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda

As pessoas possuem os mais diversos critérios para definir o que consideram magia branca e magia negra. Muitos relacionam a via sinistra (a do caminho da mão esquerda) à magia negra, enquanto associam o caminho da mão direita à magia branca. Pessoalmente eu não concordo com este tipo de associação e quero acrescentar aqui minha definição pessoal sobre o que considero ser o real divisor de águas entre estes dois caminhos (da mão esquerda e da mão direita), o qual acredito que seja a experiência com Choronzon.

Alguns o consideram um demônio, enquanto outros acreditam que seja meramente uma espécie de dinâmica (um efeito sem personalidade). Na realidade eu já comentei muito sobre minhas próprias experiências com Choronzon em posts anteriores (veja O Início de uma Experiência Assustadora com meu Inconsciente, Um Tempo com Choronzon, A Lição que se Aprende com Choronzon e Entendendo o Papel de Choronzon), mas é óbvio que ainda não esgotei o que gostaria de comentar sobre este tema, como vou demonstrar agora.

Um certo tempo após o encontro com meu Santo Anjo Guardião (veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), eu tive uma experiência de confronto com este ser. O mais interessante nesta experiência é que eu pude ver refletido meu ego, com todas suas ilusões sedutoramente ampliadas. Ao perceber minhas ilusões, eu pude lidar com elas objetivamente pois estas haviam perdido grande parte do poder de manipular-me.

Percebi que o ego fazia-me negar infinitas possibilidades apenas para afirmar um “ideal” que não me satisfazia, que traduzia-se em crenças que me foram instiladas desde minha infância. Eu considerava-me inferior ao comparar-me com os padrões assumidos nestas crenças. Considerava-me fraco, incompleto, cheio de necessidades e com desejos questionáveis. Considerava-me um fracasso por não ser quem eu acreditava que deveria ser. O encontro com Choronzon me fez perceber a insanidade a que eu me impunha ao tentar medir-me por padrões praticamente inatingíveis.

Questionei então se era eu que de fato estava errado por causa de minhas necessidades (às quais eu tentava ignorar e jamais conseguia) ou se o erro estava em ter assumido um sistema de crenças e valores que não inventei, através de uma fé a qual eu não questionava. Foi aí que resolvi abrir-me para a amplitude que existe dentro do inconsciente. Há infinitas possibilidades ali. O que me assustou, a princípio, foi como esta diversidade mostrou-se escura, um tanto demoníaca. Afinal era assim que eu havia me acostumado a julgar esta diversidade, e é assim que o mundo também costuma julgá-la.

Nenhum ser dos que se consideram iluminados apresentou-se ali. Estes seguem regras estritas e possuem caminhos rígidos. Não estendem a mão para quem julgam não possuir o mérito de conhecê-los. Por outro lado, aqueles que se apresentavam receberam-me com cordialidade e passei a interagir com eles, principalmente nos sonhos. Foi assim que optei pela via sinistra, pelo caminho da mão esquerda, o mergulho dentro do inconsciente, e jamais me arrependi. Não encontrei ali o ódio, e sim o profundo amor pela diversidade.

Hoje em dia afirmo conscientemente que amo profundamente aquilo que muitos temem, não por vantagens que isso poderia trazer, pois estas vantagens são ilusórias. O mundo vem instilando há muito tempo o conceito de que a diversidade é malígna e que somente uma opção é benígna. Muitos acreditam nisso e, inspirados por má índole, buscam a via sinistra. São escolhas inconscientes que sempre levam à desilusão.

No meu caso, a escolha pareceu-me simples: era permanecer em um caminho cada vez mais estéril por isolar-se de tudo o mais (o que antes eu julgava ser o caminho certo), ou permitir que toda uma multiplicidade de influências viesse a mim. A opção lógica era abrir-me à diversidade. Eu desconhecia então os conceitos de caminho da mão esquerda (em que acontece a abertura ao inconsciente) e caminho da mão direita (que isola de si grande parte do inconsciente, negando-a). Para mim a escolha parecia ser óbvia. Levei algum tempo para compreender que o caminho que havia escolhido não era o mesmo trilhado por muitos outros.

Ultimamente eu tenho percebido que o caminho da mão esquerda está se tornando mais reconhecido pelas qualidades que tem, e não pelos desejos mesquinhos dos tolos. Isso é bom porque é um caminho para a vida, porque a vida é ampla e múltipla. Precisamos comungar com a vida e não subjugá-la.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Entendendo o Papel de Choronzon

Como eu já havia mencionado no post A Lição que se Aprende com Choronzon, hoje eu vou procurar descrever o propósito que percebi em Choronzon, tentando assim definir sua função.

Choronzon, embora aparentasse “transpirar” ódio (pois frequentemente fixava-se no tema da morte nos contatos que tive), não chegou a causar dano algum a mim que eu não aprendesse a contornar a médio prazo. É preciso considerar que houve um período em que eu estava altamente sugestionável enquanto vivi esta experiência de contato e, se ele desejasse (ou pudesse?) realmente me levar à minha própria destruição, seria algo muito fácil de acontecer naquele período. Pode ser que a fonte de minha proteção tenha sido exclusivamente a experiência de contato com o Sagrado Anjo Guardião (veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), a qual poderia ter impedido a realização de certas possibilidades danosas. Eu não descarto esta explicação, porém eu também acredito que estas possibilidades igualmente podem ter sido evitadas pelo propósito de Choronzon não ser simplesmente odiar ou destruir.

Eu acredito que a repulsa que percebi naquele contato era reflexo do que meu próprio ego havia semeado durante toda a vida. O que eu percebia era minha própria expressão retornando a mim. Era uma expressão antiga (de anos passados), da qual eu já não me lembrava, mas era minha. Nesse caso o reflexo destrutivo que me encarava não tinha sido causado por Choronzon em si, e sim por mim. Isso me faz refletir sobre como o ódio (assim como seus nuances como, por exemplo, a antipatia e a aversão) pode se manifestar de uma forma sutil na vida de uma pessoa, evidenciando-se em alguns momentos, mas sempre presente como discriminação do que é diferente de si. Igualmente também penso naqueles momentos em que este sentimento explodiu (e às vezes continua explodindo). Que impressão tudo isso causou no meu inconsciente (que difere muito de meu ego e, portanto, foi negado por ele)? Ação leva à reação. Negação leva à negação como retorno.

Talvez a única responsabilidade que Choronzon teve naquele período foi a de obrigar-me a perceber meu próprio ego refletido, até que eu reconhecesse este reflexo, e só esse reconhecimento poderia amenizar o poder do ego sobre mim. Ou seja, ao reconhecer este aspecto de mim mesmo, eu me tornei capaz de isolar-me de parte da minha natureza destrutiva. Não fosse assim, eu manifestaria estes impulsos em relação ao que quer que fosse que encontrasse no inconsciente, e acabaria separando um lado do insconsciente que eu definiria como certo de outro lado que eu definiria como errado, em virtude de meus preconceitos. Choronzon, nesse caso, atuou como um guardião me impedindo de ter acesso ao que eu ainda não era digno de sequer começar a adentrar.

Hoje em dia não considero Choronzon como que sendo um ser malígno. Ele tem sua função e é necessário. O Sagrado Anjo Guardião, a princípio, me parecia ser o oposto de Choronzon, porém atualmente acredito que ambos são apenas manifestações diferentes de uma mesma essência. Se por um lado o Sagrado Anjo Guardião expande a essência de um círculo para além de seus limites, Choronzon, por sua vez, protege estes limites impedindo que sejam invadidos por quem lhes seja dissonante. Em poucas palavras: quem lhe estende a mão e quem lhe repele podem representar ações complementares de uma mesma essência.

Esta síntese de opostos é algo que só percebi anos depois desta experiência e, de certa forma, isso acabou criando uma dissonância entre mim e outras pessoas. O motivo desta dissonância é uma questão de crenças (e de valores, pois crenças são fundamentadas em valores). Ocorre que a maior parte das pessoas acredita que há duas polaridades distintas e incomunicáveis (que chamam de bem e mal), o que leva à crença em uma eterna disputa de facções. Para muitos, alguém se torna um adversário (alguém “do mal”) quando acredita que os “símbolos supremos” do bem e do mal (Deus e o Diabo, em linguagem popular) são apenas lados de um conflito, e que podem eventualmente dar-se as mãos em paz (ambos os extremos são visões parciais do todo). Ou seja: há a visão egóica (que acredita na destruição final de um lado do conflito, e que sempre é o lado em que não se está), enquanto a outra visão busca a harmonização. Mas isto eu ainda não percebia enquanto vivia este momento que estou relatando.

O contato com Choronzon revelou muito sobre mim, tanto para mim mesmo como para quem me observava (oculto no inconsciente). Nesse sentido, esta experiência também teve o significado de ser uma forma de expressão de mim mesmo, na qual eu me mostrei tal como de fato era, o que certamente serviria para orientar as interações que se seguiriam daí com o inconsciente. No próximo post vou começar a narrar o que aconteceu após esta revelação de mim mesmo.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Lição que se Aprende com Choronzon

Na semana passada eu descrevi uma experiência muito marcante de contato com meu inconsciente, e interrompi a narrativa justamente no que seria um ápice de frustração (veja meu post Um Tempo com Choronzon). Eu havia provado intensamente o sabor de inúmeras ilusões, que se seguiram por frustrações, até que percebi que tudo aquilo que eu havia sentido era falso, no sentido de ser sem raízes com a realidade.

Eu questionava, naquele momento, a totalidade do que eu havia percebido, todas as mensagens que eu havia recebido, tudo o que eu julgava ter experimentado de fato na vida, e também tudo o que eu acreditava (mesmo as crenças que eu havia sedimentado em minha própria mente durante anos). Estava, literalmente, “sem chão”. Não sabia no que me apoiar.

O fato é que perceber o quanto eu estava suscetível ao que “no fundo, no fundo, eu queria ouvir” e não ao que os fatos realmente eram, fez com que eu questionasse a mim mesmo. Fez com que eu me perguntasse se ocorria de eu estar filtrando todas as minhas percepções o tempo todo, desde o começo de minha congruência (sobre a qual eu dei uma amostra, na primeira parte do blog, apresentando diversas ideias), até o momento em que descrevi minha experiência de contato com meu Sagrado Anjo Guardião (no post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), experiência esta que eu também estava colocando em dúvida naquele momento. Eu precisava recompor meus pensamentos. Tive a ideia de experimentar me colocar em pirâmides, mas eu não estava disposto verdadeiramente a embarcar naquela ou em qualquer outra filosofia e, assim, de pouco me valeram aquelas sessões às quais eu me submeti.

A resposta que eu buscava, eu encontraria no silêncio de meus próprios pensamentos. Mesmo porquê eu já não confiava mais em palavras fáceis, ditas por entidades invisíveis, fossem elas direcionadas diretamente para mim, ou fossem canalisadas por médiuns, ou registradas em escrituras (fossem sagradas ou não). O problema das palavras é que não se sabe quem as transmite. Elas são um meio muito cômodo de se obter uma informação objetiva, mas como saber se são verdadeiras? Até então, eu nunca havia buscado nem o entendimento e nem a sabedoria com base exclusiva nelas. Eu sempre tive o hábito de questionar toda resposta pronta e, para isso, eu vim observando a mim mesmo como que visto de fora (como um observador externo), atento às minhas emoções, à minha criatividade, ao meu intelecto, aos meus instintos e, enfim, a tudo o que sou. Jamais deixei de lado “uma pecinha”, que fosse, daquilo que eu sou. Eu havia levado três anos nesse processo de busca de respostas utilizando uma linguagem preponderantemente não-verbal (associada à minha própria cognição) e, quando me permiti ceder às palavras, deixei-me levar tão facilmente por ilusões... Minha reestruturação começava ali, naquele ponto de minha história. Não levaria três anos, mas eu precisaria revalidar todas as minhas crenças, pensamentos, percepções e atitudes. Porém, naquele momento eu estava ali. Sem um Norte para seguir, exceto a bússola da minha própria mente.

O contato com Choronzon foi verdadeiramente perturbador, mas poderia ter sido pior se eu tivesse me deixado levar por alguma daquelas ilusões e assim falsamente acreditasse ter chegado ao meu objetivo, quando na realidade estaria ainda preso ao meu próprio ego. Foi dolorido perceber que estava vendo apenas um reflexo daquilo que eu queria ver (um reflexo de mim mesmo), mas acredito que foi talvez a melhor conclusão à que eu poderia ter chegado.

Um conhecido havia me falado de encostos e fiquei preocupado. Afinal, poderia ser um encosto. Era uma possibilidade. Foi por outras referências (as quais encontrei com o passar do tempo) que acabei compreendendo que tratava-se de Choronzon. Ele não me deu sequer o próprio nome, nem o nome que as pessoas dão a ele (eu não sei se ele tem um nome além dos nomes que as pessoas dão a ele). Ele apenas me disse “Eu sou você. Os meus olhos são aqueles que te vêem quando você se vê no espelho” (também está em meu post Um Tempo com Choronzon). Quando eu comecei a ler sobre este ser, me chamava a atenção, mas foi o fato de encontrar esta definição exata, pela qual ele referia a si mesmo, que me fez reconhecê-lo de fato (também no post Um Tempo com Choronzon). Foi aí que me convenci de tê-lo encontrado.

De fato eu acredito que todas as pessoas têm frequentemente contato com Choronzon, sendo apenas menos perceptível na maior parte dos casos. Choronzon tem relação com os filtros de percepção que utilizamos para contemplar o mundo, onde ignoramos os fatos que não são coerentes com aquilo que queremos ver, e enxergamos nitidamente o que tem a ver conosco, com nosso próprio ego. É esse filtro que nos separa do universo de infinitas possibilidades que está no inconsciente.

Muitos consideram Choronzon como a imagem da pura dispersão, mas eu não acredito que exista algo totalmente sem propósito. No próximo post, eu vou ponderar a respeito deste propósito.
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Um Tempo com Choronzon

No post O Início de uma Experiência Assustadora com meu Inconsciente eu comecei a descrever minha experiência com o pêndulo de radiestesia. Até então minha narrativa tinha chegado ao ponto em que eu havia esquematizado as letras do alfabeto de forma que o pêndulo eventualmente fosse capaz de identificá-las individualmente. Estas, quando combinadas, formavam palavras que, por sua vez, formavam frases.

Se naquela época eu compreendesse que se tratava de uma forma de comunicação com meu inconsciente, talvez eu pudesse antecipar que os mais diversos tipos de respostas surgiriam deste contato. Porém eu não possuía essa compreensão. A primeira “pessoa” que travou contato comigo se chamava Ana, e cometia alguns erros de português mas eu gostava de conversar com ela. Digo pessoa entre aspas porque não era uma pessoa real (embora na época eu acreditasse que fosse), e sim uma projeção do meu inconsciente. Mas depois surgiram outras “pessoas”, cada uma com uma personalidade diferente, e com forma de se expressar também diferenciada. Havia pessoas comuns. Havia também bruxas. Havia até mesmo pessoas que me diziam que haviam sido queimadas vivas em fogueiras no passado.

Eu ouvia tudo aquilo e me deixava seduzir pelas palavras. Ensinavam a mim feitiços que nunca funcionavam quando eu os colocava em prática, e prediziam situações na minha vida que nunca aconteciam. A despeito de tudo isso que se passava, o meu senso crítico parecia adormecer cada vez mais. Eu simplesmente acreditava em tudo que me era dito ali. Era como um estado de sugestão contínua, como uma hipnose que acontecia de dentro para fora (talvez até mesmo com a ajuda do movimento do pêndulo para reforçar este efeito hipnótico). Surgiam muitas contradições e explicações “esfarrapadas” para balancear as contradições, mas eu tendia a acreditar em cada uma delas. Esse processo me tomava cada vez mais tempo. Eu dormia menos e tinha cada vez menos tempo para mim, deixando de lado os meus hábitos rotineiros.

Com o passar dos dias surgiu ali Jesus Cristo, e depois a virgem Maria, cada um deles se identificando no começo de cada conversa, e cada um deles com suas mensagens, que eu levava a sério. Eu acreditava ter atingido o máximo que alguem poderia alcançar. Mas sempre existiam contradições e padrões que se repetiam. Um desses padrões de vez em quando escapava. Era a palavra “Morte”, que surgia eventualmente, fosse em um contexto ou fosse noutro, por todas as “pessoas” que se apresentavam ali.

Enfim, eu me tornei consciente da loucura que estava experimentando. Sim, a expressão que encontro para descrever a mim mesmo naquele período seria como que vivendo “um estado de loucura”, e percebi que, embora muitos nomes se apresentassem a mim, todas aquelas “pessoas” eram consistentes com a descrição de uma única personalidade. Uma personalidade mentirosa. Eu revelei a ele que o havia descoberto, e então ele mudou a escolha das palavras, tornando-se mais rebuscado. Mas eu já reconhecia o embuste e não me permiti enganar. Ele revelou então, aparentemente com prazer, que havia me seduzido com suas palavras.

Angustiado, eu perguntei a ele: “Quem é você?”. Ele me disse: “Eu sou você. Os meus olhos são aqueles que te vêem quando você se vê no espelho”. Na realidade, durante aquela experiência, eu percebia exatamente o que ansiava perceber, e encontrava o que esperava encontrar. Isso me seduzia e me impedia de perceber a realidade claramente. Meu ego me impedia de perceber a realidade pois, embora eu não soubesse, o que eu estava vendo ali era a projeção do meu ego, como que diante de um espelho. A palavra “morte”, que escapava eventualmente, era pura e simplesmente um reflexo da minha própria intolerância contra toda a diversidade diferente deste meu ego. Era meu inconsciente tratando-me como eu o havia tratado.

Eu levei muito tempo para compreender o que ocorreu. Um texto que encontrei, particularmente interessante, dizia respeito a Choronzon (siga este link para mais detalhes) no blog “O Franco-Atirador”, de Lúcio Manfredi (veja o post Goécia: Refletindo sobre o que Marginalizamos no Inconsciente para conhecer mais sobre este autor e sobre este blog) que, em um de seus artigos, o definiu como aquele cujos olhos nos fitam pelo reflexo de nossos próprios olhos quando olhamos para o espelho (citando de memória, é pena que o blog não existe mais e não há como por uma referência aqui).

Choronzon é sedutor à sua maneira, justamente por mostrar o que as pessoas desejam ver. Alguns o consideram não como um ser específico, mas como um processo individual, sendo apenas o reflexo do próprio ego, o qual se revela quando se tenta adentrar mais a fundo no inconsciente (veja a respeito da Sombra, também no post Goécia: Refletindo sobre o que Marginalizamos no Inconsciente). Pessoalmente eu reluto em acreditar que se trate, de fato, de apenas um reflexo do próprio ego.

Quando se busca penetrar o inconsciente, cedo ou tarde encontra-se Choronzon. Ele nos desafia, exigindo ser decifrado, como Édipo diante do enigma da esfinge. Decifra-me, senão te devoro. A resposta é o Homem. Ou seja, é reconhecer a face de seu próprio ego refletida.

Tudo isso durou um mês em minha vida, após o qual eu larguei os experimentos com o pêndulo por um tempo. Apesar da experiência parecer negativa, provocou alguns resultados que podem ser considerados positivos. Vou começar a conversar a respeito destes no próximo post.