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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A Sabedoria de Tears For Fears

Tears For Fears e sua sabedoria.

Minha interpretação de Everybody Wants to Rule The World. Uma reflexão sobre a vida e sobre as escolhas conscientes, semiconscientes, inconscientes.

Buscas, desafios, excitação, desilusão. Risco. Sem garantias, mas pelo menos a possibilidade. O começo da busca do transcendente.

*********************

Everybody Wants To Rule The World
Todo Mundo Quer Governar o Mundo
Tears For Fears

Bem vindo à sua vida
Não há mais retorno
Mesmo enquanto dormimos
Vamos encontrar você

Não fuja de seu caminho. Você já está nele e não há para onde retornar. Você vai se revelar. Vamos encontrar você, mesmo inconscientes, vamos encontrar você.

Agindo da sua melhor forma
Dê as costas à Mãe Natureza
Todo mundo quer governar o mundo

Não há outro jeito de agir, senão do seu. Não é sábio sempre ceder, nem sempre buscar a harmonia. Dê as costas. Assuma sua diferença. Mude o mundo. Todo mundo quer mandar no mundo

É meu próprio projeto
É meu próprio remorso
Ajude-me a decidir
Ajude-me a fazer o máximo

Fundamente-se na sua visão. Sinta todo o impacto da culpa pelos seus erros. Procure ajuda para se decidir. Procure apoio. Procure quem pode lhe levar ao seu melhor.

De liberdade e de prazer
Nada nunca dura para sempre
Todo mundo quer governar o mundo

Ser livre é o que faz sentido. O prazer faz sentido, não a dor. Mas nada tem sentido para sempre. Ainda assim, mude o mundo. Todo mundo quer mandar no mundo.

Há uma sala em que a luz não vai lhe encontrar
Segurando nossas mãos juntas enquanto as paredes desabam
Quando o fizerem eu estarei bem atrás de você

Sua chance é imensa de chegar a um beco sem saída e todo seu sonho desabar, mas não importa, vamos estar juntos.

Tão felizes pelo que quase fizemos
Tão tristes que tiveram que desfalecê-lo
Todo mundo quer governar o mundo

Vamos nos orgulhar de onde chegamos. Vamos nos entristecer pelos que não entenderam e não nos permitiram. Todo mundo quer mudar o mundo, nós e eles.

Não suporto essa indecisão
Casado com a falta de visão
Todo mundo quer governar o mundo
Diga que nunca nunca nunca nunca vai precisar
Uma manchete, porque acredito ?
Todo mundo quer governar o mundo

O que fazer então? A visão é imperfeita, não consegue prever tudo. Todo mundo quer se impor. Por favor, você que está comigo, não mude... Porque acredito nos outros? No fim das contas, todo mundo quer mandar no mundo.

Tudo pela liberdade e pelo prazer
Nada nunca dura para sempre
Todo mundo quer governar o mundo

No fim das contas, só ser livre é que faz sentido. A dor não faz sentido algum, só o prazer. A verdade é que... todo mundo quer mandar no mundo.


2016 - Ano de Complementações

2016, ano novo chegando e trazendo consigo uma nova vibração, ressonando complementação. Certamente uma palavra muito promissora, mas com um significado um tanto sutil. Não se trata exatamente da materialização daquilo que almejamos, e sim daquele impulso que também deveríamos buscar se, conscientemente, por esforço próprio, procurássemos desenvolver as qualidades que nos permitiriam tornar real aquilo que mais almejamos que seja real.

Sutil demais, eu sei. Digamos que 2016 vai mostrar, bem diante de nossos narizes aquilo que nos falta, se algo nos falta (e sempre há algo por melhorar). Pode ser desconcertante descobrir a qualidade que precisamos desenvolver para concretizarmos nossos objetivos. Pode causar resistência de nossa parte. De fato, será um exercício de aprendizado. Uma chance de nos tornar mais sábios sobre o que realmente nos importa na vida. 

Agora, pode acontecer dessa lição já ter sido aprendida. Nesse caso, 2016 trará uma excitante materialização, tanto do que mais desejamos quanto do que completa e torna real aquilo que buscamos. Será, certamente, uma oportunidade de colheita para o indivíduo consciente de seus potenciais internos e das dinâmicas e mecanismos para que estes se concretizem, notadamente no que diz respeito à magia.

Ou seja, 2016 trará à tona aquilo que precisamos aprender a lidar para sermos completos. Intrigante se essa manifestação se traduzir em uma ou mais pessoas. Isso acaba por nos dar uma chance de conversamos com o que precisamos assimilar. Assim transformamos o que seria uma experiência de aprendizado numa oportunidade de harmonização. Pares podem se encontrar de uma forma bem interessante. E na magia, então? Contatos importantes, há muito tempo esperados, podem se desenvolver.

Óbvio que o que quer que 2016 revele, só irá complementar aquilo que temos realmente buscado. Se apenas reagimos às experiências do dia-a-dia, sem nos deixarmos motivar por deixar uma marca, nada acontecerá pois não haverá coisa alguma a ser complementada.

2016 vai trazer, portanto, muitas possibilidades. Espero, sinceramente, que você consiga aproveitá-lo ao máximo. 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Aprendendo a Fazer Escolhas

Nunca fiquei muito tempo sem emprego. Já fui demitido, já pedi minha demissão, várias vezes. Porém, bastava colocar meu currículo em dia, usar ao máximo minha rede de contatos, voltar a me cadastrar nos sites especializados e, enfim, ir atrás do que aparecesse, para que logo uma nova oportunidade surgisse. Algumas vezes, porém, certas experiências em recrutamentos aconteceram primeiro em sonho (por mais estranho que isso pareça - o motivo, ainda vou discutir aqui no blog) para se tornarem fatos concretos somente meses depois.

Na realidade, eu já conversei e teorizei sobre este tema. Tratam-se de sonhos que se tornam reais, em detalhes, após entrarem em um período razoavelmente longo de esquecimento. Quando acontecem, a lembrança deles vem de súbito à mente. São experiências deste tipo (dentre outras) que me fazem recordar que a realidade não é apenas acaso. A psique se manifesta como causa na experiência individual.

Retornando à história, algo que eu realmente queria, na época, era encontrar uma oportunidade profissional em que eu me sentisse realmente valorizado. Ou seja, onde houvesse uma boa remuneração de fato, ao invés de simplesmente "Muito bom! Excelente trabalho! " (e nada mais palpável). Algumas pessoas que eu conhecia já estavam em carreiras que eu considerava interessantes naquele tempo. Eu dizia a mim mesmo que queria seguir seus exemplos, mas hoje devo reconhecer que, no fundo, tratava-se de simples inveja.

Meu trabalho era conhecido por seu rigor nos detalhes. Em uma época em que poucos se preocupavam com conceitos de qualidade, eu levava à cabo detalhadas verificações do software que eu produzia. Tudo isso era bom, não fosse pelo fato de que eu gostava dos elogios e, no fundo, me considerava melhor que os demais.

Ocorreu que, em um sonho, eu estava diante de uma proposta. Alguém perguntava a mim se eu a aceitaria. Não me recordo de mais nada a respeito do que havia acontecido antes, mas eu sabia intuitivamente que aquela era a proposta que eu tanto ansiava por obter.

De repente percebi que se tratava de um sonho e, por instinto, desejei que tivesse sido real. Ato mágico. Uma semente plantada em solo fértil dentro do inconsciente. Veio o esquecimento. Passou-se o tempo. Até que aconteceu de eu estar em São Paulo, em um processo seletivo.

Enfim tratava-se da alta remuneração que eu ambicionava (ou, pelo menos, é o que eu acreditava), além do status de trabalhar em uma grande capital. O movimento ao caminhar pelas ruas era algo do qual, um dia, eu fizera parte. Eu sentia saudade.

Saudade de um tempo que antecedia aquele momento. Saudade das grandes feiras tecnológicas que sempre fizeram parte do cotidiano daquela cidade. Saudade de um tempo ido, misturando-se a outras expectativas.

No entanto havia o preço. Eu assumiria contratos, mas não os decidiria. Um horário para chegar, nenhum para sair. Algumas pessoas me asseguravam: "Este é o modelo de trabalho no Brasil agora. É um tanto assustador a princípio, mas você se acostuma. Vale a pena.".

Fosse há cinco anos, eu não me importaria em dispor de todo meu tempo. Eu colocaria sim, todas as minhas fichas no dinheiro. Entretanto, naquele momento eu percebi que desejava envolver-me mais com outros aspectos da vida (o ocultismo, entre eles). Desejava ter meu próprio espaço e meu próprio tempo. Queria um lar, uma vida mais simples e uma rotina aconchegante.

Tinha boas lembranças, sim, de uma São Paulo do passado, porém percebia, naquele instante, que aquele tempo se fora. Diante de mim, estava o mesmo rapaz que aparecera no sonho, querendo saber se eu aceitava, ou não, aquela oferta. "Não ", respondi. 'Pensei melhor. Não é o tipo de trabalho que eu estou procurando".

Mal respondi e a lembrança da experiência astral veio à minha mente, de súbito, causando-me assombro. Algo em mim mudou desde então. Nunca mais invejei aqueles que seguiram este caminho.

A reação à minha resposta não foi negativa. Na realidade, não foi a última vez que tive esse tipo de proposta. Anos depois a mesma empresa entrou em contato de novo, e rejeitei a oferta outra vez, polidamente. Enfim chegou um tempo que trabalhamos juntos por um tempo, em outras condições. Outra empresa fez uma proposta semelhante a mim, para ajudar em um projeto nos mesmos termos, e aceitei temporariamente. Poderia ter continuado em outros projetos mas, pelos motivos que já expus, não quis.

Tudo isso valeu para que se reafirmassem em mim minhas convicções. Quando se trata de magia, é preciso separar o que é causa do que é efeito. A magia, em um sentido mais amplo, é a busca de realização plena, que começa de dentro para fora. Óbvio que toda escolha é pessoal, variando de indivíduo para indivíduo, porém sempre é o externo que deve ser dependente do interno, e não o contrário.

Quando se está preparado, o que é interno se materializa externamente. Não é uma questão de chance única, como pensam alguns. Mesmo que você cometa uma falha, mesmo que você deixe passar uma oportunidade, o que vibra no mago internamente simplesmente teima em se manifestar externamente, esteja ele consciente ou não.

Se você se deixa seduzir por alguns resultados (deixando o processo que criou estes resultados para segundo plano), você acaba se desconectando, até mesmo, do que já obteve (quase supérfluo dizer que muitos falham justamente por este tipo de fraqueza). Antes de se pretender controlar o que há ao redor de si, é necessário aprender a ser coerente principalmente consigo mesmo.

No final das contas, é o Si-Mesmo que é o fundamento da realização do mago.

domingo, 27 de julho de 2014

Quando a Experiência Física Não é Tão Física

Quem nunca ouviu falar a respeito de uma história real em que alguma coisa acontece que não se pode explicar pelas leis da física? Tal como um objeto que flutua sozinho, ou um ruído que vem detrás da porta do armário que, quando aberto, está com todo seu interior bagunçado, embora ninguém estivesse próximo ao mesmo. O mais intrigante é que, com frequência, após se deixar a cena original e se retornar depois, tudo volta ao normal, como se nada tivesse acontecido.

Este retorno à normalidade costuma ser desconcertante. Afinal, a visão percebida anteriormente é geralmente tão nítida e quando se toca os objetos, eles são tão concretos. Tão físicos. Sente-se a pressão nos dedos. Sente-se o peso, a textura e a umidade. Junto com esta experiência vem a sensação de certeza de se estar vivendo o paranormal. No entanto, porque tudo retorna à situação que estava antes?

Certa vez, ao acordar de manhã cedo, vi diante de mim a silhueta de um corpo absolutamente negro, tal como uma sombra, só que sem transparência nenhuma. Embora já houvesse claridade, eu não conseguia distinguir traço algum. Até mesmo os olhos eram totalmente negros. Eu sentia sua pressão contra meu próprio corpo. Estava me beijando.

Minha primeira reação foi de espanto. Depois senti medo. No entanto, decidi não reagir. Curioso, quis ver o que aconteceria, afinal não é sempre que se tem uma experiência desse tipo. Meu olhar se movia teimosamente, procurando detalhes de quem (ou do que) estava à minha frente. Minha mão estava levantada, firme, porém sem propósito.

De repente a aparição sumiu. Minha mão estava relaxada. No entanto, eu não a havia repousado. Não houve transição. Em certo momento ela estava levantada e tensa. Instantaneamente depois, estava repousada. Meu corpo, que antes também estava tenso, de repente e sem transição, estava relaxado. Como se tivesse acordado naquele mesmo momento. Ainda assim, eu sabia que já estava desperto há mais tempo. A luminosidade e o ambiente não haviam mudado. Apenas aquela estranha visitante havia desaparecido, bem como não havia vestígio algum de minhas próprias reações físicas.

Foi por causa deste evento que percebi quão ilusória pode ser uma experiência cuja vivência aparenta ser tão física, porém não o é. Refletindo sobre aqueles instantes, percebi que estava vivendo um estado de transição em que existiam sensações reais (a luminosidade do ambiente, a posição de alguns objetos, etc) mas, ao mesmo tempo, algo não físico estava projetado ali (apesar de parecer, a mim, tão sólido). Assim, acabei aprendendo sobre a natureza deste tipo de fenômeno: um estado intermediário de consciência com uma mescla de estímulos físicos e não-físicos, embora com uma percepção de sensações concretas muito acentuada.

No entanto, o que se projetou diante de mim temporariamente? Uma imagem de meu subconsciente? Ou seria do inconsciente (algo externo a mim)? Não sei dizer. São questões para as quais é difícil se obter respostas.

Um amigo meu vive este tipo de situação pelo menos uma vez por mês. Há um nome científico para esta forma de despertar porém, me desculpem, eu não me recordo. O fato é que para ele sempre é desagradável quando ocorre. Ele se assusta e às vezes pula sobressaltado da cama, apenas para perceber, instantes depois, que tratava-se de uma ilusão. Realmente meu amigo não dorme bem, por este e por outros motivos.

Só que isso me faz pensar em outras situações em que ocorrem acontecimentos incríveis na vida das pessoas, cujos traços desaparecem misteriosamente quando se vai tentar comprová-los. Então criam-se hipóteses rebuscadas, por sua vez também difíceis de obter comprovação. As pessoas tendem a acreditar no que aparenta ser fantástico. Deixam-se seduzir.

É difícil opor-se a essa sedução. Quem não prefere acreditar ter vivido algo realmente especial e construir crenças em torno disso, unindo-se a outras pessoas que se deixam seduzir da mesma forma? Como dizer aos outros que os fundamentos de suas atitudes podem estar equivocados? Quem facilmente aceita a possibilidade de ter investido todo o tempo de uma vida (ou de um longo período da vida) em algo que não é verdade? É uma questão de sobrevivência. A negação é, em larga medida, normal. De repente, algo significa tudo e então se torna nada.

Não que o fantástico não exista. Não é isso. Se eu não acreditasse em algo além da percepção mundana, eu não estaria aqui, escrevendo sobre minha história na magia. Sim, o extraordinário existe e pode-se vivê-lo de forma concreta. No entanto, nossas ilusões nos impedem de percebê-lo. É preciso que saibamos reconhecer nossa própria tendência a nos deixar impressionar e assim consigamos avaliar de forma realmente objetiva cada fato e cada informação.

Por exemplo, um dos critérios para esta avaliação é que haja evidências que não tenham desaparecido (para as quais não tenham sido criadas explicações não verificáveis). Se as evidências forem questionáveis, deve-se questioná-las e buscar as respostas, não importa o tempo que seja necessário para isso. É preciso ser sincero consigo mesmo nessa busca.

Coloquei, como ponto de partida, um tipo de experiência que pode ocorrer ao se despertar. Contudo, há outras explicações e considerações também relacionadas a ilusões que podem parecer muito reais. Em breve, em alguns posts que se seguirão, eu pretendo abordar um pouco mais esta questão.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Olhando para Dentro de Si

Certa vez eu sonhei que estava em uma espécie de universidade. Ali cada um dos alunos (inclusive eu) tinha um apartamento para si e existiam imensos corredores mal iluminados, com a atmosfera característica dos prédios antigos. Já os apartamentos, estes tinham boa iluminação interna, transmitindo uma impressão mais jovial.

Os alunos se cumprimentavam dentro desses corredores quando estavam saindo ou chegando. Nesses momentos, breves conversas aconteciam. Por acaso eu e um colega estávamos chegando ao mesmo tempo e, enquanto tirávamos as chaves do bolso, eu o cumprimentei:
- Olá! Tudo bem?
- Olá, tudo - ele respondeu.

Prosseguiu:
- Você é novo por aqui?
- Sim, cheguei há pouco tempo.
- Pois então, há algumas vantagens de ficar por aqui. É muito confortável e você é bem assistido. Praticamente não há porquê se preocupar a respeito de suas necessidades básicas.
- Isso é realmente muito bom - assenti.
- O único detalhe é que você precisa estudar, e isso pode ser um tanto difícil para alguns alunos.
- Mesmo? Porque?
- Digamos que nem todos tem sangue frio para os conteúdos ensinados aqui. São um tanto demoníacos.

Fiquei em silêncio por alguns segundos e indaguei:
- Demoníacos?
- Sim, demoníacos. Mas agora preciso entrar. Depois conversamos mais.

Entrei em meu apartamento e encostei a porta. Aquela revelação me assustou. Sobre este trecho do sonho, me parece um tanto estranho. O fato é que, para alguém como eu, já acostumado às experiências relacionadas à goécia (a arte do contato com demônios internos), uma revelação deste tipo não deveria me perturbar tanto mas, enfim, era um sonho e os sonhos muitas vezes seguem por uma lógica própria, a qual nem sempre correponde ao que pensamos durante os momentos de vigília.

Retornando à narração do sonho, decidi então abandonar aquele lugar e fiquei algum tempo fora do campus (eu não tenho uma percepção exata de quanto tempo se passou). No entanto, mudei de opinião e resolvi voltar. Ao retornar, encontrei um dos professores da faculdade (ao menos me parecia assim). Cumprimentou-me e começou a conversar comigo. Em certo momento indagou:
- Posso lhe fazer uma pegunta, mesmo arriscando-me a ser indiscreto?
- Sim, é claro que pode - respondi.
- Percebi que você se ausentou por um tempo. Estava pensando em nos deixar, não estava?
- Estava - confessei.

Houve uma breve pausa, como se ele estivesse ponderando sobre o que me dizer. Prosseguiu:
- Muitos têm esse impulso, mas é preciso dizer-lhe que nenhum de nós deseja mantê-lo aqui à força. Você pode nos deixar ou pode resolver ficar, mas irá se beneficiar se passar alguns anos aqui conosco.
- Como assim? Explique.
- Você gostaria de ter um significado para as pessoas?
- Um significado?
- Sim. Você quer que seu nome represente algo para as pessoas? Quer que possam procurá-lo e encontrá-lo se de fato o desejarem?
- Quero - eu disse.
- Então fique conosco - concluiu.

***

O período em que tive este sonho (e outros) foi caracterizado por muitos contatos “demoníacos” (para mais detalhes confira o post Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda). Estas experiências ocorreram dentro de um processo de imersão na goécia e estou relatando-as neste blog. O que talvez não esteja muito claro nestas narrações é o motivo destes contatos terem acontecido.

Para fornecer esta explicação, é necessário considerar que estou tratando aqui sobre como segui meu próprio caminho na magia, lembrando que a arte de um mago é, principalmente, um meio para alcançar a realização própria. Existe uma crença errada que se baseia no princípio de que é preciso fazer uma escolha entre servir a si mesmo ou servir aos seus semelhantes. Por esse princípio, aqueles que decidem servir a si próprios normalmente são rotulados como egoístas. Já os que decidem servir aos demais, sem pensarem em si mesmos, são considerados altruístas.

No entanto, será que esta escolha é realmente necessária? Será que é benéfica? Imaginem se todos negassem a si mesmos em prol de uma coletividade. Seriam felizes? Certamente que não. Da mesma forma, não haveria bem algum à humanidade se cada um de nós buscasse a realização individual sem considerar os demais. Pode-se deduzir que o verdadeiro desafio não é escolher focalizar seja o indivíduo, seja o coletivo. O objetivo mais importante é satifazer ambas condições, simultaneamente.

Difícil fazer isso? Nem tanto. Quando comparando o indivíduo versus o coletivo, o que exatamente consideramos ser este coletivo? A pluralidade é homogênea (todas as pessoas são iguais) ou é heterogênea (cada pessoa tem um objetivo diferente)? É óbvio que a coletividade é heterogênea. Portanto há quem tenha ressonância conosco e também há quem tenha dissonância. Só precisamos saber reconhecer qualitativamente o que nos cerca, isolando-nos de situações em que percebemos conflitos, e buscando unir-nos àqueles que nos completam. Dessa forma as necessidades individuais e coletivas se harmonizam.

No entanto, antes de buscarmos o que nos completa, precisamos saber o que somos. É basicamente disto que trata este sonho. É a necessidade imperativa de definir a si mesmo primeiro (assumindo um compromisso nesse sentido), antes de encontrar ressonâncias externas. Enquanto não nos definimos, somos parte do problema pois nenhuma solução que se apresente a nós nos satisfaz. Nessa condição, somos uma incógnita e não criamos sinergias. Colocamo-nos literalmente em cima do muro, tornando-nos sem expressão, sem significado e, por isso mesmo, desinteressantes.

As pessoas normalmente procuram as respostas para suas vidas, só que o fazem olhando para fora de si mesmas, quando deveriam olhar para dentro de si. É dentro de cada um que está a chave para a auto-realização. Essa é uma verdade tão insuspeita quem nem sequer é necessário ocultá-la dos incautos. Você pode espalhá-la pelos quatro cantos do mundo, mas as pessoas em geral não a ouvem. Teimam em acreditar que aquilo que são, de fato, não importa para atingirem o sucesso pois julgam-se ser “meras gotas de água dentro de um imenso oceano” e, por isso mesmo, tentam se conformar. Importa para essas pessoas conseguir uma promoção, ir bem nas provas, seguirem uma religião que lhes apresenta um modelo do que devem ser (ignorando por completo o que realmente são). Enfim, focalizam no que lhes é externo. Não lhes passa pela cabeça que a realidade externa pode se tornar a consequência de uma estruturação que começa internamente, expandindo-se depois.

Não parece um tanto absurdo tentar controlar tantas condições alheias a nós mesmos? Nunca sabemos exatamente o que outra pessoa pensa e sempre cometemos erros de julgamento. Não somos infalíveis na nossa forma de avaliar o mundo. Por outro lado sabemos quem somos. Porque não partir desse princípio?

É disso que trataram estas experiências que surgiram espontaneamente na minha vida: definir-me. Enquanto eu definia a mim mesmo, é claro que minha relação com o inconsciente ia se estruturando. Não era ainda um momento para ser eficaz na realização de ritos mágicos mas eu estava criando minhas relações com o invisível. Essas relações iriam influenciar o mundo visível no devido tempo. Mas isso eu vou contar mais para frente.

sábado, 22 de março de 2014

Respondendo ao Diabo

Nos posts Uma Conversa com o “Diabo” e O Diabo e os Folhetos de Missa, narrei as duas primeiras partes de um sonho. Neste sonho, o Diabo (tal como havia se identificado a mim) levou-me primeiro ao Éden e, logo em seguida, à uma igreja. O post atual descreve a parte final do sonho.

Havíamos nos desmaterializado na igreja e estávamos então em um deserto. Apesar do Sol ali estar forte, a temperatura ambiente não me parecia quente. Caminhamos até uma rocha onde havia uma caixa sobre a mesma. O Diabo tomou-a em suas mãos, abriu-a e mostrou-me seu conteúdo. Havia ali uma pedra que brilhava quase que hipnóticamente. O interior da caixa estava escuro, protegido pela sombra, mas mesmo assim a pedra brilhava como se tivesse luz própria. Eu a observava quando ele iniciou o diálogo:

- Esta pedra representa tudo o que você possa desejar. Não existe limite para o que ela possa realizar.

Eu continuava observando-a. No entanto, eu não apenas a observava. Eu também a desejava. Ele prosseguiu:

- Você a considera interessante?
- Sim, muito interessante - respondi.
- Então sirva a mim e poderá ter tudo o que ela significa.

Assustei-me. Apesar de seduzido pelas possibilidades daquela pedra, eu não tinha intenção de submeter-me ao Diabo, mesmo que fosse para obtê-la. Dei-lhe minha resposta:

- Desculpe. Não posso. Permite que eu lhe explique o motivo?

Procurei ódio no seu olhar mas não encontrei. Na realidade ele estava prestando atenção às minhas palavras, como que interessado no que eu estava para dizer. Continuei:

- Não posso servir alguém acima de mim mesmo. Eu penso que este é o verdadeiro significado da idolatria. Não posso lhe jurar lealdade. Quero propor-lhe outra coisa.

Ele continuou prestando atenção ao que eu dizia. Dei continuidade à minha proposta:

- Eu posso me unir a você à medida que nossos ideais forem os mesmos. Se estes assim o forem, não há problema em prosseguirmos juntos. Porém, se nossos ideais forem diferentes, ou tornarem-se diferentes, cada um de nós é livre para seguir seu caminho. Que acha disso?

Ele não me deu resposta. Apenas observava e aparentemente refletia sobre o que eu lhe tinha dito. O sonho se encerrou nesse momento.

***
Nos dias que seguiram logo depois de meu sonho, um grande fluxo de intuições veio à minha mente a respeito de Lúcifer. Conforme os anos se passaram, este fluxo diminuiu mas, de tempos em tempos, sempre existiram alguns lampejos. A impressão que eu tenho é que Lúcifer acabou levando em conta a minha reposta.

Confesso que por muitos anos esse sonho me deixou um tanto confuso. Afinal trata-se de um ser que tornou-se proscrito por não aceitar uma existência de possibilidades previstas e confinadas à imutabilidade (conforme o post Uma Conversa com o “Diabo”) e, ao mesmo tempo, trata-se de alguém que usa toda uma gama de conhecimento e consciência contra uma visão estéril, auto-rotulada como cristianismo que busca se impor sobre tudo o mais como o único meio de se chegar à verdade (conforme o post O Diabo e os Folhetos de Missa). Será que ele se tornaria exatamente aquilo que persegue? Será que alguém consegue abrir a mente de outras pessoas sem abrir sua própria mente?

Só recentemente cheguei a um posicionamento a este respeito que aparenta explicar estas discrepâncias. A sugestão de Lúcifer (“Sirva-me”) foi um teste. De um lado, a possibilidade de possuir tudo o que se quer. De outro, a possibilidade de perder-se a si próprio. O teste seria: “Dependendo do preço, você abre mão de seus ideais?”. A resposta que dei-lhe foi exatamente com base nos meus ideais.

Há alguns meses conversei com uma amiga que disse que havia tido uma experiência de contato com Lúcifer há alguns anos atrás. Só que no caso dela não foi apenas um sonho, e sim um contato de aproximadamente um mês que eu presumo que tenha acontecido pelo astral. O interessante é que a narrativa dela concluiu também da mesma forma, com a mesma proposta de Lúcifer. Ela se negou, tal como eu o fiz, mas eu fico curioso para saber os detalhes de sua resposta.

Eu suspeito que Lúcifer sempre fez esta questão, às mais diversas pessoas, conforme passaram-se os milênios. A bíblia relata o momento em que Jesus respondeu a essa mesma pergunta, embora eu não saiba quão fiel ao fato original esta descrição bíblica realmente é. Confira o seguinte trecho:

Então Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então, aproximando-se o tentador, disse-lhe: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães".
Mas Jesus respondeu:
"Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. " Então o diabo o levou à Cidade Santa e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra. "
Respondeu-lhe Jesus:
"Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus. "
Tornou o diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe:
"Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares". Aí Jesus lhe disse:
"Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto. " Com isso, o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e puseram-se a servi-lo.
Mateus 4, 1-11 (Bíblia de Jerusalém)

É de senso comum no ocultismo que Jesus também foi um mago, o que eu acredito que seja verdade, mas não penso nele como o filho de Deus. Eu acredito que ele tenha sido apenas um mago como tantos outros. As experiências que ele viveu, por mais que possam ter parecido assombrosas para aqueles que com ele conviveram, não são experiências únicas. Também é óbvio que há invenções e exageros. Digamos que o mago que Jesus foi verdadeiramente é tão próximo ao mito criado sobre o mesmo quanto as bruxas verdadeiras são capazes de voar em vassouras…

Enfim, o que significa passar nessa prova de Lúcifer? Será que dá o direito a alguém de usar uma pedrinha mágica que realiza qualquer desejo? Duvido… Afinal de contas tudo na minha vida tem sido ação e reação, tal como na vida de qualquer pessoa. Você colhe aquilo que planta. Se souber plantar bem, colhe bem. Esta pergunta permanece sem resposta.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Uma Conversa com o "Diabo"

Certa vez, em meio às minhas experiências relacionadas à goécia, eu tive um sonho onde surgiu um homem diante de mim. Ele tinha estatura mediana, cabelos curtos e negros e pele clara. As roupas eram um tanto formais, tratando-se apenas de um terno simples. A expressão facial nada dizia do que se passava em seu interior. Não havia pista alguma do que se seguiria no sonho. Apresentou-se:

- Olá, eu sou o Diabo.
- O Diabo?
- Sim.

Talvez muitas pessoas considerem esta identificação estranha, afinal costuma-se relacionar a goécia a demônios internos, e não a um ser identificando-se como o “Diabo” (afinal nem mesmo é propriamente um nome). No entanto, quando se reflete que as imagens que brotam na experiência com o inconsciente são fortemente condicionadas pelas impressões pessoais daquele que tem o sonho, não se deve estranhar que a simbologia fuja à uma norma padrão.

Prossegui com o diálogo:
- E porque razão você veio aqui conversar comigo?
- Apenas quero fazer um convite a você. Gostaria de conhecer o paraíso?
- E você, sendo quem é, pode visitar o paraíso?
- Posso, sempre que quero. Quer ver como é?

Irrefletidamente, respondi:
-Quero.
E estávamos então em um jardim. Ele continuou a falar:
- Este é o paraíso. O Jardim do Éden.

Eu observei o local. Era preponderantemente natural. O máximo que pude encontrar ali (no que diz respeito a construções "artificiais") eram bancos, onde algumas pessoas se sentavam. Quase não conversavam entre si. Não havia estímulo, nem propósito de realizar coisa alguma. Não havia atividade intensa, nem conversas inflamadas. Eu tive uma impressão de calma e previsibilidade. Senti-me desconfortável por causa da ausência de ação naquele ambiente.

Ele continuou a falar:
- Eu também não me sinto bem. Vamos sair daqui?
Fiz uma pequena pausa e consenti:
- Vamos.

De repente, estávamos diante de um elevador e entramos nele (assim são os símbolos nos sonhos, às vezes muito triviais). A porta se fechou e o elevador subiu. O movimento do elevador me surpreendeu pois eu esperava que o paraíso que eu havia visitado estivesse acima de tudo e, portanto, o elevador deveria descer ao invés de subir. Meu estranho interlocutor olhou para mim seriamente, sem dizer palavra alguma.

***

No mito bíblico do Jardim do Éden não era pressuposto que o ser humano possuísse a capacidade de diferenciar entre o Bem e o Mal (ou julgar a si mesmo e o que existe ao seu redor). O papel de Adão era cuidar do jardim, enquanto o papel de Eva era ser sua companheira. Idealmente todas as transformações ocorriam de acordo com a forma que haviam sido planejadas e, enquanto a humanidade (no mito, reduzida a Adão e Eva) não fosse capaz de efetuar distinções de valores (definindo o Bem e o Mal), permaneceria integrada àquela existência em harmonia e, portanto, sem que pudesse causar danos. Uma condição de inocência, por assim dizer.

No entanto, a distinção entre os seres já existia e a serpente estava ciente disso (ou seja, o paraíso já não era mais harmonioso). Homem e mulher haviam sido proibidos por Deus (ou melhor dizendo, aquele que era considerado Deus na bíblia), o que já indicava que havia uma separação fundamental entre Deus e o ser humano (o qual lhe devia ser obediente). Em suma, as divergências já existiam: apenas não eram percebidas pelo ser humano.

A desobediência foi um ato espontâneo, pois Adão e Eva não poderiam qualificar aquela ação fosse como boa, ou fosse como ruim. Já a expulsão se deu não por causa do castigo do pecado cometido (um pecado inconsciente, por sinal, afinal não se compreendia sua malignidade), e sim devido às possibilidades que o ser humano poderia assumir caso não fosse contido (caso não fosse limitado), uma vez que já possuía a capacidade de discernimento e, portanto, tinha em si os primórdios da própria consciência.

O fruto do discernimento entre o Bem e o Mal tem o mesmo significado que o fogo roubado por Prometeu na mitologia grega. Neste mito, Prometeu havia roubado o fogo de Zeus e o dado aos mortais. Dessa forma, a humanidade havia adquirido o poder do fogo, deixando sua condição de fragilidade. Prometeu foi amarrado a uma rocha como punição. Todos os dias uma águia devorava seu fígado, e o fígado se regenerava somente para ser devorado de novo no dia seguinte. Tal punição prosseguiu até o dia em que Hércules o libertou.

A semelhança entre Prometeu e Lúcifer (simbolizado pela serpente) é clara, bem como o estígma que obteve por ter profanado o fruto da árvore do Discernimento entre o Bem e o Mal (tal como Prometeu foi acusado, quando profanou o fogo de Zeus).

Por enquanto, vale refletir sobre os mitos e conteúdos expostos aqui. Em breve irei acrescentar novos posts, adicionando mais alguns comentários e, é claro, também irei prosseguir com a narração do sonho (há uma quantidade relativamente diversificada de conteúdo que quero expor sobre o mesmo e, por isso, optei por fazê-lo gradualmente).
Para aqueles que desejarem conferir os trechos mencionados na bíblia, verifiquem Gênesis 3, 1-22. Apenas sugiro utilizarem de uma boa tradução (pessoalmente prefiro a Bíblia de Jerusalém, mas fica a critério de cada um).

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Uma Bruxinha e seus Livros

Já há um tempo eu venho falando aqui sobre a Goécia, conhecida como a arte de se entrar em contato com “demônios internos”, mas tenho procurado demonstrar que o termo “demônio” é apenas um estereótipo e, como tal, é só uma forma de se discriminar toda uma pluralidade oculta no inconsciente (veja o post Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda).

É óbvio, portanto, que nem todas as imagens que surgem do inconsciente (dentro desse processo) são demoníacas. Afinal, não é apenas porque rotulamos algo que a experiência real deve se adequar a este rótulo. É o que aconteceu em um sonho que eu tive durante o período em que vivi minha imersão inicial na Goécia, quando vi-me diante de uma bruxa (muito simpática, por sinal) que propunha ensinar-me sobre magia.

Eu acredito que seja um padrão nestas experiências que algo sempre seja oferecido, e talvez seja por isso que pessoas mal intencionadas são atraídas para este caminho (na ânsia de obter coisas). No caso, o que estava sendo ofertado era o conhecimento, e eu o aceitei de bom grado. A bruxa simpática tinha em suas mãos diversos livros, e até mesmo alguns que eu já havia lido.

Estranho repensar um sonho que tive há tanto tempo. Penso principalmente em um livro que vi em suas mãos (Autobiografia de uma Feiticeira, de Lois Bourne) e que já conhecia. Na época em que o li, eu o considerei um tanto questionável, na verdade. Ele reportou alguns fatos que julguei um tanto mágicos demais, forçando um pouco contra a percepção do que se considera normal. Mas hoje em dia eu não sei mais o que pensar sobre o livro, afinal já se passaram treze anos que eu o li. Minha mente se abriu bastante desde aquela época e, se eu o reler, pode ser que eu me surpreenda.

Decidi. Vou relê-lo. Quem sabe eu descubra algo a mais sobre o real significado que aquele encontro com a bruxinha teve em minha vida?

sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda

As pessoas possuem os mais diversos critérios para definir o que consideram magia branca e magia negra. Muitos relacionam a via sinistra (a do caminho da mão esquerda) à magia negra, enquanto associam o caminho da mão direita à magia branca. Pessoalmente eu não concordo com este tipo de associação e quero acrescentar aqui minha definição pessoal sobre o que considero ser o real divisor de águas entre estes dois caminhos (da mão esquerda e da mão direita), o qual acredito que seja a experiência com Choronzon.

Alguns o consideram um demônio, enquanto outros acreditam que seja meramente uma espécie de dinâmica (um efeito sem personalidade). Na realidade eu já comentei muito sobre minhas próprias experiências com Choronzon em posts anteriores (veja O Início de uma Experiência Assustadora com meu Inconsciente, Um Tempo com Choronzon, A Lição que se Aprende com Choronzon e Entendendo o Papel de Choronzon), mas é óbvio que ainda não esgotei o que gostaria de comentar sobre este tema, como vou demonstrar agora.

Um certo tempo após o encontro com meu Santo Anjo Guardião (veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), eu tive uma experiência de confronto com este ser. O mais interessante nesta experiência é que eu pude ver refletido meu ego, com todas suas ilusões sedutoramente ampliadas. Ao perceber minhas ilusões, eu pude lidar com elas objetivamente pois estas haviam perdido grande parte do poder de manipular-me.

Percebi que o ego fazia-me negar infinitas possibilidades apenas para afirmar um “ideal” que não me satisfazia, que traduzia-se em crenças que me foram instiladas desde minha infância. Eu considerava-me inferior ao comparar-me com os padrões assumidos nestas crenças. Considerava-me fraco, incompleto, cheio de necessidades e com desejos questionáveis. Considerava-me um fracasso por não ser quem eu acreditava que deveria ser. O encontro com Choronzon me fez perceber a insanidade a que eu me impunha ao tentar medir-me por padrões praticamente inatingíveis.

Questionei então se era eu que de fato estava errado por causa de minhas necessidades (às quais eu tentava ignorar e jamais conseguia) ou se o erro estava em ter assumido um sistema de crenças e valores que não inventei, através de uma fé a qual eu não questionava. Foi aí que resolvi abrir-me para a amplitude que existe dentro do inconsciente. Há infinitas possibilidades ali. O que me assustou, a princípio, foi como esta diversidade mostrou-se escura, um tanto demoníaca. Afinal era assim que eu havia me acostumado a julgar esta diversidade, e é assim que o mundo também costuma julgá-la.

Nenhum ser dos que se consideram iluminados apresentou-se ali. Estes seguem regras estritas e possuem caminhos rígidos. Não estendem a mão para quem julgam não possuir o mérito de conhecê-los. Por outro lado, aqueles que se apresentavam receberam-me com cordialidade e passei a interagir com eles, principalmente nos sonhos. Foi assim que optei pela via sinistra, pelo caminho da mão esquerda, o mergulho dentro do inconsciente, e jamais me arrependi. Não encontrei ali o ódio, e sim o profundo amor pela diversidade.

Hoje em dia afirmo conscientemente que amo profundamente aquilo que muitos temem, não por vantagens que isso poderia trazer, pois estas vantagens são ilusórias. O mundo vem instilando há muito tempo o conceito de que a diversidade é malígna e que somente uma opção é benígna. Muitos acreditam nisso e, inspirados por má índole, buscam a via sinistra. São escolhas inconscientes que sempre levam à desilusão.

No meu caso, a escolha pareceu-me simples: era permanecer em um caminho cada vez mais estéril por isolar-se de tudo o mais (o que antes eu julgava ser o caminho certo), ou permitir que toda uma multiplicidade de influências viesse a mim. A opção lógica era abrir-me à diversidade. Eu desconhecia então os conceitos de caminho da mão esquerda (em que acontece a abertura ao inconsciente) e caminho da mão direita (que isola de si grande parte do inconsciente, negando-a). Para mim a escolha parecia ser óbvia. Levei algum tempo para compreender que o caminho que havia escolhido não era o mesmo trilhado por muitos outros.

Ultimamente eu tenho percebido que o caminho da mão esquerda está se tornando mais reconhecido pelas qualidades que tem, e não pelos desejos mesquinhos dos tolos. Isso é bom porque é um caminho para a vida, porque a vida é ampla e múltipla. Precisamos comungar com a vida e não subjugá-la.