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quinta-feira, 24 de março de 2016

Se Eu Fosse Deus

Uma reflexão. Talvez um tanto que poética, simplificada demais, imprecisa, mas eu acredito que é bem adequada até mesmo como metáfora para repensar a natureza do divino.

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Se Eu Fosse Deus

Se eu fosse Deus, eu me entediaria de saber tudo sobre o futuro, sobre as coisas, sobre ser tão perfeito.

Eu me entediaria de mim mesmo. Eu dissiparia a mim mesmo, desintegrando-me em pura luz, espalhando em todas as direções, tal como um quebra-cabeças, sem olhos, sem ouvidos, sem boca, sem nada.

Só o impulso de unir-me e o impulso de separar-me. Só a habilidade de perceber, a habilidade de estimular, revelar energia, para gradualmente integrar de novo. Só para formar de novo um quadro e, talvez, um quadro diferente.

Cada fragmento de mim seria como um ser novo, tornando-se mais consciente a medida que se unisse a outros fragmentos, tornando-se mais inconsciente a medida que se separasse de outros (mais tarde eu chamaria isso de Bem e Mal). Eu olharia para mim mesmo e não me reconheceria. Acharia ressonâncias dentro de mim. Feriria a mim mesmo, sem mesmo perceber que seria eu lidando comigo mesmo.

Muito de mim iria reconstruir estrelas, e das estrelas novas estrelas, e daquelas estrelas planetas. Galáxias, buracos negros, buracos de verme. Eu os reconstruiria todos.

Algumas vezes eu me tornaria seres especialmente conscientes, capazes de replicar a si mesmos, mas eles não perceberiam que cada um deles simplesmente seria eu. Lutariam pela sobrevivência, ainda sem entender que não poderiam realmente morrer, porque seriam eu (e eu não poderia morrer como um todo). De fato, como eu os seria, no fim das contas sou eu que não seria capaz de entender nada disso.

Alguns seres que me tornaria seriam ainda mais conscientes. Até mesmo iriam suspeitar que se assemelhavam a mim.

Eu adoraria a mim mesmo, oraria a mim mesmo. Odiaria a mim mesmo. Causaria guerras por causa de mim mesmo mas, de repente, iria perceber que era apenas eu mesmo.

Surpreendente.

Uma intuição. No começo eu não acreditaria mas então, mais e mais, isso retornaria à minha mente, pela mente dos mais diversos seres que eu teria me tornado.

Eventualmente eu reintegraria a mim mesmo, e talvez eu me lembrasse de algo do começo. Finalmente, eu acredito que me entediaria de novo e começaria tudo mais uma vez...

domingo, 16 de março de 2014

O Diabo e os Folhetos de Missa

No post anterior (Uma Conversa com o “Diabo”), eu comecei a narrar um sonho onde o “Diabo” havia se apresentado a mim (com ressalvas em relação a este nome mas, enfim, era um sonho). A minha narração tinha prosseguido até o momento em que eu e o Diabo havíamos entrado em um elevador e estávamos nos deslocando junto com o mesmo. Prossigo agora com o sonho.

De repente, então, nos materializamos dentro de uma igreja. Ela estava aberta e o ambiente era escuro, da maneira característica de muitos destes templos. Não havia missa naquele momento, porém diante de nós estavam posicionados alguns folhetos que as pessoas costumam utilizar para acompanhar as celebrações e assim poderem participar quando solicitadas.

O Diabo tomou em suas mãos um destes folhetos e mostrou-me. Prosseguiu dizendo:
- Há mais de cem anos eu comecei a mudar a igreja Católica. Lamento não ter conseguido começar antes.

Na sequência, iríamos então nos materializar em um novo local.

***

É certo que o sonho não acaba neste ponto (ainda há mais uma parte) mas pretendo comentar, com alguma profundidade, esta breve passagem descrita aqui. Interpretando-o à luz de minha percepção atual, vêm à minha mente a ocorrência de símbolos e contextos considerados sagrados por muitas pessoas mas que parecem mais familiares do que se supõe que deveriam ser a Lúcifer (é a forma que prefiro chamá-lo, ao invés de “Diabo” como sugere o sonho).

Observe estas afirmações atribuídas ao próprio Jesus:

Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar, e quando eu me for e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também.
E para onde vou, conheceis o caminho". Tomé lhe diz: "Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" Diz-lhe Jesus: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes".
Filipe lhe diz: "Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!" Diz-lhe Jesus: "Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: 'Mostra-nos o Pai!'? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras.
(João 14, 1-11, Bíblia de Jerusalém)

De acordo com esse trecho, Jesus se coloca como o caminho, a verdade e a vida. Ele também se identifica plenamente com o Pai. Ele está no Pai e o Pai está nele. Muitos utilizam desta argumentação para justificar que não existe nenhum outro meio de salvação a não ser por Jesus Cristo e, portanto, pelo cristianismo. Daí que tudo o que é alheio ao cristianismo, é considerado o caminho para a danação, ao invés da salvação.

Quando essa exclusividade (no que diz respeito à salvação) é questionada, a resposta é: “Como podes dizer: 'Mostra-nos o Pai!'? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?”, sendo negada a resposta a este questionamento. A repreensão conclui da seguinte forma: “As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras”.

Não me considero capaz de afirmar se Jesus de fato proferiu estas palavras que lhe foram atribuídas, mas sei que são um argumento perigoso em uma época em que nenhum de nós viu estas obras de fato e, portanto, não podemos atestá-las. O que nos é pedido neste trecho bíblico é que acreditemos em algo que nega tudo o mais sem um bom motivo para fazê-lo. Este “tudo o mais” que é negado representa justamente aquele que muitos chamam de Satanás, ou Lúcifer (embora Lúcifer e Satanás sejam palavras com significados distintos), ou o “Diabo”.

E é aí que entra o papel deste personagem controverso. Ele é diretamente negado pelo suposto sagrado, e daí que é até lógico imaginar um interesse dele nesse sentido. A questão é: que armas ele poderia utilizar? Uma possibilidade é utilizar-se da lógica, da ciência, da filosofia, dos conceitos do esoterismo e do ocultismo, das mais diversas religiões de origem pagã e, enfim, de tudo que não tem laços de dependência em relação ao cristianismo. Mas utilizar-se de toda essa gama de consciência para quê? Simples: para questionar o que, segundo a bíblia, é inquestionável. Questionar é o mesmo que acusar. A palavra Satanás, na verdade, significa exatamente isso: acusador.

Por exemplo, quando culturas inteiras foram expostas ao homicídio em massa (sob requintes de tortura), culminando até mesmo com a morte nas fogueiras, quem era o acusador? Satanás. Aliás, a igreja católica até hoje não se retratou por estes atos de crueldade e violência (embora não tenha sido a única responsável). A humanidade, em geral, não tem memória de atos tão antigos.

Já a palavra Lúcifer tem um sentido bem mais complexo. No mito era um anjo cuja função era conduzir a Luz (Lux Ferre, onde Lux é luz e Ferre é conduzir). Porém, ao invés de desejar ser meramente o condutor, ele pretendeu ser a luz. Ser a luz, de uma forma bem simplista, pode significar também ser consciente (o que envolve toda a gama da consciência que há, e não apenas uma pequena parte, a qual nega a validade do tudo o que lhe é diferente). No entanto, não se trata apenas disso. Ser a luz também significa reconhecer que a divindade está em si mesmo pois ela está em tudo. A divindade é tudo.

Aliás, a palavra Diabo também tem um significado. Ela vem de Diabolos, que é o oposto de Símbolo. O Símbolo dá significado a algo. Já Diabolo, diz respeito a destruir esse significado. De certa forma, também é verdadeira.

O que teriam os folhetos de missa a ver com tudo isso? Há um século não existiam os folhetos de missa pois eram em latim. O conteúdo destes era cifrado para a grande maioria das pessoas, e isto os tornava virtualmente inquestionáveis. A tradução da bíblia católica em diversas línguas (que aconteceu no século passado), bem como a criação dos tais folhetos, trouxe os conteúdos da religião às mentes das pessoas que assim puderam começar a questioná-los.

No próximo post eu vou concluir a narração do sonho e sua interpretação.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Uma Conversa com o "Diabo"

Certa vez, em meio às minhas experiências relacionadas à goécia, eu tive um sonho onde surgiu um homem diante de mim. Ele tinha estatura mediana, cabelos curtos e negros e pele clara. As roupas eram um tanto formais, tratando-se apenas de um terno simples. A expressão facial nada dizia do que se passava em seu interior. Não havia pista alguma do que se seguiria no sonho. Apresentou-se:

- Olá, eu sou o Diabo.
- O Diabo?
- Sim.

Talvez muitas pessoas considerem esta identificação estranha, afinal costuma-se relacionar a goécia a demônios internos, e não a um ser identificando-se como o “Diabo” (afinal nem mesmo é propriamente um nome). No entanto, quando se reflete que as imagens que brotam na experiência com o inconsciente são fortemente condicionadas pelas impressões pessoais daquele que tem o sonho, não se deve estranhar que a simbologia fuja à uma norma padrão.

Prossegui com o diálogo:
- E porque razão você veio aqui conversar comigo?
- Apenas quero fazer um convite a você. Gostaria de conhecer o paraíso?
- E você, sendo quem é, pode visitar o paraíso?
- Posso, sempre que quero. Quer ver como é?

Irrefletidamente, respondi:
-Quero.
E estávamos então em um jardim. Ele continuou a falar:
- Este é o paraíso. O Jardim do Éden.

Eu observei o local. Era preponderantemente natural. O máximo que pude encontrar ali (no que diz respeito a construções "artificiais") eram bancos, onde algumas pessoas se sentavam. Quase não conversavam entre si. Não havia estímulo, nem propósito de realizar coisa alguma. Não havia atividade intensa, nem conversas inflamadas. Eu tive uma impressão de calma e previsibilidade. Senti-me desconfortável por causa da ausência de ação naquele ambiente.

Ele continuou a falar:
- Eu também não me sinto bem. Vamos sair daqui?
Fiz uma pequena pausa e consenti:
- Vamos.

De repente, estávamos diante de um elevador e entramos nele (assim são os símbolos nos sonhos, às vezes muito triviais). A porta se fechou e o elevador subiu. O movimento do elevador me surpreendeu pois eu esperava que o paraíso que eu havia visitado estivesse acima de tudo e, portanto, o elevador deveria descer ao invés de subir. Meu estranho interlocutor olhou para mim seriamente, sem dizer palavra alguma.

***

No mito bíblico do Jardim do Éden não era pressuposto que o ser humano possuísse a capacidade de diferenciar entre o Bem e o Mal (ou julgar a si mesmo e o que existe ao seu redor). O papel de Adão era cuidar do jardim, enquanto o papel de Eva era ser sua companheira. Idealmente todas as transformações ocorriam de acordo com a forma que haviam sido planejadas e, enquanto a humanidade (no mito, reduzida a Adão e Eva) não fosse capaz de efetuar distinções de valores (definindo o Bem e o Mal), permaneceria integrada àquela existência em harmonia e, portanto, sem que pudesse causar danos. Uma condição de inocência, por assim dizer.

No entanto, a distinção entre os seres já existia e a serpente estava ciente disso (ou seja, o paraíso já não era mais harmonioso). Homem e mulher haviam sido proibidos por Deus (ou melhor dizendo, aquele que era considerado Deus na bíblia), o que já indicava que havia uma separação fundamental entre Deus e o ser humano (o qual lhe devia ser obediente). Em suma, as divergências já existiam: apenas não eram percebidas pelo ser humano.

A desobediência foi um ato espontâneo, pois Adão e Eva não poderiam qualificar aquela ação fosse como boa, ou fosse como ruim. Já a expulsão se deu não por causa do castigo do pecado cometido (um pecado inconsciente, por sinal, afinal não se compreendia sua malignidade), e sim devido às possibilidades que o ser humano poderia assumir caso não fosse contido (caso não fosse limitado), uma vez que já possuía a capacidade de discernimento e, portanto, tinha em si os primórdios da própria consciência.

O fruto do discernimento entre o Bem e o Mal tem o mesmo significado que o fogo roubado por Prometeu na mitologia grega. Neste mito, Prometeu havia roubado o fogo de Zeus e o dado aos mortais. Dessa forma, a humanidade havia adquirido o poder do fogo, deixando sua condição de fragilidade. Prometeu foi amarrado a uma rocha como punição. Todos os dias uma águia devorava seu fígado, e o fígado se regenerava somente para ser devorado de novo no dia seguinte. Tal punição prosseguiu até o dia em que Hércules o libertou.

A semelhança entre Prometeu e Lúcifer (simbolizado pela serpente) é clara, bem como o estígma que obteve por ter profanado o fruto da árvore do Discernimento entre o Bem e o Mal (tal como Prometeu foi acusado, quando profanou o fogo de Zeus).

Por enquanto, vale refletir sobre os mitos e conteúdos expostos aqui. Em breve irei acrescentar novos posts, adicionando mais alguns comentários e, é claro, também irei prosseguir com a narração do sonho (há uma quantidade relativamente diversificada de conteúdo que quero expor sobre o mesmo e, por isso, optei por fazê-lo gradualmente).
Para aqueles que desejarem conferir os trechos mencionados na bíblia, verifiquem Gênesis 3, 1-22. Apenas sugiro utilizarem de uma boa tradução (pessoalmente prefiro a Bíblia de Jerusalém, mas fica a critério de cada um).

sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda

As pessoas possuem os mais diversos critérios para definir o que consideram magia branca e magia negra. Muitos relacionam a via sinistra (a do caminho da mão esquerda) à magia negra, enquanto associam o caminho da mão direita à magia branca. Pessoalmente eu não concordo com este tipo de associação e quero acrescentar aqui minha definição pessoal sobre o que considero ser o real divisor de águas entre estes dois caminhos (da mão esquerda e da mão direita), o qual acredito que seja a experiência com Choronzon.

Alguns o consideram um demônio, enquanto outros acreditam que seja meramente uma espécie de dinâmica (um efeito sem personalidade). Na realidade eu já comentei muito sobre minhas próprias experiências com Choronzon em posts anteriores (veja O Início de uma Experiência Assustadora com meu Inconsciente, Um Tempo com Choronzon, A Lição que se Aprende com Choronzon e Entendendo o Papel de Choronzon), mas é óbvio que ainda não esgotei o que gostaria de comentar sobre este tema, como vou demonstrar agora.

Um certo tempo após o encontro com meu Santo Anjo Guardião (veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), eu tive uma experiência de confronto com este ser. O mais interessante nesta experiência é que eu pude ver refletido meu ego, com todas suas ilusões sedutoramente ampliadas. Ao perceber minhas ilusões, eu pude lidar com elas objetivamente pois estas haviam perdido grande parte do poder de manipular-me.

Percebi que o ego fazia-me negar infinitas possibilidades apenas para afirmar um “ideal” que não me satisfazia, que traduzia-se em crenças que me foram instiladas desde minha infância. Eu considerava-me inferior ao comparar-me com os padrões assumidos nestas crenças. Considerava-me fraco, incompleto, cheio de necessidades e com desejos questionáveis. Considerava-me um fracasso por não ser quem eu acreditava que deveria ser. O encontro com Choronzon me fez perceber a insanidade a que eu me impunha ao tentar medir-me por padrões praticamente inatingíveis.

Questionei então se era eu que de fato estava errado por causa de minhas necessidades (às quais eu tentava ignorar e jamais conseguia) ou se o erro estava em ter assumido um sistema de crenças e valores que não inventei, através de uma fé a qual eu não questionava. Foi aí que resolvi abrir-me para a amplitude que existe dentro do inconsciente. Há infinitas possibilidades ali. O que me assustou, a princípio, foi como esta diversidade mostrou-se escura, um tanto demoníaca. Afinal era assim que eu havia me acostumado a julgar esta diversidade, e é assim que o mundo também costuma julgá-la.

Nenhum ser dos que se consideram iluminados apresentou-se ali. Estes seguem regras estritas e possuem caminhos rígidos. Não estendem a mão para quem julgam não possuir o mérito de conhecê-los. Por outro lado, aqueles que se apresentavam receberam-me com cordialidade e passei a interagir com eles, principalmente nos sonhos. Foi assim que optei pela via sinistra, pelo caminho da mão esquerda, o mergulho dentro do inconsciente, e jamais me arrependi. Não encontrei ali o ódio, e sim o profundo amor pela diversidade.

Hoje em dia afirmo conscientemente que amo profundamente aquilo que muitos temem, não por vantagens que isso poderia trazer, pois estas vantagens são ilusórias. O mundo vem instilando há muito tempo o conceito de que a diversidade é malígna e que somente uma opção é benígna. Muitos acreditam nisso e, inspirados por má índole, buscam a via sinistra. São escolhas inconscientes que sempre levam à desilusão.

No meu caso, a escolha pareceu-me simples: era permanecer em um caminho cada vez mais estéril por isolar-se de tudo o mais (o que antes eu julgava ser o caminho certo), ou permitir que toda uma multiplicidade de influências viesse a mim. A opção lógica era abrir-me à diversidade. Eu desconhecia então os conceitos de caminho da mão esquerda (em que acontece a abertura ao inconsciente) e caminho da mão direita (que isola de si grande parte do inconsciente, negando-a). Para mim a escolha parecia ser óbvia. Levei algum tempo para compreender que o caminho que havia escolhido não era o mesmo trilhado por muitos outros.

Ultimamente eu tenho percebido que o caminho da mão esquerda está se tornando mais reconhecido pelas qualidades que tem, e não pelos desejos mesquinhos dos tolos. Isso é bom porque é um caminho para a vida, porque a vida é ampla e múltipla. Precisamos comungar com a vida e não subjugá-la.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Direito de Ser Quem Você Deseja Ser

Trago a vocês um de meus posts originalmente publicado na comunidade Repensando a Magia e o Ocultismo (clique aqui para ver o post especificamente). Apesar das propostas da comunidade e deste blog não serem as mesmas, eventualmente surgem alguns conteúdos que podem ser compartilhados entre os dois espaços.

O post tem forte relação com a história pessoal sobre meu caminho na magia, porém é conceitual. Seu objetivo (assim como de alguns outros) é ajudar a qualificar os eventos que venho narrando. Transcrevo-o abaixo: 


Encontrei recentemente um artigo sobre mapas mentais (http://parquedaciencia.blogspot.com.br/2013/10/cartografia-pessoal-os-mapas-mentais.html). É um conceito novo para mim. Não que se trate de um tema esotérico, mas é uma forma de estudar como um indivíduo se sente em relação ao seu meio. Uma maneira de investigar o subconsciente.

Penso a este respeito, visualizando o que poderia ser feito em termos de investigação no ocultismo. Poderíamos descobrir como as pessoas se sentem em ambientes específicos. Saberíamos as impressões que lhes são causadas. E então, pela soma das respostas, conheceríamos algo sobre como as consciências individuais se dinamizam coletivamente.

Pena que nem todos se permitem dizer exatamente o que pensam e sentem, o que prejudica o estudo neste sentido. Infelizmente vivemos em um mundo cheio de tabus, onde as pessoas são criticadas pelo que desejam mais intimamente. Como se não tivessem o direito de simplesmente ser quem desejam ser... O desejo é reprimido com base em valores morais questionáveis à luz de uma ética simples, a qual deveria ser o limite da liberdade inalienável de ser simplesmente quem você é.

Criam-se dogmas para que as pessoas adequem suas formas de desejar a fim de que se conformem com os mesmos. Reprimindo o que alguém quer mais intimamente, você adquire mais poder às custas deste que é reprimido. E quando o indivíduo reprime a si mesmo em favor de algo que você impõe, ele dá (de livre e espontânea vontade) o poder a você. É uma relação de abuso. E normalmente o abusado torna-se abusador, criando um ciclo vicioso.

Pior que isso, para se impor com mais eficiência, os abusadores chamam-se a si mesmos de detentores da moral (que é uma coisa absolutamente relativa, dentro de cada cultura) e da espiritualidade (que é uma profanação desta palavra).

O segredo oculto à maioria das pessoas é que a pretensa luz é, na realidade, expressão das verdadeiras trevas (trevas no sentido de que você nada pode ver além delas). Tudo o que se coloca além desta pretensa luz foi chamado de diabólico, de demoníaco.

Há apenas diferença e o respeito por esta diferença deveria ser a tônica de todos os relacionamentos, sem maior e sem menor. Rotular alguns seres como divinos e angelicais e outros como demoníacos é um profundo desrespeito à diversidade (observe que a diversidade é realmente muito, mas muito ampla).

Quantos de nós não se sentem mal por algo que se pensa e que vai de encontro aos tabus sustentados por uma maioria inconsciente? Quantos de nós deixamos de fazer algo simplesmente porque a religião não permite?

Acreditam que isso realmente vai libertá-los, que isso vai levá-los à Verdade? Se abusados tornam-se abusadores e se há muitos abusadores, quebremos o ciclo, revertendo-o. Se persistirmos, eventualmente a opressão cessa.

Alguns de meus textos parecem ser um tanto negros, um tanto demoníacos até. Eis a explicação. Não posso me conformar com atitudes inconscientes, mesmo que isso pudesse me trazer algum tipo de conforto.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A Lenda do Bem e do Mal

Era uma vez um reino em que havia dois príncipes irmãos. O rei, pai destes, desde o começo de suas infâncias, sempre os levava junto a si para que conhecessem outras terras. Após tornarem-se adultos, ambos costumavam lembrar-se destes momentos de proximidade com carinho. Porém apenas um destes príncipes era destinado a suceder o rei, enquanto o outro, mais jovem, embora gozasse da generosidade do irmão, sabia que haveria um momento em que precisaria curvar-se a ele, submetendo-se, e isso o consumia interiormente. Mesmo amando o irmão, não conseguia aceitar que um dia este seria maior que ele.

Aconteceu do pai vir a falecer e nova coroação se sucedeu, de forma que o irmão mais velho passou a ocupar o palácio que antes fora de seu pai. Além disso, o novo rei havia contraído matrimônio, sendo sua esposa bela e virtuosa. Já nos anos iniciais de seu reinado nasceram três filhos e o reino prosseguia cada vez mais próspero.

O irmão invejoso, embora contasse com um importante título de nobreza e continuasse tendo livre acesso à corte, consumia-se ainda mais em sua inveja, até que esta igualou e superou o amor que tinha pelo novo rei, seu irmão. Não tinha descendentes, nem tampouco tinha contraído matrimônio. Toda a alegria que o rei percebia tornava ainda mais negra a sombra que existia em seu coração, ocultando cada vez mais a luz dentro de si, até que esta se tornou imperceptível. Há muito tempo dominava a arte da magia negra à qual se dedicava em segredo, impulsionado pelos sentimentos malévolos que não conseguia conter dentro de si. A princípio, quando começou a enveredar-se por esta arte, julgava ser por mera curiosidade, mas então começou a vislumbrar possibilidades práticas em que poderia utilizá-la contra seu próprio irmão.

Elaborou então, cuidadosamente, os detalhes do ritual que utilizaria. Não lhe foi difícil ter acesso aos objetos pessoais do rei para que pudesse criar um feitiço, pois contava com sua confiança. O essencial para que a maldição fosse completa seria que, no momento que estivesse rogada, o fosse com o desejo mais negro. Assim escondido, durante a noite, deu início à sua vingança, amaldiçoando o irmão.

No entanto, durante o ato negro, a pequena luz que existia ainda dentro de seu coração fez-se revelar, mesmo que tênue. Pensou: “Tudo que meu irmão criou é tão belo. Quero possuir esta beleza.”, e depois envergonhou-se, acrescentando: “Que jamais eu, ou qualquer outra pessoa, possa destruir a beleza que meu irmão criou”. As trevas voltaram então a seus pensamentos. O resultado do ato praticado não seria imediato. De fato, um ano inteiro deveria se passar para que seu intento começasse a se realizar.

Passado um ano, o rei estava então ocupado ensinando seus filhos a plantar novas sementes dentro de uma estufa recém construída. Estava entretido e feliz. O dia inteiro havia se concentrado em assuntos que sua posição exigia e o único tempo que havia encontrado para dedicar-se aos filhos foi durante a noite. Mas não se importava. Este tipo de atenção não lhe cansava. Foi quando o teto da estufa desabou, de forma que o rei ficou preso entre os escombros. Não estava ferido e seus filhos estavam a salvo, mas sentia a massa ainda úmida da construção em contato com seu rosto, com seu tronco e com seus braços. Três dias foram necessários para tirá-lo dali. Enfim solto, percebeu a massa irremediavelmente presa à própria pele. Não havia como removê-la sem retirar a pele. Sua aparência seria, desde então, monstruosa.

O irmão mais novo regozijava-se com o infortúnio do rei, pois sabia o que se seguiria. Com o passar do tempo a rainha, mesmo sendo virtuosa, não conseguia mais olhar para seu próprio marido. O mesmo aconteceu com os filhos. O rei, em desespero, abandonou seu reinado e passou a andar pelas ruas disfarçado como mendigo. Como havia desaparecido, o irmão o substituiu no castelo, seduzindo a rainha e ganhando até mesmo a confiança dos novos príncipes.

Enquanto isso a luz no coração do rei diminuia devido à amargura que sentia dentro de si, ao ver seu irmão ao lado da rainha e de seus filhos. O ódio começou a consumi-lo. Mas o feitiço do irmão invejoso não havia sido perfeito: “Que jamais eu, ou qualquer outra pessoa, possa destruir a beleza que meu irmão criou.”. Ora, esta beleza começava exatamente no coração do rei. Tudo o que havia criado era fruto de seus sentimentos, os quais foram nutridos carinhosamente. Naquele momento seu coração estava se tornando negro.

Era noite e a estufa que havia desabado continuava inalterada. As sementes que haviam sido plantadas estavam germinando e crescendo, revelando-se além do solo. A pouca água que havia disponível tinha sido o suficiente para conceder-lhes vida. Naquele mesmo momento a massa presa à pele do rei começou a desprender-se e uma nova esperança preencheu seu coração. Voltou ao castelo, mesmo em andrajos. Ainda assim, todos o reconheceram. A rainha, arrependida, acolheu-o em prantos, da mesma forma que seus filhos. O rei perdoou verdadeiramente a toda sua família.

O irmão invejoso, envergonhado, fugiu. Somente isto era motivo de tristeza ao rei. Porém, consumido pela culpa, o irmão retornou e confessou o mal que havia causado. O rei, percebendo a dor no coração do irmão, perdoou-o, também verdadeiramente. O perdão foi tão pleno que o mal praticado foi totalmente esquecido.

Esta é a lenda do bem e do mal. Infelizmente como o mal foi esquecido, este sempre retorna de tempos em tempos, mas a luz do bem jamais é extinta por completo.

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Fica aqui uma reflexão. O bem e o mal existem no coração de todos os seres. Não existem seres do bem, nem seres do mal. Existe apenas uma dinâmica que sempre se repete.

domingo, 8 de setembro de 2013

O Que Está Dentro é Como o Que Está Fora

Estou retornando de minha pausa em relação ao blog (reconheço, bem antes do que havia imaginado). Por mais que haja objetivos pessoais concorrentes com os quais preciso lidar, não consigo ficar tanto tempo sem escrever (velhos hábitos nunca mudam). A verdade é que já comecei a aprender alguns macetes para administrar melhor meu tempo, sendo que um deles (mas não o único) é tornar a frequência com que escrevo um pouco mais flexível e mais espaçada (foi o que acabei fazendo para compor este post, aproveitando um esboço que já havia começado e desenvolvendo-o quando tive tempo disponível). Assim, ao invés de escrever semanalmente, eu vou fazê-lo mais ou menos mensalmente (precisarei controlar meu impulso de sempre querer rever e acrescentar algo quase que de imediato). Desculpem-me por meu post anterior (Uma Pausa) ter sido tão dramático. Afinal, como ser humano, às vezes eu também faço algumas “tempestades em copo d’água” (e armo alguns barracos também, em situações mais práticas, às vezes). 

Como resultado colateral desta mudança de ritmo, vou levar muito mais tempo lhes contando minha história pessoal no caminho da magia. Mas, na realidade, não tenho pressa e sempre considerei mais interessante apreciar o caminho do que simplesmente chegar aos objetivos pretendidos. As histórias vêm daí, dos caminhos. 

Volto então ao tema da goécia (que iniciei no post Goécia: Refletindo Sobre o que Marginalizamos no Inconsciente). Vamos lá… Certa noite sonhei com uma demônia. Demônia, mas não que tivesse algum defeito na aparência ou que inspirasse algo de desagradável. Na verdade era atraente e invulgar. O conhecimento de que se tratava de uma demônia estava implícito, já em minha mente, sem que tivesse sido comunicado claramente no sonho.

Ela fez uma proposta a mim. Demônios sempre fazem propostas. Normalmente nós temos aquele velho chavão “pacto com o demônio”, e talvez haja algo de verdadeiro nisto, porém normalmente trata-se de exagero. O que eles propõem é usualmente um trato, pura e simplesmente, e quase sempre sem aquela conotação de coisa eterna, para sempre.

No caso, ela propunha me ajudar a entender as pessoas. Ela disse que poderia revelar-me o que realmente motiva os seres humanos, por detrás da aparência das palavras, e por detrás até mesmo da fachada do que alguns acreditam ser suas verdadeiras razões. Segundo ela, assim eu poderia agir com segurança diante do que surgisse diante de mim no dia-a-dia. Não me propunha coisa alguma em troca. Enfim completou: “Então, o que acha dessa ideia?”. Eu não respondi nem com um “Sim”, nem com um “Não” e o sonho terminou assim, com um desfecho em branco.

O leitor pode considerar com uma certa estranheza esta narração que aqui estou expondo. A ideia de perceber o que as pessoas escondem (até mesmo de si mesmas), tendo acesso a algum tipo de informação (sobre a qual não se supõe que deveríamos ter) causa, em geral, uma certa repulsa. Afinal não gostaríamos que fizessem isso conosco. Não gostaríamos que as pessoas soubessem (com um alto grau de certeza) do que realmente pensamos a respeito delas, do mundo, de nossas estratégias. Acreditamos que devemos ocultar-nos, seja para sermos melhor aceitos, seja para nos protegermos. A proposta da demônia, portanto, fere este instinto de ocultação.

No entanto, nos aprofundemos nesta proposta. Consideremos que há duas formas de se conhecer as motivações das pessoas (sem que perguntemos diretamente a elas). A primeira é olhando para dentro de nós mesmos e verificando como reagimos às pessoas, porque sabemos que os efeitos que sentimos interiormente podem corresponder a causas exteriores. Como se o exterior tivesse (e tem) ramificações dentro de nós. É a noção de que somos interligados e que, justamente por isso, não existem segredos de fato.

A segunda forma é pela via inversa. Explico: se somos interligados uns aos outros, toda nossa expressão é transmitida (para outros) e recebida (por outros), em virtude de nos comunicarmos. Dessa maneira temos raízes nas demais mentes (ramificações de nós mesmos em tudo o que nos é receptivo). Por este motivo (e em certa medida) o universo corresponde ao que esperamos dele (equivale a saber como o universo se sente tendo como base como nós mesmos nos sentimos). Entretanto, em tal situação, as demais pessoas nem sempre estão conscientes de nossa influência específica em suas vidas (quando desejamos algo em relação às mesmas). Frequentemente, se esta influência é percebida (e não corresponda a padrões de pensamento e comportamento que o indivíduo considere aceitáveis, ou seja: conforme seus egos), o pensamento é rejeitado, e muitas vezes reconhecido como que de origem externa. Ocorrendo esta rejeição, quem provocou o estímulo é considerado como o tentador (voltando à alusão aos demônios), não importando o quão agradáveis possam ter sido os efeitos enquanto eram meramente inconscientes. Daí se deduz que, neste tipo de situação, uma transformação que permanece fora do limiar da consciência pode ser mais eficaz do que alguma que se evidencie conscientemente.

Tudo se resume no contraste entre consciência e inconsciência. Eu, pessoalmente, sou parte do seu inconsciente (de você, leitor), assim como quase tudo o mais o é. Da mesma forma você é parte do meu inconsciente (assim como quase tudo o mais o é). O que nos impede de vermos isto claramente são nossos egos, os quais tendem a rejeitar tudo que lhes foge à compreensão. Na verdade, o que denominamos demônios é pura e simplesmente aquilo que não se encaixa em nossos estereótipos, incluindo aí nossas noções de moral, do bem e da religião (pois são conceitos que têm relação entre si). A moral deriva do que acreditamos ser o bem, da mesma forma que a religião tem a mesma derivação. Quanto à percepção que cada um tem a respeito da divindade, esta tende a alinhar-se da mesma forma.

O que em geral não se percebe é que a noção comum de bem e mal é baseada na distinção entre os seres (entre uma pessoa e outra, ou entre Deus e o Diabo em um escopo mais amplo), e não na comunhão entre tudo o que há (onde a divindade metamorfoseia-se em tudo, não existindo nada que não seja divino - veja o post Quando tudo é Divino: um Universo sem criador e sem criatura). Estas são percepções opostas e que acabam por provocar uma distorção na consciência do que é o bem (e o mal por extensão). Acabam também por distorcer nossos conceitos morais e, enfim, distorcem a noção da própria natureza da divindade. É precisamente esta distorção que leva à violência explícita (onde um fere o outro, ao invés de unir-se ao outro), da mesma forma que leva aos preconceitos raciais, ao machismo (e também a algumas formas negativas de feminismo, pois nem todas são negativas) e a diversas outras expressões de preconceito. Percebemos, assim, como “demoníaco” o que desafia nossa persistência no isolamento.

Afinal, porque nos parece tão perigoso quando alguém é capaz de perceber realmente o que pensamos ou o que pretendemos realizar? Certamente é porque vemos uns aos outros como que isolados, como em eterno conflito, competindo mutuamente. Desejamos muitas vezes sermos sinceros, mas não ousamos sê-lo.

Embora o contato com os demônios suscite em nós reações egóicas, certamente este não é o propósito destes seres. O objetivo real é que reconheçamos o que nos atrai, ao invés de o negarmos. Nossas necessidades não cessarão se jogarmos para debaixo do tapete o que não conseguimos aceitar em nós mesmos. Pelo contrário, apenas se tornarão mais intensas e falharemos, e nos confessaremos (nas religiões onde a prática se aplica), e falharemos de novo, e permaneceremos em um eterno ciclo onde nada essencialmente se transforma.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Buscando Objetivos e Superando Obstáculos - Introduzindo o Número 4

Após finalizar a descrição do número 3 (no post Transições - Concluindo a Interpretação do Número 3) dentro de um sistema numerológico de 18 símbolos, pretendo agora introduzir o número 4. Como demonstrei anteriormente (em Algumas Bases Numerológicas), tal como na astrologia, os números podem ser qualificados como cardinais (cujas influências objetivam criar resultados idealizados que ainda não se manifestaram), fixos (que têm como objetivo sustentar, manter e fortalecer algo que já se estabeleceu) e mutáveis (que objetivam quebrar um padrão já consolidado, desestagnando estruturas sólidas e criando uma certa dose de caos necessária para que uma mudança seja possível).

O número 1 é cardinal (veja o post Compreendendo o número 1 no sistema de numerologia de 18 símbolos), seguido pelo número 2 o qual é fixo (descrito no post O Número 2 e sua Relação com Meus Primeiros Contatos com a Bruxaria), e então pelo número 3 que é mutável (abordado em A Deterioração e sua Relação com o Número 3). Como trata-se de um ciclo, deduz-se que a natureza do número 4 também é cardinal.

Assim, sob um ponto de vista sequencial, após concluída a deterioração de padrões antigos (caracterizada pelo número 3) segue-se o estímulo do número 4, favorecendo o esforço de se assumir novos propósitos, ao mesmo tempo que firma o intento da superação de obstáculos que eventualmente surjam em oposição a estes. Ressalta-se que, embora a essência do número 4 não trate de qualquer tipo de garantia de sucesso em relação ao propósito que se almeja, ainda assim constitui uma perspectiva extremamente favorável em virtude da determinação de atingir algo, mesmo quando as situações apresentam dificuldades. De uma forma geral, esta determinação acaba por “fazer a diferença”, culminando em transformações reais.

Alguém que possua a data de nascimento ressonante com o número 4 (cujo método de verificação encontra-se no post Compreendendo o número 1 no sistema de numerologia de 18 símbolos) se identifica com os atributos numerológicos relacionados ao mesmo (no que diz respeito às suas atitudes e à forma de pensar e agir em geral). A natureza cardinal estimula esta pessoa no sentido de ser proativa, tornando-se particularmente motivada quando encontrando-se em situações que desafiam seus objetivos e metas. São pessoas determinadas que não se deixam abater por obstáculos.

Na história pessoal de meu caminho na magia (a qual venho narrando) alguns objetivos se destacaram enquanto ocorriam os estímulos do número 4. Houve aqueles que foram mais nítidos como, por exemplo, com respeito ao desenvolvimento de meu relacionamento amoroso (sobre o qual comecei a descrever no post Primeiros Passos no Amor) ou então com relação à minha carreira (mudanças que começam a ser descritas em Um Experimento em um Sonho e Suas Consequências). Porém algumas experiências foram mais sutis, sendo relacionadas à realidade invisível da magia.

Eu irei tratar a respeito de todos estes desenvolvimentos, mas pretendo começar pelos eventos não-físicos, ligados à exploração do inconsciente. No post Goécia: Refletindo Sobre o que Marginalizamos no Inconsciente, descrevi como a goécia é comumente mal interpretada, sendo em geral considerada negra (pois trata-se do contato com o que costuma-se definir como demônios internos, e o termo demônio geralmente produz este tipo de julgamento). É claro que todo tipo de intenções emerge a este respeito, sendo que alguns enxergam nestas interações meios possíveis para que possam tirar proveitos puramente egoistas (entretanto este tema é muito mais amplo do que estas considerações superficiais).

Mas qual a relação entre o número 4 e o contato com demônios internos? É uma relação sutil, a qual pretendo explorar em detalhes, porém posso adiantar que todos os aspectos deste número estão “mesclados” de uma forma ou outra a estas interações (principalmente porque suscitam desejos que podem traduzir-se como objetivos e metas, mas também porque implicam no desafio de manter-se íntegro e evitar corromper-se na busca dos mesmos). Se por um lado tais contatos revelam causas (ou ideais) que podem ser consideradas egocêntricas, esta impressão apenas é assim porque não sabemos conciliar estes propósitos com o bem coletivo. Se de fato não desejássemos a realização que nos parece egoísta, esta não nos faria falta alguma. O desafio é justamente transcender a própria forma de buscar (aperfeiçoando-a a ponto de torna-la benígna), ao invés de pura e simplesmente nos negarmos a prosseguir. Portanto, este tipo de contato tem um caráter enigmático, exigindo uma solução da qual sempre nos aproximamos, mas que talvez jamais cheguemos à uma conclusão definitiva, pautando-se assim pela reflexão constante. Dessa forma, redefine-se os limites entre o que se considera como o bem e o mal, criando-se um contexto cada vez mais permissivo, menos imposto, mais livre e menos restritivo. Trata-se, então, de participar do processo da renovação moral do mundo, descartando rótulos de “certo” e “errado” (os quais não são estáticos e imutáveis), e substituindo-os por relações mais éticas (onde valoriza-se a unidade dentro da diversidade). Quando a consciência individual se amplia (e se comunica com os demais, sendo esta uma condição necessária), todos se beneficiam.

Obviamente, este post diz respeito ao número 4, em um sistema numerológico de 18 símbolos. Para quem deseja ver outros posts relacionados à numerologia, fica aqui este link.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Entendendo o Papel de Choronzon

Como eu já havia mencionado no post A Lição que se Aprende com Choronzon, hoje eu vou procurar descrever o propósito que percebi em Choronzon, tentando assim definir sua função.

Choronzon, embora aparentasse “transpirar” ódio (pois frequentemente fixava-se no tema da morte nos contatos que tive), não chegou a causar dano algum a mim que eu não aprendesse a contornar a médio prazo. É preciso considerar que houve um período em que eu estava altamente sugestionável enquanto vivi esta experiência de contato e, se ele desejasse (ou pudesse?) realmente me levar à minha própria destruição, seria algo muito fácil de acontecer naquele período. Pode ser que a fonte de minha proteção tenha sido exclusivamente a experiência de contato com o Sagrado Anjo Guardião (veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), a qual poderia ter impedido a realização de certas possibilidades danosas. Eu não descarto esta explicação, porém eu também acredito que estas possibilidades igualmente podem ter sido evitadas pelo propósito de Choronzon não ser simplesmente odiar ou destruir.

Eu acredito que a repulsa que percebi naquele contato era reflexo do que meu próprio ego havia semeado durante toda a vida. O que eu percebia era minha própria expressão retornando a mim. Era uma expressão antiga (de anos passados), da qual eu já não me lembrava, mas era minha. Nesse caso o reflexo destrutivo que me encarava não tinha sido causado por Choronzon em si, e sim por mim. Isso me faz refletir sobre como o ódio (assim como seus nuances como, por exemplo, a antipatia e a aversão) pode se manifestar de uma forma sutil na vida de uma pessoa, evidenciando-se em alguns momentos, mas sempre presente como discriminação do que é diferente de si. Igualmente também penso naqueles momentos em que este sentimento explodiu (e às vezes continua explodindo). Que impressão tudo isso causou no meu inconsciente (que difere muito de meu ego e, portanto, foi negado por ele)? Ação leva à reação. Negação leva à negação como retorno.

Talvez a única responsabilidade que Choronzon teve naquele período foi a de obrigar-me a perceber meu próprio ego refletido, até que eu reconhecesse este reflexo, e só esse reconhecimento poderia amenizar o poder do ego sobre mim. Ou seja, ao reconhecer este aspecto de mim mesmo, eu me tornei capaz de isolar-me de parte da minha natureza destrutiva. Não fosse assim, eu manifestaria estes impulsos em relação ao que quer que fosse que encontrasse no inconsciente, e acabaria separando um lado do insconsciente que eu definiria como certo de outro lado que eu definiria como errado, em virtude de meus preconceitos. Choronzon, nesse caso, atuou como um guardião me impedindo de ter acesso ao que eu ainda não era digno de sequer começar a adentrar.

Hoje em dia não considero Choronzon como que sendo um ser malígno. Ele tem sua função e é necessário. O Sagrado Anjo Guardião, a princípio, me parecia ser o oposto de Choronzon, porém atualmente acredito que ambos são apenas manifestações diferentes de uma mesma essência. Se por um lado o Sagrado Anjo Guardião expande a essência de um círculo para além de seus limites, Choronzon, por sua vez, protege estes limites impedindo que sejam invadidos por quem lhes seja dissonante. Em poucas palavras: quem lhe estende a mão e quem lhe repele podem representar ações complementares de uma mesma essência.

Esta síntese de opostos é algo que só percebi anos depois desta experiência e, de certa forma, isso acabou criando uma dissonância entre mim e outras pessoas. O motivo desta dissonância é uma questão de crenças (e de valores, pois crenças são fundamentadas em valores). Ocorre que a maior parte das pessoas acredita que há duas polaridades distintas e incomunicáveis (que chamam de bem e mal), o que leva à crença em uma eterna disputa de facções. Para muitos, alguém se torna um adversário (alguém “do mal”) quando acredita que os “símbolos supremos” do bem e do mal (Deus e o Diabo, em linguagem popular) são apenas lados de um conflito, e que podem eventualmente dar-se as mãos em paz (ambos os extremos são visões parciais do todo). Ou seja: há a visão egóica (que acredita na destruição final de um lado do conflito, e que sempre é o lado em que não se está), enquanto a outra visão busca a harmonização. Mas isto eu ainda não percebia enquanto vivia este momento que estou relatando.

O contato com Choronzon revelou muito sobre mim, tanto para mim mesmo como para quem me observava (oculto no inconsciente). Nesse sentido, esta experiência também teve o significado de ser uma forma de expressão de mim mesmo, na qual eu me mostrei tal como de fato era, o que certamente serviria para orientar as interações que se seguiriam daí com o inconsciente. No próximo post vou começar a narrar o que aconteceu após esta revelação de mim mesmo.