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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A Sabedoria de Tears For Fears

Tears For Fears e sua sabedoria.

Minha interpretação de Everybody Wants to Rule The World. Uma reflexão sobre a vida e sobre as escolhas conscientes, semiconscientes, inconscientes.

Buscas, desafios, excitação, desilusão. Risco. Sem garantias, mas pelo menos a possibilidade. O começo da busca do transcendente.

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Everybody Wants To Rule The World
Todo Mundo Quer Governar o Mundo
Tears For Fears

Bem vindo à sua vida
Não há mais retorno
Mesmo enquanto dormimos
Vamos encontrar você

Não fuja de seu caminho. Você já está nele e não há para onde retornar. Você vai se revelar. Vamos encontrar você, mesmo inconscientes, vamos encontrar você.

Agindo da sua melhor forma
Dê as costas à Mãe Natureza
Todo mundo quer governar o mundo

Não há outro jeito de agir, senão do seu. Não é sábio sempre ceder, nem sempre buscar a harmonia. Dê as costas. Assuma sua diferença. Mude o mundo. Todo mundo quer mandar no mundo

É meu próprio projeto
É meu próprio remorso
Ajude-me a decidir
Ajude-me a fazer o máximo

Fundamente-se na sua visão. Sinta todo o impacto da culpa pelos seus erros. Procure ajuda para se decidir. Procure apoio. Procure quem pode lhe levar ao seu melhor.

De liberdade e de prazer
Nada nunca dura para sempre
Todo mundo quer governar o mundo

Ser livre é o que faz sentido. O prazer faz sentido, não a dor. Mas nada tem sentido para sempre. Ainda assim, mude o mundo. Todo mundo quer mandar no mundo.

Há uma sala em que a luz não vai lhe encontrar
Segurando nossas mãos juntas enquanto as paredes desabam
Quando o fizerem eu estarei bem atrás de você

Sua chance é imensa de chegar a um beco sem saída e todo seu sonho desabar, mas não importa, vamos estar juntos.

Tão felizes pelo que quase fizemos
Tão tristes que tiveram que desfalecê-lo
Todo mundo quer governar o mundo

Vamos nos orgulhar de onde chegamos. Vamos nos entristecer pelos que não entenderam e não nos permitiram. Todo mundo quer mudar o mundo, nós e eles.

Não suporto essa indecisão
Casado com a falta de visão
Todo mundo quer governar o mundo
Diga que nunca nunca nunca nunca vai precisar
Uma manchete, porque acredito ?
Todo mundo quer governar o mundo

O que fazer então? A visão é imperfeita, não consegue prever tudo. Todo mundo quer se impor. Por favor, você que está comigo, não mude... Porque acredito nos outros? No fim das contas, todo mundo quer mandar no mundo.

Tudo pela liberdade e pelo prazer
Nada nunca dura para sempre
Todo mundo quer governar o mundo

No fim das contas, só ser livre é que faz sentido. A dor não faz sentido algum, só o prazer. A verdade é que... todo mundo quer mandar no mundo.


sábado, 27 de julho de 2013

Primeiros Passos no Amor

Certa noite, durante uma viagem de ônibus de Curitiba para Londrina, eu conheci C. Nós nos encontramos absolutamente por acaso e conversamos a noite toda. Quando chegamos ao nosso destino, trocamos nossos telefones. Ela, da mesma forma que eu, ficaria apenas poucos dias ali. Eu estava surpreso pois todas as minhas inibições que me “impediam” de começar um relacionamento (veja o post Transformando a Vida Afetiva para saber mais sobre estas inibições) simplesmente desligaram-se naquela viagem. Eu apenas me expus da forma que realmente era e não houve rejeição alguma por parte dela. Nós nos encontramos e nos reconhecemos, mesmo considerando que jamais tivéssemos nos visto antes. Ocorreu assim uma troca simples e inquestionável de energia. Logo retornaríamos, porém cada um de nós embarcando em ônibus diferentes na volta. Mais alguns dias se passaram, combinamos de nos encontrar e, então, estávamos namorando.

Eu contei a ela que era a primeira vez que eu me relacionava com uma mulher. Eu queria impressioná-la da mesma forma que sentia que ela queria impressionar a mim. Eu não contei a ela sobre como havia me sentido culpado, durante boa parte de minha vida, em função de instintos eróticos que eu reprimia (também no meu post Transformando a Vida Afetiva). Contei sobre minha busca na magia mas evitei entrar em detalhes sobre as experiências que já havia vivido. Eu queria evitar o que poderia afastá-la, afinal era apenas o princípio. Não me parecia fazer sentido relacionar todos os meus “possíveis defeitos” naquele momento.

No entanto, o fato de eu omitir demonstrar aspectos da minha personalidade talvez tenha ajudado a princípio, mas a verdade é que não é possível simplesmente descartar (ou ignorar) algo de si. Não existe meio de jogar fora uma versão antiga de quem se era e substituir-se por um outro “Eu” (ideal?). Não é tão fácil excluir algo de si, uma vez que tenha sido colocado e enraizado em si próprio. O melhor a se fazer é acrescentar algo novo ao próprio jeito de ser, um terceiro elemento que diminua os conflitos interiores e que permita que a expressão total que abrange o ser humano seja cada vez mais harmoniosa e livre de culpas.

Em outras palavras, recorrendo ao exemplo do Médico e o Monstro (Dr Jekyll e Mr Hyde respectivamente): não se trata de isolar um lado e destruí-lo, e sim de somar ambos e criar um novo ser, onde as qualidades de um complementam os defeitos do outro. Escondendo o que havia dentro de mim, eu me mostrava como o bom médico Dr Jekyll e, por outro lado, ocultava Mr Hyde por não saber como poderia apresentá-lo à luz para que outros o pudessem conhecer.

Eu não tinha ainda maturidade para compreender estes conceitos. O que havia em mim (no que diz respeito ao amor, à sexualidade e ao erotismo) estava encontrando ressonâncias na realidade invisível da magia e estas ressonâncias haviam começado a se manifestar na realidade física (nos fatos concretos). O processo de cura (e este foi um processo de cura) implica na expressão de quem se é (não na ocultação), para só então se compreender esta expressão e refiná-la. Só que a maioria das pessoas começaram este tipo de experiências ainda jovens, enquanto eu estava começando aos 31 anos.

Ocultar um lado meu teve efeitos a longo prazo pois, embora eu tentasse dissimular, a magia teria sempre ação sobre todo meu ser e não apenas sobre parte de mim (isso ficou nítido em meu contato com o Sagrado Anjo Guardião, descrito no post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia). O que estava oculto eventualmente se desenvolveria e se manifestaria. Inevitavelmente o que se escondia se tornaria claro e viriam recriminações às quais eu teria de dar respostas. Se eu tivesse exposto tudo isso já no princípio, não haveria o impacto da quebra das ilusões. Por outro lado, se eu tivesse agido com absoluta franqueza, talvez nenhum relacionamento tivesse tido sequência dali.

Fico pensando nos inúmeros casais que começam da mesma forma, com segredos ocultos, e com uma esperança de que tudo dê certo apesar de haver tanto escondido. Na realidade a grande maioria dos casais se separa por causa destes segredos. No entanto eu e C permanecemos juntos até hoje por mais doloridos que tenham sido alguns momentos que experimentamos.

Aquela velha frase “... na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza” - o tempo passou e ela se mostrou mais verdadeira que tudo o mais. Cada um de nós sempre apoiou o outro quando havia questões de saúde, ou nos momentos de dificuldade financeira e em outros momentos difíceis. Da mesma forma sempre soubemos partilhar juntos os bons momentos. Sempre nos preocupamos um com o outro, mesmo quando nossos pontos de vista divergiam, mesmo quando nossas noções de certo e errado (envolvendo moral, ética e religião) divergiam, e frequentemente ainda divergem.

Sempre tivemos nossos atritos mas, nos momentos em que um ou outro precisava de apoio, o outro sempre estava disposto a dar tudo de si. O meu relacionamento com C é algo que ainda estamos dando forma, mas eu suspeito que não é apenas dessa vida que nos conhecemos. Quando nos vimos, pela primeira vez, foi um reencontro. Eu acredito que havíamos esperado a vida inteira para que nos encontrássemos, mas ainda não compreendi totalmente o significado que nós dois temos juntos. É algo que quero descobrir.

O próximo post irá tratar de mudanças profissionais que estavam acontecendo no mesmo período que estou narrando.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Transformando a Vida Afetiva

Ter um relacionamento afetivo com uma pessoa de outro sexo (ou mesmo com uma pessoa do mesmo sexo, dependendo da identidade sexual de cada um) é algo usualmente normal, que eventualmente acontece de forma espontânea para a maior parte das pessoas. No entanto, há quem seja retraído de tal forma que não consegue expor-se à uma outra pessoa, como que sempre temendo uma possível rejeição. São pessoas em que a natureza relacionada ao amor e à sexualidade é constantemente auto-reprimida.

No que diz respeito a mim, eu fui uma destas pessoas até meus 31 anos de idade. Eu jamais havia namorado até então, ou “ficado”, ou beijado uma mulher. Embora eu não tenha certeza de porquê me desenvolvi dessa forma, eu suspeito que tenha sido por minha falta de habilidades sociais na infância (associada ao fato de ter sofrido bullying) que acabou causando esta sensação de inadequação em mim. A insegurança me levou a algumas poucas tentativas mal-sucedidas de aproximação em relação às mulheres na adolescência, em que eu me senti rejeitado e cada vez mais insatisfeito no que dizia respeito ao amor.

Quanto maior era meu sentimento de inadequação, piores eram minhas tentativas de tentar me expressar neste sentido e piores eram os resultados de cada tentativa. Houve um tempo em que eu me sentia envergonhado apenas por estar ao lado de uma mulher (literalmente não sabia onde enfiar minha própria cabeça, feito um avestruz). Isto se suavizou quando eu comecei a trabalhar e tinha mais contato com mulheres (a partir de então eu já não era mais tão tímido), mas eu ainda não tinha uma vida amorosa. Na realidade eu me apaixonava constantemente, mas eram todas paixões impossíveis (projeções de minhas próprias fantasias a respeito do que eu considerava que deveria ser o amor). Eu havia me declarado uma vez, mas de uma forma tão abrupta que não tinha como ter sucesso.

Eu fingia não me importar com assuntos relacionados ao amor e ao sexo, mas o fato é que eu fantasiava muito sobre estes assuntos. Para tentar compensar a falta de tudo isso na minha vida, eu comprava material pornográfico e tentava suprir o que me faltava (com esse material). Eu tinha muita vergonha de mim mesmo, por sentir impulsos que considerava sujos. Às vezes minha mente se permitia preencher por estes impulsos, e às vezes eu os reprimia completamente. Eu me sentia como aquela estória do Médico e o Monstro, como se houvesse dois lados de mim que lutavam um contra o outro.

Durante muitos anos eu me condenei por considerar-me um pecador em virtude de pensamentos e atos escondidos que julgava pecaminosos. As pessoas que conviviam comigo conheciam apenas o lado que aparentava ser frio no que diz respeito ao amor e à atração sexual (eu temia ainda mais a rejeição das pessoas próximas). Alguém chegou até mesmo a me dizer que não se interessaria por mim porque eu era frio e distante (bom para lidar com computadores, mas não para lidar com pessoas).

Tudo isso deixou marcas muito profundas dentro de mim. Era uma fome que não se saciava. Eu não sabia como me adequar a modelo algum. Havia aqueles que pregavam relacionamentos dentro de um padrão “tradicional”, por assim dizer, fundamentado principalmente em um amor “puro”, com o sexo após o casamento. Também havia aqueles que se entregavam à luxúria. E havia quem estivesse em relacionamentos abertos, ou outros tipos de relacionamentos. Todas estas possibilidades me atraíam, como que minha própria natureza tentasse se expressar por qualquer porta que eventualmente se abrisse, mas eu não me encaixava nestas opções. Nada daquilo funcionava comigo.

Tudo isso havia surgido diante de mim na minha experiência com Choronzon (este link relaciona todos os posts relacionados ao mesmo, porém o post mais específico ao que me refiro aqui é este), embora eu tenha preferido mencionar estes fatos agora, ao invés de encaixá-los anteriormente. Ter vivido sob esta condição deixou marcas muito profundas dentro de mim, marcas com as quais hoje me relaciono melhor, mas que ainda são presentes. Eu precisava viver um processo de cura, e esse processo de cura se iniciou junto com o começo da exploração do inconsciente. A partir dali eu viria a namorar, casar, ter filhos, e alcançaria muitas outras realizações (eu vou falar sobre cada um destes momentos conforme vou contando minha própria história).

Porém, de forma alguma estas realizações representam algum tipo de troféu (como se nesse processo de cura eu tivesse sido invicto). Eu cometi muitos erros e tropeços, da mesma forma que também acertei em alguns pontos. Talvez, ao ler este post, as pessoas se perguntem: “Porque ele escreveu isso? Porque contou algo tão pessoal? Porque não começou a contar a partir do momento em que a vida começou a mudar?”

A resposta é que eu pretendo ajudar pessoas com meu blog. Eu sei que há outros que vivem tudo isso que eu passei, com mais ou com menos intensidade. Se eu mostrasse apenas as realizações positivas, eu não teria exemplo algum a oferecer para quem vive problemas. Afinal um exemplo já é de utilidade limitada (por se aplicar à vida de uma pessoa específica), mas se torna mais limitado ainda quando omite informações sobre erros e falhas. Eu posso dizer também que muitos já viveram as realizações no que diz respeito a namorar, formar uma família, ter filhos, e estas pessoas sabem que, embora sejam realizações, há diversos erros que se comete entre elas. Eu quero que estas pessoas também se identifiquem comigo e assim eu possa ajudá-las também.

É evidente que há muita informação pessoal que não pode ser dita (certos nomes, por exemplo), pois o sigilo nem sempre pertence apenas a nós, mas também a outros que fazem parte de nossas vidas. Por isso, em certas situações, eu vou mencionar apenas iniciais dos nomes de algumas pessoas e, às vezes, eu vou mencionar certos fatos apenas de forma abstrata. De vez em quando vou caminhar em uma corda bamba.

sábado, 2 de março de 2013

Quando a Evolução Leva à Desarmonia

Uma crença comum é que, uma vez que se esteja em um caminho evolutivo na magia, as relações com as pessoas em geral tendam a se harmonizar, com uma consequente redução de conflitos. No entanto, a busca pelo transcendente sempre é, em larga medida, solitária, uma vez que a grande maioria das pessoas permanece de forma estacionária, presa em questões cotidianas do mundo que percebe como concreto. Assim, desenvolver-se significa opor-se eventualmente.

Este é um dos motivos de não ser simples para um observador externo, mesmo sendo experiente na magia, avaliar corretamente a “eficiência” de outra pessoa (ou a correção de seus princípios) através de resultados ruins que sejam verificados. Os resultados ruins podem variar desde a falta de resultados (o que é comum em períodos em que o foco é a preparação interna) até resultados claramente contrários. Pode ser o caso de se estar iludido quanto às bases do que se está construindo, mas há também outra possibilidade. Ocorre que a melhor forma da magia se realizar é pelo caminho mais simples, de menor resistência, e esse caminho sempre passa pela transformação da consciência individual. Afinal não faz sentido ter atitudes e pensamentos contrários ao que se pretende realizar, sendo sempre necessário harmonizar a própria consciência.

É preciso que se perca ilusões sobre a aparente harmonia que existe com outras pessoas, uma vez que esta harmonia não se origina de naturezas que se complementam, e sim de naturezas que não se expressam. Então essa expressão deve ocorrer, surgindo conflitos, até que seja possível existir o discernimento entre as ressonâncias e as dissonâncias, e a consciência assim se amplie. É comum, então, perceber-se “isolado na multidão”. Este isolamento é uma sensação que periodicamente volta a ocorrer, e o aprendizado do propósito deste ciclo não é algo meramente teórico, envolvendo diversas experiências pessoais que frequentemente levam muito tempo e são difíceis, até que se adquira compreensão, e dessa forma, não se sinta tanto sofrimento com as dissonâncias que eventualmente ocorram, e sim se perceba que trata-se de uma dinâmica natural cujo fim é sempre levar ao aprendizado.

Enquanto o aprendizado não vem, sempre há uma possibilidade maior de erros. Um dos erros mais frequentes é a insistência em padrões antigos de decisão e de ação que aguçam ainda mais os conflitos, tornando-os mais danosos e, possivelmente, até mesmo irreversíveis. Se de fato o mago está criando uma sólida rede de ressonância, esta irá apoiá-lo e ajudá-lo a amenizar o impacto de suas falhas. Daí que, embora não seja possível avaliar com segurança alguém por seus erros de julgamento, é possível ter uma demonstração positiva da solidez do que foi construído pelo mago (em termos de ressonâncias internas) através da forma que supera os obstáculos, tornando-se melhor, e menos suscetível aos mesmos erros, à medida que o faz.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Lidando com Altos e Baixos na Vida

De vez em quando eu já ouvi alguém dizer “As coisas estão indo tão bem que eu até fico com medo de passar a fase boa e vir, então, uma fase ruim”. Será que isso é verdade, que depois de uma fase boa tem que vir uma ruim, e vice-versa? Será que a vida não poderia ser simplesmente constante?

Pode até parecer crendice, mas estas fases realmente acontecem com quase todos que nos relacionamos. O motivo é que temos nossas próprias naturezas e as pessoas que nos relacionamos também têm as delas e, como não há naturezas iguais (embora as pessoas insistam em se rotular), surgem duas situações quando pessoas interagem entre si: ressonância, quando um complementa o outro de uma forma positiva; e dissonância, quando uma natureza obstrui a outra.

Tudo seria fácil se simplesmente pudéssemos definir quem nos é ressonante e quem nos é dissonante. Apenas deixaríamos de lado aqueles que nos obstruem e nos aproximaríamos daqueles que nos complementam. Mas isso não é tão simples assim. No que diz respeito à grande maioria das pessoas com as quais lidamos no dia a dia, há aspectos ressonantes que nos ligam a elas, mas também há aspectos dissonantes que nos colocam em conflito, com as mesmas pessoas. Essa ambiguidade se manifesta ciclicamente, em certos momentos preponderando relações harmoniosas e, em outros, preponderando conflitos.

Pessoalmente eu não gosto deste tipo de ciclo. Digo isso porque, quando isso acontece, há momentos bons mas que sempre atingem um certo limite (não o excedendo), só para reverter na outra direção do ciclo, onde as coisas tendem a piorar. Uma saída óbvia é procurar outras pessoas para se relacionar mas isso nem sempre é ideal. Afinal as pessoas têm laços emotivos e eles não se quebram apenas porque tomamos uma decisão. Separar-se fisicamente, e manter-se ligado emocionalmente, é ser incompleto. É algo que acontece, mas fica uma pendência que não vai simplesmente desaparecer.

Deixar pessoas para trás, como uma forma padrão de desenvolver relacionamentos, não é uma boa ideia também por um outro motivo: é que nenhum relacionamento vai se aprofundar se você descarta-lo por causa dos altos e baixos. A saída seria enriquecer sua própria identidade, complementando sua natureza, e também a identidade da outra pessoa. E a forma de fazer isso é através da comunicação. Ao relacionar-se com alguém, ambos os lados eventualmente sentem satisfação e insatisfação, e estas sensações são a base do aprendizado. É claro que tudo fica mais fácil quando, além de aprenderem por si próprias, as pessoas mantêm o diálogo, compartilhando o que descobriram.

Essa afinação entre pessoas pode levar anos mas, de tempos em tempos, ela dá saltos e, quando este salto acontece, vale a pena todo o esforço. A partir daí, os altos e baixos até continuam, mas se resolvem mais rápido e você se sente melhor na maior parte do tempo. Por esta afinação de consciência ser uma alternativa tão melhor do que deixar pessoas para trás, vale a pena reconsiderar se você se distanciou de alguém.

Estou falando muito em relacionamentos, mas que tipo de relacionamentos? Eu me refiro a qualquer tipo de interação que persista entre duas ou mais pessoas. Seja na amizade, no trabalho, no amor, no que quer que seja. Quando você perceber este tipo de ciclo de satisfação e insatisfação em setores da sua vida, tente associar o ciclo às pessoas, mesmo que se trate de trabalho, ou de dinheiro. Então descubra que tipo de interações com as pessoas interferem de forma positiva, e que tipo de interações interferem de forma negativa, aprendendo assim sobre o aspecto humano que diz respeito ao que você está interagindo. Comunique-se então com as outros para harmonizar-se, e reduzir o impacto da variação entre altos e baixos. Vale ressaltar que a sinceridade deve pautar seus relacionamentos, uma vez que tudo que é sólido depende dessa qualidade.

Estes conceitos também se aplicam na magia, que diz respeito às relações com o invisível. Existem consciências relacionadas ao trabalho, ao dinheiro, ao amor e a muitos outros aspectos da vida e também, com estas consciências, muitas vezes ocorrem ciclos. Porém, antes de tentar transformar o mundo externo através da magia, transforme a si mesmo, harmonizando-se internamente. É impossível harmonizar-se com o mundo ao seu redor se a harmonia não estiver dentro de si. Portanto, na magia, busque primeiramente a harmonia interior, sempre. De forma secundária, você expande esta harmonia para o exterior.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Realizando-se Pela Magia Branca

Quando o público leigo fala sobre magia, invariavelmente surge a velha classificação, a qual separa a magia branca da magia negra. Na realidade, o público que não é leigo, e que já tem algum contato com o tema da magia, também muito frequentemente estipula a divisão entre os dois tipos essencialmente diferentes. Algumas pessoas, para deixar o tema ainda mais complexo, utilizam-se do termo “magia cinza” para se referir a um tipo que não tem um propósito de causar o mal mas que, por efeito colateral, pode causar o mal. E há também aqueles que definem a magia simplesmente como algo neutro, que não é intrinsecamente nem branco, nem negro, embora eu acredite que esta seja talvez uma forma de se evitar ter que lidar com as implicações desta questão.

Porém como poderíamos definir de uma forma mais precisa o que qualifica estes lados, branco e negro? A definição mais simples é que o lado branco faz o bem, e o lado negro faz o mal. Diz-se que o motor de toda magia é o desejo. E eu acredito que o seja de fato, pois é do desejo que vem a “força inicial”, ou a “energia”, de uma operação mágica. Deve ser por isso que geralmente a motivação (o desejo) para realizar algo para os outros, ao invés de si mesmo, é considerada como branca. Ao passo que o desejo de realizar algo para si, ao invés dos outros, é considerado por muitos como magia negra. Se acreditarmos que essa contradição é real (entre si mesmo e os outros), isso parece justificar conceitos de magia que não estão relacionados a benefícios pessoais, às vezes nem mesmo a resultados, limitando-se a uma pacificação interior com intuito de tornar-se mais harmonioso em si mesmo e em relação ao mundo.

Harmonizar-se é um objetivo belo, mas não é magia. Pessoalmente, eu considero a magia como a arte de tornar-se criador de sua própria vida, tanto internamente, como externamente (é claro que o caminho de um mago sempre começa pela via interna, o que é a criação da base sobre a qual todo seu trabalho criativo estará fundamentado). Porém, pensando assim, se é forçado a enfrentar este aparente paradoxo entre a realização de si mesmo e a realização dos outros. O mago então precisa resolver este conflito, ou contentar-se em ser um mago negro. A respeito da opção de ser um mago negro, pessoalmente eu não acredito que alguém seja realmente feliz optando por ela. Afinal todo ser humano tem sentimentos e, por mais que os neguemos, por mais que possamos querer deixá-los sedados, eventualmente nossa capacidade de adormecê-los se esgota e precisamos enfrentá-los, ouvindo aquilo que nos cobram.

A outra opção é ser um mago branco, sendo mago por tornar-se criador de sua própria vida, e sendo branco pela busca de fazer o bem. Mas como ser si mesmo, como expressar a si mesmo, realizando-se, sem ser egoísta? Uma ideia que me parece muito útil nesse sentido é separar dois conceitos: um é o desejo em si (do que se busca realizar), e o outro é o “como” se pretende realizar. Vou tomar um exemplo que parece ser egoísta: “tornar-se rico”. Certo, a riqueza parece ser um objetivo egocêntrico para muitos, afinal ser rico pode significar tirar esta mesma riqueza dos outros e concentrá-la em si. Mas, se pensarmos bem, há várias formas de riqueza lícita no mundo, nas quais nós oferecemos nosso dinheiro espontaneamente. Nós temos diversos nomes de empresas, como Disney, Coca-Cola, Google, Microsoft, Yahoo, Apple, e outros nomes associados à riqueza. Assim, tornar-se rico não é um objetivo egoísta quando se oferece algo especial, quando se tem um papel central.

O erro, portanto, não está no desejo em si, e sim em como se pretende realizar o desejo. Ter consciência da diferença entre “o que” realizar e “como” realizar é algo fundamental. Frequentemente desejamos alguma coisa e também queremos impor o “como” irá acontecer, quando a atitude correta é deixar livre a resposta do mundo que nos cerca. Nâo é a realizaçao rápida e frágil que se deve procurar, e sim a realização estruturada e forte. Frequentemente, quando queremos nos impor à força, podemos até conseguir um resultado rápido, mas será fora de contexto, sem raízes e com laços imaturos entre pessoas imaturas. Por outro lado, se permitirmos que o mundo aja de acordo com seu próprio ritmo e natureza, as ações serão graduais, muitas vezes pausadas, porém serão diversificadas (plurais), gerando contextos cada vez mais completos, com raízes cada vez mais sólidas, entre pessoas maduras unidas por laços também maduros.

Para um mago, este não é apenas um modo de agir externo, mas também interno no que diz respeito à realização da própria magia. No que se refere às ressonâncias internas do mago com a realidade invisível, estas também não surgem com a força. Estas relações internas precisam ser também cuidadosamente cultivadas.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Tornando-se Uma Resposta

Se você pudesse escolher entre oferecer uma pergunta ou uma resposta ao mundo, com qual das opções gostaria de contribuir? Muitos responderiam que preferem oferecer respostas às perguntas do mundo, e outros tantos responderiam que preferem oferecer perguntas pois há respostas demais e perguntas de menos. O que muito poucos perceberiam é que eles mesmos são as respostas para as próprias perguntas. O fato é que cada um de nós vê o mundo sob uma perspectiva única porque muitos aspectos da vida de cada pessoa são únicos.

E que aspectos são esses? O emprego ou o negócio que lhe serve de fonte de renda, por exemplo. Mas você pode estar desempregado, ou optar por não trabalhar seja porque decidiu cuidar de sua casa enquanto o cônjuje trabalha, ou porque optou por não trabalhar com remuneração porque é uma freira, ou um padre. Você pode estar com suas contas em dia, assim como pode estar endividado. Pode ser solteiro, pode estar casado, ou ter filhos. Pode ser uma mãe solteira. Pode ser um adolecente que ainda não teve seu primeiro relacionamento, pode ter se casado, pode estar vivendo uma crise, pode ser viúvo. Pode estar bem de saúde, ou não estar. Estes são alguns poucos aspectos superficiais e há certamente uma infinidade de outros que tornam a sua perspectiva única e que tornam a resposta que você precisa para sua vida extremamente específica.

Compreendendo a pergunta, você poderá começar a construir a resposta. Sim, construir a resposta, pois ela não está pronta (e provavelmente nunca vai estar completamente pronta), mas o eixo em que você deverá sustentá-la é o ponto em comum que existe em todos os elementos de sua pergunta, que é você mesmo. Afinal, se há alguém que é mais interessado na sua perspectiva, só pode ser você. Então faz sentido você considerar a si próprio como a pedra fundamental de sua própria solução. Com isso definido, sobra a você decidir entre buscar esta solução e ser si mesmo, indo adiante, signifique o quer que seja que isso possa significar, ou então você pode optar por negar-se.

A sociedade nos ensina a nos negarmos de uma forma tão continua, e às vezes até sutil, que começamos a fazê-lo sem percebermos. São sistemas de valores que nos são passados, sentimentos de culpa que nos são plantados, ideias sem qualquer coerência lógica que nos são instiladas porque alguém ou algo pretensamente superior as declarou (mas que nos causam medo), possibilidades de erro e fracasso que nos são apontadas, compensações materiais (em forma de dinheiro, por exemplo), compensações imateriais (um possível perdão por sermos diferentes, o alívio do sentimento de culpa, a chance de sairmos dessa para melhor quando chegar o fim do mundo), e outras formas de manipulação. Tudo isso desvia nossa atenção de nós mesmos, detonando respostas instintivas que nos colocam em um estado de torpor. A vida então parece sem sentido ou surge um vazio que não se consegue explicar.

Negar-se é permanecer nesse estado. É agir como se está acostumado. O preço é alto mas as pessoas geralmente não percebem que o estão pagando e esse é um dos motivos de o continuarem fazendo. Mas há outro motivo. O problema é que é difícil desligar-se de todo este comportamento instintivo. É difícil não se deixar manipular. Quando percebemos, já estamos de novo repetindo velhas respostas, velhos comportamentos que nos esgotam. Um bom jeito de começar a agir é prestar atenção justamente nesses momentos em que a energia se vai, analisar a forma que se agiu, procurando descobrir as reações automáticas, e propor-se a ter atitudes conscientes, ao invés de forma instintiva. Este processo de definição terá efeitos primeiro em suas crenças porque você perceberá que muitas das atitudes que você toma são fundamentadas na forma que você acredita que a realidade é. Gradualmente, conforme você mudar suas atitudes, você mudará também seus atos, pois eles apenas refletem as mesmas. E dos atos, você acabará mudando também suas realizações.

Porém um aviso: nada disso virá sem um preço, embora eu acredite que não custe mais do que o preço de não assumir as rédeas de sua própria vida. A diferença é que será um preço perceptível e consciente, ao invés do preço imperceptível e inconsciente ao que as pessoas em geral estão acostumadas. Ainda assim, sempre existirá algum significado, embora em alguns momentos possamos sentir dúvidas. E sempre existirá algo além do vazio, embora frequentemente haja ainda algum vazio a ser preenchido, e esse vazio a preencher pode ser grande em alguns momentos da vida.

O preço, no começo, é a sensação de indefinição, de não se saber mais com que rótulos se descrever. Conforme se começa a descartar os rótulos e desenvolver conceitos, as pessoas se acostumam à falta de rótulos e depois até estranham quando alguém lhes pergunta o que elas são, ou a qual grupo pertencem. Afinal este é um processo de busca de uma resposta única que não tem muito a ver com rótulos ou grupos. Na sequência, o preço vem de mudar as atitudes e atos. Mesmo insatisfeitos, nós todos desenvolvemos, com o desenrolar dos anos que vivemos, um contexto ao nosso redor. Mudar nossa forma de lidar com o mundo é desestabilizar esse contexto a princípio, até mesmo quebrando alguns laços mesmo sem intenção de fazê-lo (ou intencionalmente). Com os laços quebrados, há uma desorientação inicial, mas pagar este preço é fundamental para se criar novos laços.

Muitas vezes é necessário passar por esse processo novamente, em etapas diferentes da vida. Na primeira vez que isso acontece, a reestruturação de crenças é que parece mais difícil. Em outras vezes, podem ser os laços externos que configurem o que nos fragiliza mais. Os primeiros laços perdidos são os mais doloridos. E não sei se os laços quebrados podem ser restaurados com o passar do tempo, mas eu suspeito que sim porque estes laços normalmente estão associados a formas de amor (entender-se como todas as suas formas, seja fraternal, filial, amizade, romântico, etc) e enquanto houver amor dentro de si, não se é completo até realizar este amor, permanecendo este sentimento como parte da pergunta individual a ser respondida. Eu já vi laços se manterem firmes mesmo em momentos difíceis, e já pude ver laços se curarem de formas que não se poderia imaginar. Mas também já vi laços que jamais se curaram. Mas, é claro, quando não há amor, deixe os laços quebrados para trás.

Resta apenas salientar que se deve sempre procurar fortalecer-se interiormente, pois é o interior que lhe dará força para enfrentar os desafios exteriores. Com o passar do tempo, conforme novos laços surgirem, passa-se a contar com ressonâncias exteriores também, as quais lhe farão sentir-se mais seguro quando precisar viver este processo de novo. A transformação que você busca em sua vida precisa se desenvolver de dentro para fora e, se sentir que o risco é grande demais, aja com cautela.

O post O Prazer e a Dor pode lhe fornecer mais alguns insights na busca de definir-se. Caso deseje ler um pouco mais a respeito da opção de afirmar-se, ao invés de negar-se, o post Libertando a Si Mesmo, poderá lhe ajudar nesse sentido. O post Verdades Absolutas Que Não São Tão Absolutas Quanto Parecem Ser pode lhe dar alguns exemplos de verdades que fomos condicionados a aceitar como universais e que podem ser questionadas. Ainda para ajudá-lo a descondicionar-se, você pode ler o post Como Agir Diante do Bombardeio de respostas do Mundo.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Equilibrando-se Para Manter-se Constante

Muitos de nós, que buscamos seriamente nos desenvolver no ocultismo e na magia, nos dedicamos tanto a este objetivo que esquecemos daquilo que parece ser importante para as demais pessoas, aquilo que parece ser mais trivial: as relações familiares, as oportunidades profissionais, os momentos de lazer, enfim, as situações diversas do cotidiano de uma pessoa comum. Caímos muitas vezes no erro de acreditarmos que não somos pessoas comuns, que podemos nos fortalecer tendo como exemplo a imagem de um “super-homem”, extremamente forte, invulnerável, que até é capaz de misturar-se ao mundo, mas jamais comunga com o mundo, jamais se revela plenamente a ele, ocultando sempre sua identidade secreta.

A verdade é que, quando nos deixamos levar por esta atitude, não conseguimos mantê-la por muito tempo. Nada do que é permanente na natureza permanece em um estado só. Todo tipo de ação necessita de repouso, para que depois do repouso surja a ação de novo. A vida na Terra, por exemplo, vem se mantendo porque há um fenômeno denominado “morte” que faz com que a matéria que compõe os seres vivos se recicle. Se a morte jamais viesse, a matéria eventualmente se consumiria, e não haveria mais como se gerar novos seres vivos.

Houve um tempo, nos primórdios da vida neste nosso planeta, que a atmosfera era extremamente carregada de gás carbônico, de forma que os primeiros seres vivos que surgiram respiravam este gás e liberavam oxigênio. Se nada ocorresse, o gás carbônico seria totalmente consumido e a vida cessaria. Este era um perigo real para a vida. Porém a vida evoluiu e surgiram os seres capazes de respirar justamente o oxigênio, liberando então o gás carbônico, seres do qual nós fazemos parte. E assim, como se estabeleceu um ciclo, a vida prosseguiu constante. Um outro exemplo: até mesmo um fenômeno simples, como a chuva, faz parte de um ciclo, onde existe a chuva, propriamente dita, que alimenta os rios e as plantações e que umedece o nosso ar, regulando também a temperatura ambiental, e existe também a evaporação cujo efeito irá condensar novas nuvens, que permitirão novas chuvas, mantendo novamente a constância.

Só há dois tipos de fenômenos constantes na natureza: aqueles que são imutáveis, feito rochas, praticamente estéreis em suas relações; e aqueles que são cíclicos, que vivem transições de estados que, equilibradas, permitem existências perenes. Portanto, se desejamos permanecer firmes em nossos propósitos, precisamos ser capazes de abandoná-los eventualmente, recuperarmos nossas energias, e então nos concentrarmos de novo.

Mas nem sempre percebemos quando precisamos do repouso. Às vezes nos deixamos levar por rotinas, por um modo único de fazer as coisas, condições que impomos a nós mesmos. Acontece também de buscarmos implacavelmente resultados, a ponto de nos esgotarmos, e ainda assim prosseguimos tentando, como se não tentar fosse desistir. O resultado é que caímos enfraquecidos. Eu mesmo caio neste tipo de cilada mental com alguma frequência, mas então eu percebo o que está de fato acontecendo nestes momentos. E para intervir com eficiência, eu tomo algumas medidas aparentemente contraprodutivas: eu deixo um trabalho para outro dia, me dedicando a outra coisa, ou alongo um prazo pessoal de uma semana para duas, deixo de cumprir uma expectativa de alguém com relação à qual não estou conseguindo cumprir, etc. Tudo isso acaba contribuindo para que eu recupere minhas forças e me levante novamente.

A ideia central é o equilíbrio. Pense naquele equilibrista de pratos que mantém um monte de pratos girando. Ele gira um prato de cada vez. Ele não consegue girar todos os pratos de uma vez só. Então ele fica atento ao que está mais desequilibrado e dá um reforço para aquele prato, reforçando o giro, e assim mantém todos equilibrados. É exatamente assim que devemos procurar ser. Precisamos identificar o que está desequilibrando em nossas vidas, esquecer o resto e dar atenção àquele ponto específico. Quando quem amamos precisa de nossa presença e carinho, paramos e damos atenção e carinho. Quando as crianças precisam de nós, nos voltamos para as crianças. Quando o trabalho requer nossa atenção, focalizamos no trabalho. Quando nos cansamos, descansamos. Quando nos entendiamos, quebramos a rotina.

Então vem o medo: e se deixarmos algo desequilibrar por muito tempo, e aquilo cair e ruir. Daí vem uma segunda ideia, a de que não devemos agir sozinhos. Não devemos procurar controlar a realidade ao nosso redor em todos os detalhes diretamente. Não devemos supervisionar tudo o que acontece. Simplesmente não conseguimos fazer isso. No nosso relacionamento com o mundo, não é benéfico “pescar o peixe”, e sim ensinar a pescar. Assim, quando nos ausentarmos, alguém nos substitui. Da mesma forma, devemos aceitar o ritmo das pessoas ao nosso redor, principalmente quando precisam ausentar-se, ou quando não conseguem acompanhar o ritmo que desejamos manter. Agindo assim, seremos constantes em nossos ideais e, mais importante, quando não estivermos presentes, o mundo será capaz de mantê-los sem nós.

Estes são princípios que nem sempre conseguimos realizá-los, muitas vezes falhamos em um ou outro. Mas quando nos concentramos neles, tendemos a executá-los de forma cada vez mais perfeita. Basta usar os próprios recursos que se tem, entre eles a imaginação, a emoção, o desejo e a razão e, sendo tolerante consigo mesmo, tornando-se cada vez melhor.

domingo, 25 de novembro de 2012

Como Agir Diante do Bombardeio de Respostas no Mundo

Quantas vezes acontece de se apresentarem, diante de nós, respostas para a vida? E cada uma delas é apresentada como a única resposta certa, invalidando todas as outras. Depois de um tempo, quem nos deu a resposta muda de ideia, como se aquela ideia perfeita não mais valesse, e então nos oferece uma nova, perfeita de novo. Há tantos que se oferecem com respostas perfeitas que nem sabemos por onde começar.

Estamos recebendo um verdadeiro bombardeio de respostas, sem termos sequer formulado uma pergunta. Apenas aproximam-se de nós e dizem “Eu tenho a resposta para sua vida”, e então se dissermos “Você conhece a minha vida?”, simplesmente nos tratam como se não importassem nossas particularidades pois, quaisquer que elas sejam, estão presumindo que a resposta oferecida é perfeita. Caso realmente provemos que nossas particularidades não se ajustam à resposta (o que tornaria a resposta inadequada), nos é dito que não é a resposta que é inadequada, e sim nós que o somos. Nós que não pegamos o X da questão e, portanto, deveríamos ouvir mais e falar menos.

Entramos assim, sem querer, em um jogo de hierarquias onde existem aqueles que têm mais acesso à uma pressuposta verdade e que estão em uma posição natural de líderes, e também existem aqueles que apesar de indígnos de ter acesso a verdades tão maravilhosas, têm a oportunidade (a sorte) de ter a benevolência dos superiores, e que fariam muito bem se deixassem-se guiar submissos, ao invés de ficarem fazendo perguntas irrelevantes que só tiram as pessoas do propósito verdadeiro. É assim que as pessoas se deixam influenciar. É assim que pessoas conscientes se transformam em uma massa humana, muitas vezes sendo comparadas a um grande e imenso gado.

Particularmente, essa massa humana se forma principalmente em situações de opressão. Parece que quantos menos você tem, quanto mais difíceis as condições de realização no mundo, mais suscetíveis as pessoas são de pensarem de uma forma diferente. É nesse momento que as pessoas podem ser manipuladas a acreditarem em algo que, em outras condições, não acreditariam. Há um lado positivo nessa condição, quando chega a abrir nossas mentes e até mesmo nos conduz a uma autêntica experiência mística (veja o post A Bíblia e a Experiência Mística, que explora esta condição), a qual é uma experiência de contato consigo mesmo, encontrando, em si, o divino. Mas também há o lado negativo, que é sermos mais facilmente manipuláveis nestas condições. Como exemplo negativo está o nazismo, no qual o povo alemão deixou-se levar por uma ideologia de ódio e preconceito, justamente porque estavam desacreditados dentro de uma grave crise econômica.

As pessoas, quando tomam atitudes nessas condições, tendem a mudar suas crenças devido ao fenômeno da dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva, em linhas gerais, é nossa tendência a ajustarmos nossos valores e crenças quando fazemos algo que consideramos inaceitável, de forma que passamos a aprovar nossos próprios atos, os quais deixam de ser incompatíveis com nossa nova forma de pensar e acreditar. Quanto mais gritante for a incompatibilidade entre nossas atitudes quando comparadas às nossas crenças e valores, maior é a dissonância cognitiva, e maior o ajuste nestas mesmas crenças para que sejamos capazes de nos sentir melhor, sendo esta uma transformação muito mais profunda do que uma mera mudança de atitude.

Este fenômeno acontece, com grande frequência, no âmbito da religião. A religião, embora tenha uma conotação de religar-se ao divino (o post Quando Tudo é Divino: Um Universo sem Criador e sem Criatura explora esta conotação), não têm este sentido quando representada pela grande maioria das religiões que existem no mundo atual. Na verdade, nestas religiões costumam ocorrer grandes massas de pessoas submissas a hierarquias de controle, ao invés de haver pessoas verdadeiramente conscientes. Estas religiões se valem amplamente da dissonância cognitiva para plantarem dentro das pessoas os seus dogmas, de forma que as pessoas já não precisam mais ser controladas, pois controlam a si mesmas. Mesmo quando a sociedade não vive situações opressivas, as religiões também conseguem exercer influência sobre as pessoas pois, quando um indivíduo destoa da maioria, a ação desta maioria se torna opressiva por ser baseada em julgamentos de valores morais (ou seja: padrões de certo ou errado, pertinentes à cada crença). Como tratam-se de hierarquias de controle, com diversas ramificações, existem diferenças de status entre as pessoas, uma desigualdade entre os indivíduos e, embora haja um grande moralismo inerente à cada religião, pouco existe de ética, uma vez que a ética é fundamentada na igualdade.

As pessoas frequentemente se encontram dentro desse processo sem que o percebam. De fato, compreender esse processo ocorrendo é o passo inicial para nos descondicionarmos dele e começar a agir verdadeiramente com consciência na própria vida. É uma transformação que começa pela análise dos atos, e então das atitudes, e prosseguindo cada vez mais para dentro de cada um, até o questionamento das próprias crenças (o qual pode ser dolorido). Para fornececer alguns insights, há os posts Modelando as Próprias Crenças (o qual pretende ajudar a começar este questionamento), Libertando a Si Mesmo (que tem enfoque na liberdade de pensamento, intrínseca a todo ser humano) e Questionando a Definição de Deus, o qual procura quebrar algumas visões que são aceitas comumente, embora sejam incongruentes entre si e, mesmo assim, não são questionadas (este último post tem um enfoque proposital em quebrar crenças e pode causar uma certa desorientação a princípio).

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Como o Mundo Espiritual Percebe o Mundo Físico

Hoje eu gostaria de iniciar uma reflexão nova, cuja intenção é levar a outras em posts futuros. Talvez em sintonia com o Dia de Finados, eu quero começar a discutir a respeito da natureza dos espíritos. Há pessoas que acreditam que os espíritos podem caminhar entre nós, tal como nós caminhamos, ver a luz e as imagens tal como nós somos capazes de ver, ouvir sons como nós ouvimos e até mesmo sentir a brisa tal como sentimos, como se estivessem permanentemente entre nós, deslocando-se tridimensionalmente em nosso meio sem que os percebêssemos.

O problema desta visão é que, apesar de parecer simples, ela peca em diversos detalhes do que realmente significa ver, ouvir e tocar. No mundo físico, ver é interceptar a luz. Quando vemos algo, a luz é obstruída por nossos olhos, deixando de ser luz, e manifestando sombra (efeito da obstrução da luz). Quando ouvimos algo, só o fazemos porque nossos ouvidos interceptam as vibrações do ar, contendo o ar, e desfazendo o vento. Quando tocamos alguma coisa, existe uma resistência entre nós e aquilo que tocamos, manifestando-se pressão e atrito. Isso quer dizer que, se um espírito visse o mundo da mesma forma que nós vemos, se ele ouvisse da mesma forma que nós ouvimos, e se seu toque fosse da mesma forma que nós tocamos, seria totalmente cego (a luz o atravessaria, sem provocar sombra), surdo (não sendo capaz de conter o ar, não perceberia as ondas sonoras) e incapaz de tocar o mundo (não o poderia fazer atravessando objetos físicos, sem exercer pressão sobre eles).

No entanto, não quero dizer que os espíritos sejam, de fato, cegos, surdos e totalmente alienados do mundo. O que quero dizer é que esta visão sobre a natureza espiritual onde almas permanecem caminhando na Terra, como se tudo continuasse a ser como antes (exceto o fato de não serem percebidos tão facilmente pelos vivos e de poderem atravessar pessoas e objetos), é simples demais para ser real. É necessário que existam outros sentidos que substituam os sentidos físicos e, sendo estes sentidos de um outro tipo, também possuem  qualidades novas e limitações inerentes.

A base ondem se apoiam estes sentidos não-físicos foi explorada no meu post Quando Tudo é Divino: Um Universo sem Criador e sem Criatura. Ali eu coloquei um postulado em que a divindade e a criação não seriam seres separados, e sim um mesmo e único ser que, em um certo momento (que poderíamos considerar como sendo um começo, um princípio, ou mesmo o princípio de um ciclo), era apenas uma essência não-manifesta e que depois tornou-se manifesta: a divindade metamorfoseando-se na criação. A divindade e a criação como um único ser. Porém não estava implícita, naquele post, a relação do mesmo com a natureza dos espíritos.

Portanto, prosseguindo, em toda a existência está o divino. Dessa forma, seja na energia ou na matéria, em cada partícula, em cada átomo, em cada molécula, em cada célula, em cada ser multicelular, está o divino. Isso vale para a existência física, mas também vale para a existência espiritual. Desde já, perdôem-me o termo vago “existência espiritual”, que diz muito pouco sobre o que é a natureza não-física (ou o astral). Mas a proposta aqui é justamente começar a desvelar um pouco este mistério, ainda que muito incompletamente. Enfim, postulando que a divindade está em tudo o que há, seja físico ou espiritual, e também que o divino é consciente e comunicante, encontramos aí os atributos que unem o físico ao espiritual: em tudo há consciência e comunicação (atributos da divindade). A natureza física e espiritual se comunicam.

Estando a divindade em tudo, seus atributos também estão em tudo, incluindo a capacidade de ter consciência e de se comunicar. Seja na matéria, na energia ou no espírito, em qualquer nível (nos objetos, em um grão de areia, na água da chuva), aí está o divino, consciente e comunicante. O que ocorre é que estes atributos se desenvolvem de uma forma mais simples em um grão de areia do que em um ser humano, sendo mais claramente perceptíveis neste último. Ainda assim, estão presentes em tudo o que há.

Para um espírito ver, ele precisa se comunicar com uma consciência no mundo fisico que lhe dê visão. O mesmo se aplica a todos os outros sentidos. O espírito poderia tentar se comunicar com uma árvore para poder senti-la, ou com qualquer outra coisa, tal como um grão de areia, ou as gotas de água da chuva. Mas um espírito humano desencarnado normalmente não sabe se comunicar com uma árvore, ou com os grãos de areia, ou com as gotas de chuva. Portanto ele procura referências mais familiares, abordando outros seres humanos. O espírito então vê com os olhos de outras pessoas, toca com as mãos de outros, sente o paladar pelo paladar de outros, ouve pelos ouvidos de outros. Em muitos casos, o espírito é levado a este contato movido por seus próprios vicios, procurando estimular estes mesmos vícios naquele com quem entra em contato. Mesmo quando não é esta a intenção, podem ocorrer experiências e consequências que não são benígnas para quem é alvo desse contato.

Em teoria deve haver espíritos incapazes de se comunicar com outras pessoas, explorando alguma dificuldade para se comunicarem. Da mesma forma que devem existir espíritos capazes de se comunicar com consciências do meio físico (animais, vegetais e minerais). E, é óbvio, há espíritos não-humanos.

Tomando como pano de fundo esta comunicação, há muitas implicações que podem render muitos posts para refletirmos sobre diversos aspectos a respeito da natureza espiritual. Uma das consequências, por exemplo, é o fato dos espíritos normalmente conseguirem revelar às pessoas somente aquilo que a humanidade de alguma forma já sabe, de acordo com o nível da ciência atingido até então (pois, em geral, percebem o mundo a partir dos sentidos humanos). Os espíritos não trazem consigo revelações cientificas que ainda não tenham sido descobertas pela humanidade, embora em alguns casos consigam obter muita informação científica já conhecida (possivelmente respostas mais complexas e precisas são fornecidas por espíritos que se estruturam e se comunicam entre si, formando uma espécie de rede, ou um círculo). Allan Kardec mesmo, forneceu dados científicos que adequavam-se às observações da época, até então, mas que provaram-se incorretos conforme a ciência evoluiu. Isso foi usado como argumento contrário à mediunidade, porém eu dou-lhe um voto de confiança pelos motivos que descrevi.

Como minha proposta é de estimular a livre reflexão, cabe a cada um pensar nas implicações do que lhes descrevi aqui e também dos possíveis paradoxos que surgirem daí.

sábado, 27 de outubro de 2012

Uma Nova Forma de Buscar a Riqueza

No post anterior, eu coloquei alguns princípios sobre o uso benígno do dinheiro. Uma consequência de reformular o conceito do uso do dinheiro implica também em mudar como definimos a riqueza. Muitas pessoas pensam em riqueza como o extremo acúmulo do dinheiro e, na realidade, este acúmulo gigantesco não deveria existir, afinal o dinheiro deve fluir para cumprir seu papel, e não permanecer acumulado e estagnado. Como conciliar então a ideia da riqueza?

Há quem tenha, como maior sonho, o de se tornar rico. Não me refiro às pessoas que o tentam fazer de forma desonesta e sim às pessoas que se dedicam dia a dia a um negócio pensando nos lucros que podem ser gerados, nos prejuízos que os assombram, ou então nos esforços e sacrifícios que “devem” ser realizados para conseguir uma promoção, seja para ser o novo supervisor, ou o novo gerente, diretor, presidente. Estas pessoas acreditam que a riqueza seja possuir o dinheiro, e é aí que está o erro pois a riqueza está em usufruir, relacionar-se, explorar as possibilidades do mundo e de si mesmo, o que não tem nada a ver com possuir. O simples fato de possuir uma imensa quantidade de dinheiro sem utilizá-lo é um contrasenso pois, possuindo-o dessa forma, não se explora suas possibilidades.

A riqueza está, em primeiro lugar, dentro de si mesmo, na liberdade de ser e pensar, no bom funcionamento do próprio corpo, na expressão do corpo, percebendo seus limites, percebendo o prazer e a dor (eu exploro o tema das sensações no post O Prazer e a Dor). Sim, o prazer e a dor, porque são a base de nosso aprendizado e também é um tipo de riqueza a liberdade de errar, acertar e aprender.

A riqueza está também em se relacionar com as pessoas, ter amizades, revelar seus talentos (uma das formas de se realizar isso é o trabalho), deixar-se servir dos talentos de outras pessoas, ter uma companhia, ter filhos e conviver com os filhos, tornando-se sempre jovem interiormente por estar em contato com a juventude deles. A riqueza está em poder amar os filhos, sejam meninos ou meninas, de uma forma tão pura como jamais seria possível amar outra pessoa, nem mesmo a pessoa que se escolheu como companhia.

A riqueza está em viver cada etapa da vida, sendo plenamente criança, plenamente jovem, plenamente solteiro (ou solteira), plenamente casado (ou casada), ou então optar por outras possibilidades como o claustro religioso, por exemplo. A riqueza também está em ser plenamente idoso, pois ser idoso também é uma etapa da vida e ser verdadeiramente rico implica em viver todas as etapas, extraindo o máximo de experiência de todas elas.

A riqueza está também em ter a liberdade de tratar bem a quem se ama, ou a quem se se sente o legítimo impulso de caridade. A riqueza também está em encontrar conforto no mundo e nas pessoas, em se permitir receber carinho e ser cuidado. A riqueza também é material quando, nos sentindo como crianças, nos espantamos com uso da tecnologia. Em suma, a riqueza diz respeito a relacionar-se, a ser e expressar-se, a ser cada vez mais e a expandir essa expressão no mundo, como se fosse uma grande tela e nós fôssemos os artistas pintando esta tela.

A riqueza diz respeito inclusive ao dinheiro, quando nos relacionamos com ele e o permitimos fluir. Quando se descobre a verdadeira natureza da riqueza, se torna possível perceber que o dinheiro pode fazer parte dela, mas não é a maior parte, pois podemos acessar a riqueza do mundo quando enriquecemos quem somos, definindo nosso papel, e desenvolvemos nossa expressão no mundo. Dessa forma, o uso do dinheiro, em si, se torna menos necessário. Na realidade, assim é a riqueza vivenciada da forma correta. A forma incorreta seria o acúmulo desenfreado do dinheiro para se tentar obter um atalho, tentando evitar a forma natural de realizar-se no mundo.

domingo, 16 de setembro de 2012

Libertando a Si Mesmo

Se há um primeiro princípio, que considero básico, é o de que cada um deve ser livre para ser o que deseja ser. Isso mesmo, mas observe que, quando eu digo “ser” é um limite pessoal, afinal “Eu sou” não é o mesmo que “Eu tenho” ou “Eu faço”. É simplesmente “Eu sou”. É o domínio de si mesmo, das próprias ideias, desejos e sentimentos. Esse deveria ser um domínio inviolável, sobre o qual a coletividade não tem precedência pois o que uma pessoa pensa, ou deixa de pensar, diz respeito somente a si mesma. É claro que nas etapas iniciais da vida, enquanto somos crianças dependentes, é útil uma certa orientação na forma de se pensar, sendo esta válida quando se tem o objetivo de se estabelecer condições seguras enquanto se desenvolve a maturidade. No entanto, estas condições devem ser removidas gradualmente, para que se possa exercer cada vez mais autoridade e responsabilidade sobre a própria vida.

Para alguns, a definição de autoridade sobre a própria vida soa estranha. Estamos acostumados a sermos responsáveis porém, em diversas situações da vida, esta responsabilidade não é acompanhada de autoridade equivalente. Ou seja, precisamos responder pelos nossos atos mas não temos liberdade para decidir que atos são esses. A causa disso é que existem diferenças de status, alheias a nós, que com o tempo passamos a considerar quase como que naturais, mas não são naturais. É o poder, por exemplo, da religião quando impõe regras e não garante a satisfação das necessidades individuais. Mas, é claro, isso não diz respeito à religião apenas, mas a todo tipo de instituição que procura coibir a ação das pessoas sem procurar satisfazê-las verdadeiramente. E hoje em dia são muitas instituições que assumem esta postura. O problema é que toda essa ação institucionalizada percebeu que é mais fácil controlar a ação das pessoas quando as pessoas se deixam controlar não só nas suas atitudes, na sua forma de agir, mas também na sua forma de pensar. Assim, para muitos, as instituições são indiscutíveis, como que portando o direito divino e natural de serem o que são, tornando-se parte destes indivíduos, infiltrando-se dentro deles, tornando-se uma falsa imagem, o superego agredindo o ego, distorcendo-o, sem que este o perceba.

Não que o ego, essa nossa consciência em estado de vigília que nós temos, deveria ser muito importante em si. Há uma infinidade de respostas debaixo do limiar da consciência, além dos limites do ego. Mas o ser humano se torna mais fechado quando o ego bloqueia o inconsciente, e a forma mais comum de fazer isso é dando valor demais à algo que se considera verdadeiro, em detrimento de tudo o que mais que entra em conflito com essa pressuposta “verdade”. É uma forma das pessoas se tornarem estéreis, reduzindo cada vez mais suas possibilidades de realização, tornando-se insatisfeitas.

A insatisfação muitas vezes é acompanhada pela raiva. Quando contemplamos a raiva em nós mesmos, frequentemente a rejeitamos e também rejeitamos a nós mesmos por considerarmos esta reação instintiva como um sinal de imperfeição, de desequilíbrio. No entanto, o equilíbrio não é a ausência de opostos, e sim a harmonia entre opostos. O equilíbrio pressupõe em ser capaz de vivenciar plenamente toda a gama de capacidades humanas, de forma que estas se complementem. Nenhuma emoção ou atitude é completa em si mesma. É na pluralidade que a perfeição é possível. Entretanto a sociedade teima em valorizar algumas qualidades em detrimento de outras (que, muitas vezes, nem sequer considera como qualidades), tornando algumas virtuosas e outras tornando-as defeitos, ou vícios. Equilibrar-se não é se posicionar em um ou outro lado, e sim centrar-se. Esse “centrar-se” também não é viver o vazio de não viver coisa alguma, e sim explorar a riqueza de ser tudo aquilo que se pode ser.