Mostrando postagens com marcador . Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador . Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A Sabedoria de Tears For Fears

Tears For Fears e sua sabedoria.

Minha interpretação de Everybody Wants to Rule The World. Uma reflexão sobre a vida e sobre as escolhas conscientes, semiconscientes, inconscientes.

Buscas, desafios, excitação, desilusão. Risco. Sem garantias, mas pelo menos a possibilidade. O começo da busca do transcendente.

*********************

Everybody Wants To Rule The World
Todo Mundo Quer Governar o Mundo
Tears For Fears

Bem vindo à sua vida
Não há mais retorno
Mesmo enquanto dormimos
Vamos encontrar você

Não fuja de seu caminho. Você já está nele e não há para onde retornar. Você vai se revelar. Vamos encontrar você, mesmo inconscientes, vamos encontrar você.

Agindo da sua melhor forma
Dê as costas à Mãe Natureza
Todo mundo quer governar o mundo

Não há outro jeito de agir, senão do seu. Não é sábio sempre ceder, nem sempre buscar a harmonia. Dê as costas. Assuma sua diferença. Mude o mundo. Todo mundo quer mandar no mundo

É meu próprio projeto
É meu próprio remorso
Ajude-me a decidir
Ajude-me a fazer o máximo

Fundamente-se na sua visão. Sinta todo o impacto da culpa pelos seus erros. Procure ajuda para se decidir. Procure apoio. Procure quem pode lhe levar ao seu melhor.

De liberdade e de prazer
Nada nunca dura para sempre
Todo mundo quer governar o mundo

Ser livre é o que faz sentido. O prazer faz sentido, não a dor. Mas nada tem sentido para sempre. Ainda assim, mude o mundo. Todo mundo quer mandar no mundo.

Há uma sala em que a luz não vai lhe encontrar
Segurando nossas mãos juntas enquanto as paredes desabam
Quando o fizerem eu estarei bem atrás de você

Sua chance é imensa de chegar a um beco sem saída e todo seu sonho desabar, mas não importa, vamos estar juntos.

Tão felizes pelo que quase fizemos
Tão tristes que tiveram que desfalecê-lo
Todo mundo quer governar o mundo

Vamos nos orgulhar de onde chegamos. Vamos nos entristecer pelos que não entenderam e não nos permitiram. Todo mundo quer mudar o mundo, nós e eles.

Não suporto essa indecisão
Casado com a falta de visão
Todo mundo quer governar o mundo
Diga que nunca nunca nunca nunca vai precisar
Uma manchete, porque acredito ?
Todo mundo quer governar o mundo

O que fazer então? A visão é imperfeita, não consegue prever tudo. Todo mundo quer se impor. Por favor, você que está comigo, não mude... Porque acredito nos outros? No fim das contas, todo mundo quer mandar no mundo.

Tudo pela liberdade e pelo prazer
Nada nunca dura para sempre
Todo mundo quer governar o mundo

No fim das contas, só ser livre é que faz sentido. A dor não faz sentido algum, só o prazer. A verdade é que... todo mundo quer mandar no mundo.


sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda

As pessoas possuem os mais diversos critérios para definir o que consideram magia branca e magia negra. Muitos relacionam a via sinistra (a do caminho da mão esquerda) à magia negra, enquanto associam o caminho da mão direita à magia branca. Pessoalmente eu não concordo com este tipo de associação e quero acrescentar aqui minha definição pessoal sobre o que considero ser o real divisor de águas entre estes dois caminhos (da mão esquerda e da mão direita), o qual acredito que seja a experiência com Choronzon.

Alguns o consideram um demônio, enquanto outros acreditam que seja meramente uma espécie de dinâmica (um efeito sem personalidade). Na realidade eu já comentei muito sobre minhas próprias experiências com Choronzon em posts anteriores (veja O Início de uma Experiência Assustadora com meu Inconsciente, Um Tempo com Choronzon, A Lição que se Aprende com Choronzon e Entendendo o Papel de Choronzon), mas é óbvio que ainda não esgotei o que gostaria de comentar sobre este tema, como vou demonstrar agora.

Um certo tempo após o encontro com meu Santo Anjo Guardião (veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), eu tive uma experiência de confronto com este ser. O mais interessante nesta experiência é que eu pude ver refletido meu ego, com todas suas ilusões sedutoramente ampliadas. Ao perceber minhas ilusões, eu pude lidar com elas objetivamente pois estas haviam perdido grande parte do poder de manipular-me.

Percebi que o ego fazia-me negar infinitas possibilidades apenas para afirmar um “ideal” que não me satisfazia, que traduzia-se em crenças que me foram instiladas desde minha infância. Eu considerava-me inferior ao comparar-me com os padrões assumidos nestas crenças. Considerava-me fraco, incompleto, cheio de necessidades e com desejos questionáveis. Considerava-me um fracasso por não ser quem eu acreditava que deveria ser. O encontro com Choronzon me fez perceber a insanidade a que eu me impunha ao tentar medir-me por padrões praticamente inatingíveis.

Questionei então se era eu que de fato estava errado por causa de minhas necessidades (às quais eu tentava ignorar e jamais conseguia) ou se o erro estava em ter assumido um sistema de crenças e valores que não inventei, através de uma fé a qual eu não questionava. Foi aí que resolvi abrir-me para a amplitude que existe dentro do inconsciente. Há infinitas possibilidades ali. O que me assustou, a princípio, foi como esta diversidade mostrou-se escura, um tanto demoníaca. Afinal era assim que eu havia me acostumado a julgar esta diversidade, e é assim que o mundo também costuma julgá-la.

Nenhum ser dos que se consideram iluminados apresentou-se ali. Estes seguem regras estritas e possuem caminhos rígidos. Não estendem a mão para quem julgam não possuir o mérito de conhecê-los. Por outro lado, aqueles que se apresentavam receberam-me com cordialidade e passei a interagir com eles, principalmente nos sonhos. Foi assim que optei pela via sinistra, pelo caminho da mão esquerda, o mergulho dentro do inconsciente, e jamais me arrependi. Não encontrei ali o ódio, e sim o profundo amor pela diversidade.

Hoje em dia afirmo conscientemente que amo profundamente aquilo que muitos temem, não por vantagens que isso poderia trazer, pois estas vantagens são ilusórias. O mundo vem instilando há muito tempo o conceito de que a diversidade é malígna e que somente uma opção é benígna. Muitos acreditam nisso e, inspirados por má índole, buscam a via sinistra. São escolhas inconscientes que sempre levam à desilusão.

No meu caso, a escolha pareceu-me simples: era permanecer em um caminho cada vez mais estéril por isolar-se de tudo o mais (o que antes eu julgava ser o caminho certo), ou permitir que toda uma multiplicidade de influências viesse a mim. A opção lógica era abrir-me à diversidade. Eu desconhecia então os conceitos de caminho da mão esquerda (em que acontece a abertura ao inconsciente) e caminho da mão direita (que isola de si grande parte do inconsciente, negando-a). Para mim a escolha parecia ser óbvia. Levei algum tempo para compreender que o caminho que havia escolhido não era o mesmo trilhado por muitos outros.

Ultimamente eu tenho percebido que o caminho da mão esquerda está se tornando mais reconhecido pelas qualidades que tem, e não pelos desejos mesquinhos dos tolos. Isso é bom porque é um caminho para a vida, porque a vida é ampla e múltipla. Precisamos comungar com a vida e não subjugá-la.

sábado, 23 de março de 2013

Falando de Minha Própria Iniciação na Magia

Eu não sei até que ponto uma experiência pessoal pode servir como parâmetro para outra pessoa no que diz respeito ao momento de comunhão com o SAG (Sagrado Anjo Guardião), ou HGA (Holy Guardian Angel) ou KIA (na terminologia de Austin Osman Spare, quando introduziu a Magia do Caos). De qualquer forma, eu pretendo expor hoje minha própria experiência.


Meu primeiro motivo para fazê-lo agora é porque eu acredito que é o que vem melhor na sequencia após o post anterior (O Maior Círculo em que Alguém Pode se iniciar). Não que esta experiência seja uma meta final em si. Na realidade ela é justamente o oposto de uma meta final, pois trata-se da criação de um fundamento para tudo o mais, e tê-la é apenas a primeira realização concreta. No meu caso foi minha primeira operação mágica depois de aproximadamente três anos buscando que acontecesse. A data exata foi em 09/01/2001. E o segundo motivo é que futuramente eu prentendo me referir a este post para colocá-lo dentro de um outro contexto. A verdade é que eu só pude compreender o que havia vivido com o passar dos anos. Assim, eu pretendo introduzir este e outros temas de maneira gradual.


A maior dificuldade que eu sentia até aquela data era congruir a minha realização pessoal com a realização do universo ao meu redor. Não conseguia me convencer de que ambas eram compatíveis. Oscilava entre duas polaridades: egoísmo e altruísmo. Pior ainda, quando eu refletia sobre uma definição mais abrangente do que são os seres que existem (que são o divino se expressando, pois tudo é expressão divina), e considerava o mero fóton de luz, passando pelas partículas que formam o átomo, passando pelas moléculas, passando pelas células, passando por seres multicelulares. Seres, formados por seres, que devem igualmente se realizar, pois nenhum é maior que o outro. E a complexidade aumentava quando eu pensava nas complicações que as pessoas causam umas às outras. No meio de tudo isso, quando eu me focalizava em meus próprios objetivos, na minha própria realização que eu queria causar, eu me sentia como que buscando oprimir a realização de tudo o mais, sentia-me indígno. Sentia-me egoísta e tentava transcender este sentimento. Tentava encontrar algo que me congruiria e me harmonizaria, já cansado após anos de busca, mas não desistindo. Foi então que eu entendi que a resposta era pura e simplesmente a realização de tudo (eu, você, e tudo o mais, afinal somos parte de tudo), por mais que isso parecesse contraditório à minha compreensão: a realização até mesmo do que se opõe à própria divindade (os ateístas que tentam negá-la, por exemplo, ou então pessoas com conceitos contrários à essência da divindade). Ou seja, um profundo respeito a tudo. A aceitação de tudo. Essa era então a essência divina, da forma que eu percebia e, mesmo não sabendo como poderia ser possível que fosse real, eu a aceitei, sem compreendê-la, muito angustiado, e caí no sono.


Eu sonhei que um demônio me levava fraco, rendido, sobre suas costas. E eu simplesmente disse “Que eu me realize plenamente”. Só que este “eu” simbolizava muito mais do que um indivíduo à parte de tudo. O “eu” já não estava mais dissociado de tudo o mais. Essa era a essência que eu tinha aceitado. No sonho eu me explodi em pura luz enquanto estava deitado, rendido nas costas do demônio. E então, de repente, estava de pé, no meio do vazio, com tudo pronto para começar a construir. Nos dias que se seguiram, eu não sustentei aquela consciência que eu havia obtido naqueles minutos, mas bastou tê-la atingido para que eu alcançasse aquilo que vinha buscando. Quando eu acordei, eu sabia que tinha ocorrido.


Foi meu encontro com o SAG, ou HGA, ou KIA, conforme se queira dizer. Dá para perceber que não tem nada a ver com o que as pessoas pensam quando imaginam algo como um Sagrado Anjo Guardião. Cada um percebe de uma forma. E sempre tem alguma coisa muito pessoal e íntima, que não dá para colocar em um relato como este. Eu já ouvi o relato de uma pessoa que atingiu esta congruência de uma forma diferente. Por isso, esta experiência talvez valha como um exemplo, mas não como um modelo. A verdade é que, mesmo a essência, que eu percebi, da divindade é um ponto de vista pessoal, resultado de toda aquela congruência que eu vinha realizando em alguns anos e, certamente, ela é percebida de forma diferente por pessoas diferentes.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Tornando-se Uma Resposta

Se você pudesse escolher entre oferecer uma pergunta ou uma resposta ao mundo, com qual das opções gostaria de contribuir? Muitos responderiam que preferem oferecer respostas às perguntas do mundo, e outros tantos responderiam que preferem oferecer perguntas pois há respostas demais e perguntas de menos. O que muito poucos perceberiam é que eles mesmos são as respostas para as próprias perguntas. O fato é que cada um de nós vê o mundo sob uma perspectiva única porque muitos aspectos da vida de cada pessoa são únicos.

E que aspectos são esses? O emprego ou o negócio que lhe serve de fonte de renda, por exemplo. Mas você pode estar desempregado, ou optar por não trabalhar seja porque decidiu cuidar de sua casa enquanto o cônjuje trabalha, ou porque optou por não trabalhar com remuneração porque é uma freira, ou um padre. Você pode estar com suas contas em dia, assim como pode estar endividado. Pode ser solteiro, pode estar casado, ou ter filhos. Pode ser uma mãe solteira. Pode ser um adolecente que ainda não teve seu primeiro relacionamento, pode ter se casado, pode estar vivendo uma crise, pode ser viúvo. Pode estar bem de saúde, ou não estar. Estes são alguns poucos aspectos superficiais e há certamente uma infinidade de outros que tornam a sua perspectiva única e que tornam a resposta que você precisa para sua vida extremamente específica.

Compreendendo a pergunta, você poderá começar a construir a resposta. Sim, construir a resposta, pois ela não está pronta (e provavelmente nunca vai estar completamente pronta), mas o eixo em que você deverá sustentá-la é o ponto em comum que existe em todos os elementos de sua pergunta, que é você mesmo. Afinal, se há alguém que é mais interessado na sua perspectiva, só pode ser você. Então faz sentido você considerar a si próprio como a pedra fundamental de sua própria solução. Com isso definido, sobra a você decidir entre buscar esta solução e ser si mesmo, indo adiante, signifique o quer que seja que isso possa significar, ou então você pode optar por negar-se.

A sociedade nos ensina a nos negarmos de uma forma tão continua, e às vezes até sutil, que começamos a fazê-lo sem percebermos. São sistemas de valores que nos são passados, sentimentos de culpa que nos são plantados, ideias sem qualquer coerência lógica que nos são instiladas porque alguém ou algo pretensamente superior as declarou (mas que nos causam medo), possibilidades de erro e fracasso que nos são apontadas, compensações materiais (em forma de dinheiro, por exemplo), compensações imateriais (um possível perdão por sermos diferentes, o alívio do sentimento de culpa, a chance de sairmos dessa para melhor quando chegar o fim do mundo), e outras formas de manipulação. Tudo isso desvia nossa atenção de nós mesmos, detonando respostas instintivas que nos colocam em um estado de torpor. A vida então parece sem sentido ou surge um vazio que não se consegue explicar.

Negar-se é permanecer nesse estado. É agir como se está acostumado. O preço é alto mas as pessoas geralmente não percebem que o estão pagando e esse é um dos motivos de o continuarem fazendo. Mas há outro motivo. O problema é que é difícil desligar-se de todo este comportamento instintivo. É difícil não se deixar manipular. Quando percebemos, já estamos de novo repetindo velhas respostas, velhos comportamentos que nos esgotam. Um bom jeito de começar a agir é prestar atenção justamente nesses momentos em que a energia se vai, analisar a forma que se agiu, procurando descobrir as reações automáticas, e propor-se a ter atitudes conscientes, ao invés de forma instintiva. Este processo de definição terá efeitos primeiro em suas crenças porque você perceberá que muitas das atitudes que você toma são fundamentadas na forma que você acredita que a realidade é. Gradualmente, conforme você mudar suas atitudes, você mudará também seus atos, pois eles apenas refletem as mesmas. E dos atos, você acabará mudando também suas realizações.

Porém um aviso: nada disso virá sem um preço, embora eu acredite que não custe mais do que o preço de não assumir as rédeas de sua própria vida. A diferença é que será um preço perceptível e consciente, ao invés do preço imperceptível e inconsciente ao que as pessoas em geral estão acostumadas. Ainda assim, sempre existirá algum significado, embora em alguns momentos possamos sentir dúvidas. E sempre existirá algo além do vazio, embora frequentemente haja ainda algum vazio a ser preenchido, e esse vazio a preencher pode ser grande em alguns momentos da vida.

O preço, no começo, é a sensação de indefinição, de não se saber mais com que rótulos se descrever. Conforme se começa a descartar os rótulos e desenvolver conceitos, as pessoas se acostumam à falta de rótulos e depois até estranham quando alguém lhes pergunta o que elas são, ou a qual grupo pertencem. Afinal este é um processo de busca de uma resposta única que não tem muito a ver com rótulos ou grupos. Na sequência, o preço vem de mudar as atitudes e atos. Mesmo insatisfeitos, nós todos desenvolvemos, com o desenrolar dos anos que vivemos, um contexto ao nosso redor. Mudar nossa forma de lidar com o mundo é desestabilizar esse contexto a princípio, até mesmo quebrando alguns laços mesmo sem intenção de fazê-lo (ou intencionalmente). Com os laços quebrados, há uma desorientação inicial, mas pagar este preço é fundamental para se criar novos laços.

Muitas vezes é necessário passar por esse processo novamente, em etapas diferentes da vida. Na primeira vez que isso acontece, a reestruturação de crenças é que parece mais difícil. Em outras vezes, podem ser os laços externos que configurem o que nos fragiliza mais. Os primeiros laços perdidos são os mais doloridos. E não sei se os laços quebrados podem ser restaurados com o passar do tempo, mas eu suspeito que sim porque estes laços normalmente estão associados a formas de amor (entender-se como todas as suas formas, seja fraternal, filial, amizade, romântico, etc) e enquanto houver amor dentro de si, não se é completo até realizar este amor, permanecendo este sentimento como parte da pergunta individual a ser respondida. Eu já vi laços se manterem firmes mesmo em momentos difíceis, e já pude ver laços se curarem de formas que não se poderia imaginar. Mas também já vi laços que jamais se curaram. Mas, é claro, quando não há amor, deixe os laços quebrados para trás.

Resta apenas salientar que se deve sempre procurar fortalecer-se interiormente, pois é o interior que lhe dará força para enfrentar os desafios exteriores. Com o passar do tempo, conforme novos laços surgirem, passa-se a contar com ressonâncias exteriores também, as quais lhe farão sentir-se mais seguro quando precisar viver este processo de novo. A transformação que você busca em sua vida precisa se desenvolver de dentro para fora e, se sentir que o risco é grande demais, aja com cautela.

O post O Prazer e a Dor pode lhe fornecer mais alguns insights na busca de definir-se. Caso deseje ler um pouco mais a respeito da opção de afirmar-se, ao invés de negar-se, o post Libertando a Si Mesmo, poderá lhe ajudar nesse sentido. O post Verdades Absolutas Que Não São Tão Absolutas Quanto Parecem Ser pode lhe dar alguns exemplos de verdades que fomos condicionados a aceitar como universais e que podem ser questionadas. Ainda para ajudá-lo a descondicionar-se, você pode ler o post Como Agir Diante do Bombardeio de respostas do Mundo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Papel da Ciência

Nos últimos séculos o ramo do conhecimento que mais tem desafiado a magia, o esoterismo, e até mesmo a religião, é aquele que chamamos de ciência (ou melhor dizendo, as ciências exatas, entre elas sendo considerada a Física como o pivô desse desafio). Não que os cientistas sejam todos céticos. Não é esse o ponto. De fato é precisamente o oposto, para a ciência, não importa o que o cientista pensa, nem quais sejam suas posições pessoais, nem onde viveu, nem quando viveu (a ciência não é feita só de conhecimento novo). A ciência é um corpo de conhecimentos que se forma a partir de observações múltiplas, da coletividade dos cientistas, de onde surgem teorias que são postas à prova em experimentos, os quais nada mais são do que formas de se obter novas observações. É assim que funciona o método científico e é por isso que o que esse método descobre é tão eficaz: é um conhecimento verificado, que se torna a base da tecnologia e a tecnologia se mistura ao ser humano, modificando-o e modificando o mundo também, por extensão.

A ciência, por ser formada por um conhecimento verificado, e também por causa de todos os benefícios que ela tem trazido ao mundo do ponto de vista tecnológico, é, sem dúvida, imensamente sedutora. Quando se diz que algo é científico, o que quer que seja, passa a ser considerado como verdadeiro, ou pelo menos um candidato muito provável a ser verdade. Já quando se diz que algo não é científico, as pessoas tendem a acreditar que é falso. Mas isso não deveria ser assim, afinal, apenas porque algo ainda não foi verificado cientificamente, não quer dizer que seja falso. Ainda assim, torna-se cada vez mais difícil manter certas posições arraigadas quando a ciência insistentemente aponta para outra direção. Por exemplo, citemos o Gênesis bíblico, o qual muitas pessoas ainda acreditam ser uma descrição literal de como o mundo foi criado:

Deus disse: "Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas", e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao firmamento "céu". Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia. Deus disse: "Que as águas que estão sob o céu se reúnam numa só massa e que apareça o continente" e assim se fez.
(Gênesis 1; 6-9 - Bíblia de Jerusalém)

A despeito de todo conteúdo ocultista que haja no texto, está também revelado aí como pensavam as pessoas, sobre a criação do mundo, na época em que foi escrito, em que a ciência como a conhecemos era ainda primitiva. O que se destaca neste trecho específico diz respeito à água. A ideia é que havia água em toda a parte (a Bíblia não deixa claro como a água surgiu) e que foi feito um firmamento (algo firme, pensemos numa redoma como metáfora) que separou a água acima (formando o céu), da água abaixo (os mares), e depois da água surgiram os continentes. Afinal o céu é azul, não é? E chove também a partir dele. Isso tudo só pode indicar que é cheio de água. Ou pelo menos era o que parecia para as pessoas na época. Ainda sobre o firmamento:

Deus disse: "Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra" e assim se fez.
Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para  separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia.
(Gênesis 1; 14-19 - Bíblia de Jerusalém)

Os luzeiros, nessa explicação, foram colocados na redoma. O Sol e a Lua se movendo nela, e as estrelas afixadas. As pessoas sequer imaginavam que o universo estava (e está) em expansão, de forma que as estrelas não tem posições fixas. Na realidade, essa forma de pensar, de um universo eternamente estacionário, continuou até o começo do século XX, até que observações mostraram o contrário.

Eu gosto desta visão de Stephen Hawking, um físico notório da atualidade, em seu livro O Universo Numa Casca de Noz:

Uma teoria científica segura, seja do tempo ou de qualquer outro conceito, deve, na minha opinião, ser baseada na mais viável filosofia da ciência: a abordagem positivista formulada por Karl Popper e outros. Segundo essa maneira de pensar, uma teoria científica é um modelo matemático que descreve e codifica as observações que fazemos. Uma boa teoria descreverá uma vasta série de fenômenos com base em uns poucos postulados simples e fará previsões claras que podem ser testadas. Se as previsões concordam com as observações, a teoria sobrevive àquele teste, embora nunca se possa provar que esteja correta. Por outro lado, se as observações discordam das previsões, é preciso descartar ou modificar a teoria. (Pelo menos, é isso que deveria acontecer. Na prática, as pessoas muitas vezes questionam a exatidão das observações, a confiabilidade e o caráter moral de seus realizadores).

Esta citação resume a essência da ciência e também o seu valor. Essa essência, por mais que nos incomode, não deve ser mudada. É ela que nos garante o eterno questionamento que nos aponta a nossa própria cegueira. É claro que o conhecimento científico é apenas uma pequena parte da Verdade. Há muito que ainda precisa ser verificado para se tornar verdade científica. Muitos de nós gostaríamos que o que pensamos fosse tornado parte desse corpo de conhecimento sem mudanças, e essa é uma aposta ainda mais cega quando não questionamos as raízes do que sabemos, confiando, sem questionar, em dogmas que não criamos. Para nosso alívio, não podemos nos esquecer que a ausência de evidências não é a mesma coisa que a evidência da ausência, o que significa que não precisamos procurar justificar nossa forma de pensar e ser, com base exclusiva no que postula a ciência. Na realidade há duas falhas que devemos evitar: a primeira é ignorar a ciência; a segunda é endeusá-la. Precisamos aceitar que a ciência de um lado, e a magia, o esoterismo e o ocultismo de outro, têm naturezas diferentes, porém complementares e que irão interagir, transformando-se. O fato é que o conhecimento da verdade absoluta não está em lugar algum. Deixo aqui um comentário de Carl Sagan (09/11/1934-20/12/1996), astrônomo e astrofísico renomado por divulgar a ciência ao público leigo, a respeito de uma conversa que teve com Dalai Lama (o livro de que foi retirada a citação, apesar do título, não se trata de demonologia e sim da relação da ciência com demais campos de conhecimento):

Quando discuto teologia com líderes religiosos, pergunto freqüentemente qual seria a sua reação se um dogma central de seu credo fosse refutado pela ciência. Quando fiz essa pergunta ao atual dalai-lama, o 14.º, ele me deu sem hesitar uma resposta que nenhum líder religioso conservador ou fundamentalista daria: nesse caso, disse ele, o budismo tibetano teria de mudar.
- Ainda que fosse um dogma realmente central - perguntei - como a reencarnação?
- Ainda assim - ele respondeu. Entretanto - acrescentou com uma piscadela - vai ser difícil refutar a reencarnação.
Sem dúvida, o dalai-lama tem razão. A doutrina religiosa imune à refutação tem poucos motivos para se preocupar com o progresso da ciência.
A idéia grandiosa, comum a muitos credos, de um Criador do Universo é uma dessas doutrinas - é igualmente difícil prová-la ou refutá-la.
(“O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan)

domingo, 25 de novembro de 2012

Como Agir Diante do Bombardeio de Respostas no Mundo

Quantas vezes acontece de se apresentarem, diante de nós, respostas para a vida? E cada uma delas é apresentada como a única resposta certa, invalidando todas as outras. Depois de um tempo, quem nos deu a resposta muda de ideia, como se aquela ideia perfeita não mais valesse, e então nos oferece uma nova, perfeita de novo. Há tantos que se oferecem com respostas perfeitas que nem sabemos por onde começar.

Estamos recebendo um verdadeiro bombardeio de respostas, sem termos sequer formulado uma pergunta. Apenas aproximam-se de nós e dizem “Eu tenho a resposta para sua vida”, e então se dissermos “Você conhece a minha vida?”, simplesmente nos tratam como se não importassem nossas particularidades pois, quaisquer que elas sejam, estão presumindo que a resposta oferecida é perfeita. Caso realmente provemos que nossas particularidades não se ajustam à resposta (o que tornaria a resposta inadequada), nos é dito que não é a resposta que é inadequada, e sim nós que o somos. Nós que não pegamos o X da questão e, portanto, deveríamos ouvir mais e falar menos.

Entramos assim, sem querer, em um jogo de hierarquias onde existem aqueles que têm mais acesso à uma pressuposta verdade e que estão em uma posição natural de líderes, e também existem aqueles que apesar de indígnos de ter acesso a verdades tão maravilhosas, têm a oportunidade (a sorte) de ter a benevolência dos superiores, e que fariam muito bem se deixassem-se guiar submissos, ao invés de ficarem fazendo perguntas irrelevantes que só tiram as pessoas do propósito verdadeiro. É assim que as pessoas se deixam influenciar. É assim que pessoas conscientes se transformam em uma massa humana, muitas vezes sendo comparadas a um grande e imenso gado.

Particularmente, essa massa humana se forma principalmente em situações de opressão. Parece que quantos menos você tem, quanto mais difíceis as condições de realização no mundo, mais suscetíveis as pessoas são de pensarem de uma forma diferente. É nesse momento que as pessoas podem ser manipuladas a acreditarem em algo que, em outras condições, não acreditariam. Há um lado positivo nessa condição, quando chega a abrir nossas mentes e até mesmo nos conduz a uma autêntica experiência mística (veja o post A Bíblia e a Experiência Mística, que explora esta condição), a qual é uma experiência de contato consigo mesmo, encontrando, em si, o divino. Mas também há o lado negativo, que é sermos mais facilmente manipuláveis nestas condições. Como exemplo negativo está o nazismo, no qual o povo alemão deixou-se levar por uma ideologia de ódio e preconceito, justamente porque estavam desacreditados dentro de uma grave crise econômica.

As pessoas, quando tomam atitudes nessas condições, tendem a mudar suas crenças devido ao fenômeno da dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva, em linhas gerais, é nossa tendência a ajustarmos nossos valores e crenças quando fazemos algo que consideramos inaceitável, de forma que passamos a aprovar nossos próprios atos, os quais deixam de ser incompatíveis com nossa nova forma de pensar e acreditar. Quanto mais gritante for a incompatibilidade entre nossas atitudes quando comparadas às nossas crenças e valores, maior é a dissonância cognitiva, e maior o ajuste nestas mesmas crenças para que sejamos capazes de nos sentir melhor, sendo esta uma transformação muito mais profunda do que uma mera mudança de atitude.

Este fenômeno acontece, com grande frequência, no âmbito da religião. A religião, embora tenha uma conotação de religar-se ao divino (o post Quando Tudo é Divino: Um Universo sem Criador e sem Criatura explora esta conotação), não têm este sentido quando representada pela grande maioria das religiões que existem no mundo atual. Na verdade, nestas religiões costumam ocorrer grandes massas de pessoas submissas a hierarquias de controle, ao invés de haver pessoas verdadeiramente conscientes. Estas religiões se valem amplamente da dissonância cognitiva para plantarem dentro das pessoas os seus dogmas, de forma que as pessoas já não precisam mais ser controladas, pois controlam a si mesmas. Mesmo quando a sociedade não vive situações opressivas, as religiões também conseguem exercer influência sobre as pessoas pois, quando um indivíduo destoa da maioria, a ação desta maioria se torna opressiva por ser baseada em julgamentos de valores morais (ou seja: padrões de certo ou errado, pertinentes à cada crença). Como tratam-se de hierarquias de controle, com diversas ramificações, existem diferenças de status entre as pessoas, uma desigualdade entre os indivíduos e, embora haja um grande moralismo inerente à cada religião, pouco existe de ética, uma vez que a ética é fundamentada na igualdade.

As pessoas frequentemente se encontram dentro desse processo sem que o percebam. De fato, compreender esse processo ocorrendo é o passo inicial para nos descondicionarmos dele e começar a agir verdadeiramente com consciência na própria vida. É uma transformação que começa pela análise dos atos, e então das atitudes, e prosseguindo cada vez mais para dentro de cada um, até o questionamento das próprias crenças (o qual pode ser dolorido). Para fornececer alguns insights, há os posts Modelando as Próprias Crenças (o qual pretende ajudar a começar este questionamento), Libertando a Si Mesmo (que tem enfoque na liberdade de pensamento, intrínseca a todo ser humano) e Questionando a Definição de Deus, o qual procura quebrar algumas visões que são aceitas comumente, embora sejam incongruentes entre si e, mesmo assim, não são questionadas (este último post tem um enfoque proposital em quebrar crenças e pode causar uma certa desorientação a princípio).

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Uniões Baseadas em Troca X Uniões Baseadas em Ideais

Há dois tipos de uniões. Uma é a união por motivo de interesse, onde existe a troca de uma coisa por outra. E a outra é a união com base em um ideal comum, ou no prazer comum de estar junto ou de sentir-se como que pertencendo a algo.

No tipo em que impera a troca, a união cessa quando um lado não tem mais o que oferecer, ou seja, quando acaba a "moeda de troca". Essa "moeda de troca" pode ser o dinheiro, mas também pode estar representada por meios mais sutis como, por exemplo, a subserviência, como impera na magia negra quando alguns buscam servir a algo ou alguém que consideram mais forte e poderoso, na esperança que ganhem algumas migalhas e tenham mais "sorte" do que outras pessoas que aparentemente seguem pela senda mais difícil.

Mas este tipo de subserviência não se limita à magia negra exclusivamente pois, na realidade, também pode ser motivada pela inconsciência. É a inconsciência que leva uma pessoa a adotar falsamente uma "postura cristã" (embora não se possa generalizar todos os cristãos) em que afirma amar e adorar Jesus, uma vez que após a morte é essa adoração que lhe garantirá a vida eterna no paraíso, ao invés da danação eterna. Mas acontece que esta pessoa pouco conhece a respeito de quem é Jesus para que possa realmente amá-lo. Mas isso não importa, pois o que precisa ser feito é evitar a danação eterna... Interessante como muitas religiões tiram proveito disso, aproveitando o fato de que as pessoas não são perfeitas quando comparadas a um Jesus mítico (que não é a mesma coisa que o Jesus histórico), e fazendo-as sentirem-se constantemente em débito e, muitas vezes, a forma simples de saldar esse débito é com dinheiro (relação de troca).

Percebe-se que não são questionamentos puramente imorais, nem tampouco puramente morais, que estão envolvidos nas uniões baseadas em troca, pois a troca pode ser tanto movida por um impulso moral (no caso do cristão, por exemplo) ou imoral (no caso da magia negra, por exemplo). O que de fato caracteriza a união baseada na troca é que ela não é sustentada pelo que uma pessoa é, mas pelo que ela tem, ou pela vantagem que ela pode oferecer, normalmente de forma imediata.

Já na união por um ideal, não importa aquilo que você possui, nem aquilo que você pode oferecer no momento, mas aquilo que você ama. Na sua forma mais comum, é o que une as pessoas quando se amam (seja um casal, sejam pais e filhos, etc), e é também o que une as pessoas em uma causa comum (proteger a natureza, combater a miséria, etc). Na magia existem uniões entre o mago e o que está em ressonância a ele. Quando estas uniões se estabelecem por ideais comuns, o que quer que seja feito no mundo para outras pessoas, deve ser feito de graça ou pelo mínimo custo. Pois não é lícito pagar por algo que é a manifestação de um dom gratuíto. É evidente que as pessoas têm despesas, principalmente quando se dedicam desinteressadamente a um propósito e, nesse caso, não se deve confundir o conceito de “pagar por algo” como se fosse a mesma coisa que “ajudar nas despesas”.

No entanto, no esoterismo e ocultismo, há quem exija pagamentos realmente extorsivos, muito além do que se poderia chamar de razoável. Pode-se argumentar que cobra-se por algo porque se está sempre disponível e dedicado mas, se estar disponível e dedicado é o "preço" para se ter um dom, então existe um sistema de troca onde o “dom” só é dado se abrir-se mão de outros aspectos na vida. Aí nâo se trata de uma união por ideais. Enfim, este é um tema delicado.

Nas uniões verdadeiramente baseadas em ideais comuns, as pessoas não são coagidas a agirem de uma forma ou outra, e não perdem a união só por passarem um tempo lidando com suas próprias vidas. São verdadeiramente livres. Dessa forma, as uniões por ideais são éticas no sentido que todos vivem por um princípio de igualdade. Existem funções diferentes entre aqueles que estão unidos, mas não diferenças de status.

Em ambos os tipos de uniões (por troca ou ideais), os objetivos das mesmas são os mais diversos. E quanto ao número dos que participam nelas, também há uma grande variedade. Certos objetivos conquistam mais pessoas, quando estão à favor da cultura dominante, e outros objetivos tendem a criar círculos mais fechados e ocultos, quando vão contra a cultura dominante. O que não quer dizer que os círculos mais abertos sejam melhores (nem piores). Há muito preconceito cultural e este é um dos motivos do termo "ocultismo" ter justamente esse nome. Seria maravilhoso se todas as uniões fossem baseadas em ideais, não em troca. Porém é necessário reconhecer que há uma ampla diversidade de pessoas no mundo, com uma gama diversa de valores, e dependemos direta ou indiretamente do mundo inteiro. Assim não podemos esperar que todas nossas uniões sejam criadas apenas com base em ideais comuns. Seria utópico, pois não teríamos acesso à grande parte da riqueza do mundo. Não há problema real em obtermos dinheiro por nosso próprio esforço, quando representamos valor para o mundo, oferecendo esse valor e acrescentando algo nosso. E podemos acrescentar muito de nosso trabalho ao esoterismo e ao ocultismo, se tivermos esta vocação, e sermos recompensados por isso. Porém, as nossas uniões essenciais (as mais importantes), que são as espirituais e as relacionadas aos nossos laços sentimentais (inclusive os laços de amizade), são mais sólidas se forem uniões por ideais pois, caso não o sejam, se quebrarão quando se consumirem nossas "moedas de troca".

De fato, quanto mais amplas forem nossas uniões por ideais, mais sólida será a vida em si pois tais uniões nos fortalecerão em situações de crise. Na magia, criar uma rede de ressonância ampla e una a a si mesmo, baseada em ideais, é um dos maiores objetivos. Conforme esta rede se amplia, as uniões baseadas em troca tornam-se cada vez mais secundárias e passamos a depender cada vez menos delas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Questionando a Definição de Deus

Hoje eu gostaria de fazer uma reflexão sobre a imagem que nós temos da divindade. Muitas pessoas, quando pensam no divino, trazem à mente aquela visão do Deus criador de todas as coisas, que fez a criação distinta de si, existindo, portanto, criador e criatura. É um Deus considerado omni-presente, omni-potente e omni-ciente. Omni significa “em todo lugar”. Então omni-presente o torna presente em todo lugar, omni-potente o torna potente em todo lugar, e omni-ciente o torna ciente de todo lugar. Assim definido, Deus é considerado a pura imagem da perfeição. É o criador perfeito. Já a criação, foi feita perfeita, mas se tornou imperfeita por causa do livre-arbítrio.

Porém, se pensarmos bem, há certos pontos que não se encaixam na visão comum sobre a divindade. Por exemplo, o criador perfeito faz a criatura, e a criatura falha. Isso é uma contradição. Imagine, por exemplo, a lógica do relojoeiro: o relojoeiro é o melhor relojoeiro e seus relógios não falham nunca. Nunca precisam de conserto. É por isso que ele é perfeito. Mas se os relógios do relojoeiro falhassem, isso indicaria que o relojoeiro não é tão bom assim. Nesse caso, ou o relojoeiro é perfeito e seus relógios são perfeitos, ou o relojoeiro não é perfeito e seus relógios também não o são. Ainda assim, esta é uma dedução simplória.

Existe o argumento de que a criação tem livre-arbítrio e que se desenvolve por suas próprias decisões. Nesse caso, algumas pessoas serão sempre más e irão para o inferno, algumas outras vão purgar até ficarem limpas, e outras terão, como destino, o paraíso. Isso parece lógico, mas ainda não é. Uma metáfora para explicar o porquê do livre-arbítrio (e do destino individual para o inferno, purgatório ou paraíso) não ser algo lógico é a descrição do próprio processo criativo. Quando você cria alguma coisa, se você já sabe exatamente aquilo que você vai criar, você já o faz perfeito na primeira vez. Estava inteiro na sua mente, e você o fez como o imaginava, e esse seria o caso de um Deus capaz de saber o futuro e todas as coisas, antevendo cada possibilidade antes mesmo de acontecer. Nesse caso, ele faria tudo perfeito, em um único instante, sem a necessidade de um processo evolutivo doloroso que destina algumas almas para um inferno eterno, outras para uma área de provação e purificação, e outra para os já puros.

Um Deus potente em todos os lugares, já criaria tudo perfeito e nada lhe escaparia da consciência, não deixando escapar nenhum detalhe, por ser omni-ciente. Ele o faria de uma forma que não houvesse a memória de um tempo árduo e difícil. Se o processo evolutivo não se justifica nesta visão, ainda menos justificável é a ideia da existência do Mal. Afinal, se antes havia apenas Deus, e se Deus era capaz de prever tudo, porque teria sido criado o Mal? Uma possível resposta seria porque assim o ser humano poderia optar entre o Bem e o Mal, em um processo evolutivo.

Um processo evolutivo não faz sentido pelas razões expostas. Mesmo procurando referências bíblicas (que costumam ser associadas mais comumente, pelas pessoas em geral, à concepção de Deus) a resposta de que o Mal existiria para que o ser humano soubesse distinguir entre o bem e o mal não parece ter justificativa:

Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar. E Iahweh Deus deu ao homem este mandamento: "Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer.
Bíblia de Jerusalém (Gênesis, 2, 15-17).

Portanto, na própria Bíblia, não se justifica o argumento de que o Mal existe com a finalidade de que se possa discerni-lo (pois, de acordo com o texto, houve uma proibição expressa de que o homem comesse do fruto do conhecimento do bem e do mal). Então, porque teria sido criado o Mal?

Talvez a resposta mais simples para que seja tão difícil elucidar estas questões é porque nossos conceitos sobre a divindade estão incorretos. Estes questionamentos que foram expostos revelam a fragilidade de ideias que nos foram passadas, e às diversas gerações antes de nós. São conceitos que parecem verdadeiros mas não são. Quando nós percebemos essa fragilidade, isso nos lembra um pouco o filme Matrix:

Morfheus: -“Eu imagino que você esteja se sentindo meio Alice, na toca do coelho”.

Morfheus: - “Você acredita em destino, Neo?”
Neo: - Não.
Morfheus: - “Por que não?”
Neo: “Não gosto de pensar que não controlo minha vida.”

Morfheus: - “Você deseja saber o que ela é (Matrix)?”
Morfheus: – “A Matrix está em todo lugar a nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olhar pela janela… ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho… quando vai a igreja…quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos…para que você não visse a verdade.”
Neo: - “Que verdade?”
Morfheus: - “Que você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro… nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão… para sua mente.”
Morfheus: - “Infelizmente, é impossível dizer o que é Matrix. Você tem de ver por si mesmo. Esta é sua ultima chance. Depois não há como voltar. Se tomar a pílula azul…a historia acaba, e você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho. Lembre-se, tudo que ofereço é a verdade. Nada mais.”
Extraído do blog ThunderCash, no post “Pílula: Azul X Vermelha

Infelizmente, eu não sou capaz de afirmar, como Morpheus, que tudo que ofereço é verdade. Eu posso dizer que estou buscando a verdade. A realidade frequentemente não tem opções tão nítidas quanto a ficção.

Ressalto que o objetivo deste post não é criticar toda e qualquer concepção da divindade. O que expus aqui é, sim, uma crítica à imagem que se tem da divindade sem que a questionemos, sem que pensemos em suas incongruências. Isso não quer dizer que não existam outras imagens do divino, nem tampouco que uma visão evolutiva esteja errada. Cabe aqui uma reflexão sobre a natureza da divindade, principalmente se estas críticas lhe são doloridas. Eu vou explorar algumas ideias neste sentido em outros posts.

domingo, 23 de setembro de 2012

A Bíblia e a Experiência Mística

Este post pretende ser uma introdução da relação da Bíblia à experiência mística nas mais diversas tradições. Há muito que se possa encontrar na Bíblia para dar apoio à busca da sabedoria e do entendimento. Trata-se da história de um povo escrita por diversas pessoas, mostrando suas crenças, emoções, conflitos, leis, decisões políticas, poesia, críticas, enfim..., um depoimento. Seria preconceituoso afirmar que não há valor na Bíblia apenas porque muitos a utilizam mal, arraigando-se a conceitos que precisam ser questionados e comumente não o são. Ao citar a Bíblia aqui, neste post e em outros que eu o fizer, eu não estou assumindo de forma alguma uma postura dogmática (o que seria totalmente contrário à minha proposta). O que pretendo fazer de fato é não ter discriminação em relação à Bíblia, da mesma forma que não pretendo ter em relação às outras fontes, quando for útil referenciá-las. Eu acredito que a forma mais benígna de se utilizar a Bíblia, assim como qualquer outra fonte, seja continuar fazendo perguntas sinceras, e jamais aceitar respostas sem que as tenhamos verificado e chegado por nossos próprios meios às conclusões do que aceitamos ou não.

Especialmente no caso de Jesus, tratam-se de impressões que outras pessoas tiveram dele, uma vez que ele jamais escreveu sobre si mesmo. O que é uma pena porque as pessoas sempre percebem os fatos a partir dos filtros de seus próprios entendimentos. Para fazer tudo mais difícil, muitos evangelhos foram tornados apócrifos e destruídos. Ou seja, o filtro das impressões sobre Jesus tornou-se ainda mais fechado.

A ideia que vamos explorar, relacionada à experiência mística (e que procuraremos associações bíblicas) diz respeito a dois tipos de mudança possíveis em relação às pessoas. Uma se refere às atitudes externas, e a outra é a mudança interior, ligada às crenças individuais. Normalmente é mais fácil mudarmos nossas atitudes do que nossas crenças, especialmente quando percebemos ser conveniente transformá-las em função de situações concretas, tentando obter melhores resultados da realidade ao nosso redor. Já as mudanças interiores, estas são mais difíceis porque dependem de conseguirmos nos desligarmos dos incessantes eventos externos que concorrem para tirar a atenção de nosso próprio ser.

Quanto mais somos estimulados externamente, menor a chance de realizarmos a pausa que é necessária para uma transformação interna. Faz sentido, para aqueles que buscam uma transformação espiritual, optar pelo isolamento, tal como muitos monges o fazem, assim como padres, freiras, e outros praticantes das mais diversas religiões (embora o isolamento não seja o único meio de fazê-lo). Por esse ponto de vista, o trecho bíblico abaixo adquire um significado especial:

Então Jesus disse aos seus discípulos: "Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no Reino dos Céus. E vos digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus".
Mateus (19, 23) - Bíblia de Jerusalém

Há um certo questionamento se trata-se de camelo ou corda (por uma questão de tradução), mas isto não é tão relevante a princípio. Essencialmente acredito que não haja algo errado em ser rico, a princípio. Não é essa a questão. Mas a transformação espiritual que é necessária justamente para começar o caminho é muito desfavorecida quando se é suscetível a uma ampla gama de estímulos.
De fato é, justamente com as pessoas que (intencionalmente ou não) passaram por privações, que a experiência mística ocorre mais frequentemente. Essa experiência é o contato com uma realidade que não é fisicamente aparente (transcendendo as relações físicas), embora essa realidade interaja e transforme os aspectos físicos sem que o percebamos. No que diz respeito a esta experiência, é difícil alguém se despojar ao ponto da mente entrar em repouso sem deixar-se perturbar, mas ainda assim isso pode ser feito, com uma grande dificuldade, pela parte das pessoas que se baseiam muito naquilo que possuem (ricas, conforme o termo bíblico). A Bíblia mesmo se refere a essa condição como uma dificuldade, não uma impossibilidade.
Mas qual exatamente é a importância de atingir este estado de repouso? É porque é aí (na percepção de si mesmo sem interferência do que é externo) que é criada a base para uma nova identidade, uma iniciação. Então segue um desenvolvimento interior e exterior que, com certeza, vai envolver também relações com o mundo físico, porém essa base inicial, esse renascer tem que ser realizado perfeitamente.

O trecho bíblico abaixo reforça ainda mais este aspecto da necessidade de ausência de estímulos (no caso, rejeição):

Disse-lhes então Jesus: "Nunca lestes nas Escrituras: 'A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; pelo Senhor foi feito isso e é maravilha aos nossos olhos'? Por isso vos afirmo que o Reino de Deus vos será tirado e confiado a um povo que produza seus frutos".
Mateus (21, 42-43) - Bíblia de Jerusalém

Ainda sobre a iniciação, há um trecho bíblico neste sentido:

Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um notável entre os judeus. À noite ele veio encontrar Jesus e lhe disse: "Rabi, sabemos que vens da parte de Deus
como um mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes, se Deus não estiver com ele". Jesus lhe respondeu: "Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer do alto não pode ver o Reino de Deus".
Disse-lhe Nicodemos: "Como pode um homem nascer, sendo já velho? Poderá entrar uma segunda vez no seio de sua mãe e nascer?"
Respondeu-lhe Jesus: "Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito".
Perguntou-lhe Nicodemos: "Como isso pode acontecer?"
Respondeu-lhe Jesus: "És o mestre de Israel e ignoras essas coisas? "Em verdade, em verdade, te digo: falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, porém não acolheis o nosso testemunho. Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como ireis crer quando vos falar das coisas do céu?
João (3, 1-12) - Bíblia de Jerusalém

É muito útil (como exercício para ajudar a renovar as próprias ideias) rever os trechos bíblicos citados neste post, dentro de seus contextos específicos, e procurar analisá-los, comparando-os com os conceitos que foram apresentados.