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domingo, 16 de junho de 2013

O Início de uma Experiência Assustadora com meu Inconsciente

Na semana passada eu comecei a descrever o número 3 dentro de um sistema de numerologia de 18 símbolos (no post A Deterioração e sua Relação com o Número 3) e, conforme prometi, vou iniciar o detalhamento de como esta deterioração se desenvolveu em meu caminho de magia.

Eu me encontrava novamente em um momento de “estaca 0” no que diz respeito às realizações físicas e concretas (perceptíveis na realidade mundana, e não somente na realidade invisível que diz respeito à magia). Eu havia vivido um período de experiências novas, onde eu escrevi alguns ensaios esotéricos, e conheci pessoas de um novo contexto, relacionado à Bruxaria (descritos nos posts Sabedoria e Entendimento e também em O Número 2 e sua Relação com meus Primeiros Contatos com a Bruxaria). Mas tudo aquilo havia passado e eu estava de volta à uma mesma rotina e os problemas do cotidiano se tornavam cada vez mais a tônica do meu dia-a-dia naquela época.

Então, uma amiga bruxa me deu a ideia de experimentar o pêndulo de radiestesia. Ela havia dito que um pêndulo de metal seria ideal porque me pouparia do trabalho de “limpá-lo”, removendo vibrações anteriores, por assim dizer. Hoje em dia eu sei que em caso nenhum esta limpeza é necessária, a menos que se acredite que seja (é uma necessidade do indivíduo, e não do pêndulo).

É necessário dizer que um pêndulo nada mais é do que um peso ligado a um pequeno cordão (e suspenso quando alguém segura o cordão). Normalmente este cordão é metálico e o peso, em si, é um cristal com uma certa simetria, mas também pode ser um peso de metal (igualmente com uma certa simetria). Os pêndulos são comumente utilizados para obter respostas a perguntas ou para avaliar as “vibrações” de algum objeto em questão, dependendo de como gira o pêndulo, seja para a esquerda ou para a direita (pois sendo um peso suspenso por um cordão, seu movimento mais simples é girar quando sob um certo impulso), ou então dependendo para qual direção ele aponta (quando se move sem girar, como que passando sobre uma linha reta, sem deslocar-se para a esquerda, nem para a direita).

Existe muita fantasia sobre o pêndulo, supondo que ele de fato meça as “vibrações” daquilo que se quer mensurar, mas o que ocorre mesmo é muito mais simples. O sistema nervoso produz pequenas vibrações, imperceptíveis conscientemente, que acabam se comunicando pela linha que suspende o peso e gradualmente o faz mover-se, acelerando-o ou desacelerando-o. Em outras palavras, a resposta é dada por aquele que segura o pêndulo e não depende de fatores externos e sim, pura e simplesmente, de quem o está segurando. É uma via de comunicação com o inconsciente, que pode (ou não) responder de forma coerente com a realidade.

Cabe ressaltar que pode-se provocar um movimento no pêndulo concentrando-se nesse movimento. Isto demanda uma certa dificuldade a princípio, mas vai se tornando cada vez mais fácil. Alguns chamam este processo de “programar o pêndulo”, mas verdadeiramente se trata de programar o próprio sistema nervoso para que interaja com ele. Este é, na realidade, o primeiro procedimento quando se adquire este objeto.

Porém eu ainda não sabia de nenhum destes conceitos e segui o conselho de minha amiga, adquirindo um pêndulo metálico porque eu acreditava que, se não fosse metálico, eu necessitaria limpá-lo de suas vibrações anteriores com uma certa frequência. Já com um pouco de prática eu conseguia movimentá-lo e me sentia estupefato. Eu pensava, naquela época, que aquela experiência era uma prova concreta do sobrenatural (o que não era, conforme as explicações que já passei) mas, na realidade, quase todo mundo que experimenta o pêndulo pela primeira vez tem essa mesma reação.

Comecei então a fazer medições (acreditando realmente que media algo externo a mim) e a fazer perguntas do tipo “Sim/Não/Não posso responder”. Levou pouco tempo para que eu criasse um esquema de letras estruturadas de forma tal que o pêndulo acabasse apontando para as mesmas no final, formando palavras e frases quando combinando as letras. Eu testei este esquema e, para minha surpresa, funcionou depois de algumas tentativas (tudo, no que diz respeito ao pêndulo, se resume a preparar seu próprio sistema nervoso). Eu tinha um canal, então, com meu próprio inconsciente, mas eu não sabia disso. Eu estava apenas tentando me comunicar com alguma coisa que não sabia o que era. Era um tipo de brincadeira, por assim dizer, mas que me levaria a uma experiência bem séria.

É típico como que em magia frequentemente experimentamos coisas que não compreendemos totalmente, e como que isso pode nos causar experiências desagradáveis. Porém a iniciação com o Santo Anjo Guardião (confira meu post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia) nos orienta e nos protege de nos “ferirmos” além de um ponto que não possamos lidar. No entanto, sem esta iniciação, somos frágeis demais. Esta é a iniciação mais importante, mas há outras, sendo algumas com um sentido mais específico com relação à proteção, sobre as quais eu irei comentar quando for apropriado dentro de uma cronologia.

No próximo post, eu vou começar a expor a respeito de como foi este contato que realizei utilizando o pêndulo. Para quem deseja ver outros posts relacionados à numerologia (este atual inicia a descrição do número 3 em meu próprio caminho de magia), fica aqui este link.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Estimulando o Subconsciente

Se há uma qualidade que eu considero essencial para quem busca desenvolver-se na magia e no ocultismo, esta é a paciência. Os fatos simplesmente não acontecem tão rápido quando gostaríamos que acontecessem. Muitas vezes ansiamos por uma mudança e ela parece nunca ocorrer mas, na verdade, não deveria ser assim.

Há diversos fatores envolvidos nos períodos de espera. O primeiro deles é que a magia deve ser sedimentada de dentro para fora. Ou seja, primeiro é necessário ser algo, para então expressar este ser, estimulando o universo ao seu redor, e então perceber transformações. O período de preparo é longo e em diversos níveis até que a transformação aconteça. E quando acontece, um observador externo poderia simplesmente dizer que você teve sorte, como se não tivesse feito esforço algum para que o resultado surgisse. É óbvio que essa impressão é incorreta, mas ainda assim vale comentar um conceito no qual se diz que a sorte nada mais é do que uma mistura de estar preparado com a oportunidade de agir. Sob este ponto de vista, o conceito se aplica na magia. Uma oportunidade pode até aparecer para alguém, mas se a pessoa não estiver preparada para assumi-la, vai muito provavelmente fracassar. Por outro lado, mesmo que nenhuma oportunidade surja, pelo menos é possível preparar a si próprio.

Uma forma de se preparar é perguntar a si mesmo o que se pode fazer para ampliar o leque de possibilidades de ação. Um meio que todos possuem de expressão mágica, por assim dizer, são os sonhos. Mas os sonhos são espontâneos, de forma que não se tem muito controle sobre eles. Normalmente nós simplesmente sonhamos com o que quer que seja sem termos planejado anteriormente o que faríamos neles. Então, como intervir nos sonhos? Uma das maneiras é enriquecermos, quanto mais pudermos, nossas próprias consciências quando estamos despertos e, assim, quando sonharmos iremos reagir de uma forma mais consciente e direcionada. Manter um diário de sonhos também é uma excelente ideia, onde se deve escrever sobre o sonho assim que se acordar. Através deste diário compreendemos melhor os elementos com os quais interagimos e, com esta consciência aumentada, podemos melhorar nossa interação nos próximos sonhos.

Os sonhos passam então a ser um tipo de oportunidade que se busca mas, ao mesmo tempo, também constituem uma preparação para oportunidades mais concretas. Há outras formas de se influenciar o subconsciente. Pode-se, por exemplo, antes de dormir visualizar o que se deseja sonhar de olhos fechados e, então relaxar e dormir. Pode-se colocar também alguma música bem baixinho que lhe evoque uma emoção específica que você deseja manifestar nos sonhos. Eu mesmo já fiz esta experiência com música, e a repeti por algum tempo. Eu também utilizei um software de mensagens subliminares. A ressalva é que, no caso de se utilizar uma técnica para estimular sonhos específicos, chega um momento em que o subconsciente fica saturado daquele estímulo e você percebe esta sensação de saturação. Nesse momento é importante cessar o estímulo e esquecê-lo, deixando amadurecer, para que se provoquem resultados decorrentes deste amadurecimento.

Os estímulos simples (música, auto-sugestão, etc) têm esse efeito de saturação muito frequente. Já a prática de tornar-se mais consciente dificilmente causa saturação pois, quando nos sentimos saturados por um certo assunto, ou ponto de vista, basta que mudemos de tema e então a saturação desaparece. Estas técnicas são interessantes antes de uma iniciação, e mesmo depois da iniciação podem ser utilizadas enquanto não se está familiarizado com métodos mais específicos para operações mágicas, e isso pode levar um longo tempo (novamente um período em que é testada a paciência). No entanto, mesmo desenvolvendo ritos mais eficazes, é sempre importante enriquecer a própria consciência e manter-se atento aos sonhos.

Ressalta-se que mesmo alguns ritos mágicos mais sofisticados também causam este efeito de saturação. Um exemplo comum seria a criação de sigilos na magia do caos, em que são elaboradas representações visuais que impressionam o subconsciente e, quando ocorre a saturação, deve-se desfazer dos sigilos, esquecendo-os, para que possam maturar e, assim, produzirem efeitos.

Para quem deseja saber mais sobre os sonhos nesse contexto, fica o link para meu post “Sonhos”, o qual os analisa sobre outras perspectivas e reitera alguns itens colocados aqui.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Como o Mundo Espiritual Percebe o Mundo Físico

Hoje eu gostaria de iniciar uma reflexão nova, cuja intenção é levar a outras em posts futuros. Talvez em sintonia com o Dia de Finados, eu quero começar a discutir a respeito da natureza dos espíritos. Há pessoas que acreditam que os espíritos podem caminhar entre nós, tal como nós caminhamos, ver a luz e as imagens tal como nós somos capazes de ver, ouvir sons como nós ouvimos e até mesmo sentir a brisa tal como sentimos, como se estivessem permanentemente entre nós, deslocando-se tridimensionalmente em nosso meio sem que os percebêssemos.

O problema desta visão é que, apesar de parecer simples, ela peca em diversos detalhes do que realmente significa ver, ouvir e tocar. No mundo físico, ver é interceptar a luz. Quando vemos algo, a luz é obstruída por nossos olhos, deixando de ser luz, e manifestando sombra (efeito da obstrução da luz). Quando ouvimos algo, só o fazemos porque nossos ouvidos interceptam as vibrações do ar, contendo o ar, e desfazendo o vento. Quando tocamos alguma coisa, existe uma resistência entre nós e aquilo que tocamos, manifestando-se pressão e atrito. Isso quer dizer que, se um espírito visse o mundo da mesma forma que nós vemos, se ele ouvisse da mesma forma que nós ouvimos, e se seu toque fosse da mesma forma que nós tocamos, seria totalmente cego (a luz o atravessaria, sem provocar sombra), surdo (não sendo capaz de conter o ar, não perceberia as ondas sonoras) e incapaz de tocar o mundo (não o poderia fazer atravessando objetos físicos, sem exercer pressão sobre eles).

No entanto, não quero dizer que os espíritos sejam, de fato, cegos, surdos e totalmente alienados do mundo. O que quero dizer é que esta visão sobre a natureza espiritual onde almas permanecem caminhando na Terra, como se tudo continuasse a ser como antes (exceto o fato de não serem percebidos tão facilmente pelos vivos e de poderem atravessar pessoas e objetos), é simples demais para ser real. É necessário que existam outros sentidos que substituam os sentidos físicos e, sendo estes sentidos de um outro tipo, também possuem  qualidades novas e limitações inerentes.

A base ondem se apoiam estes sentidos não-físicos foi explorada no meu post Quando Tudo é Divino: Um Universo sem Criador e sem Criatura. Ali eu coloquei um postulado em que a divindade e a criação não seriam seres separados, e sim um mesmo e único ser que, em um certo momento (que poderíamos considerar como sendo um começo, um princípio, ou mesmo o princípio de um ciclo), era apenas uma essência não-manifesta e que depois tornou-se manifesta: a divindade metamorfoseando-se na criação. A divindade e a criação como um único ser. Porém não estava implícita, naquele post, a relação do mesmo com a natureza dos espíritos.

Portanto, prosseguindo, em toda a existência está o divino. Dessa forma, seja na energia ou na matéria, em cada partícula, em cada átomo, em cada molécula, em cada célula, em cada ser multicelular, está o divino. Isso vale para a existência física, mas também vale para a existência espiritual. Desde já, perdôem-me o termo vago “existência espiritual”, que diz muito pouco sobre o que é a natureza não-física (ou o astral). Mas a proposta aqui é justamente começar a desvelar um pouco este mistério, ainda que muito incompletamente. Enfim, postulando que a divindade está em tudo o que há, seja físico ou espiritual, e também que o divino é consciente e comunicante, encontramos aí os atributos que unem o físico ao espiritual: em tudo há consciência e comunicação (atributos da divindade). A natureza física e espiritual se comunicam.

Estando a divindade em tudo, seus atributos também estão em tudo, incluindo a capacidade de ter consciência e de se comunicar. Seja na matéria, na energia ou no espírito, em qualquer nível (nos objetos, em um grão de areia, na água da chuva), aí está o divino, consciente e comunicante. O que ocorre é que estes atributos se desenvolvem de uma forma mais simples em um grão de areia do que em um ser humano, sendo mais claramente perceptíveis neste último. Ainda assim, estão presentes em tudo o que há.

Para um espírito ver, ele precisa se comunicar com uma consciência no mundo fisico que lhe dê visão. O mesmo se aplica a todos os outros sentidos. O espírito poderia tentar se comunicar com uma árvore para poder senti-la, ou com qualquer outra coisa, tal como um grão de areia, ou as gotas de água da chuva. Mas um espírito humano desencarnado normalmente não sabe se comunicar com uma árvore, ou com os grãos de areia, ou com as gotas de chuva. Portanto ele procura referências mais familiares, abordando outros seres humanos. O espírito então vê com os olhos de outras pessoas, toca com as mãos de outros, sente o paladar pelo paladar de outros, ouve pelos ouvidos de outros. Em muitos casos, o espírito é levado a este contato movido por seus próprios vicios, procurando estimular estes mesmos vícios naquele com quem entra em contato. Mesmo quando não é esta a intenção, podem ocorrer experiências e consequências que não são benígnas para quem é alvo desse contato.

Em teoria deve haver espíritos incapazes de se comunicar com outras pessoas, explorando alguma dificuldade para se comunicarem. Da mesma forma que devem existir espíritos capazes de se comunicar com consciências do meio físico (animais, vegetais e minerais). E, é óbvio, há espíritos não-humanos.

Tomando como pano de fundo esta comunicação, há muitas implicações que podem render muitos posts para refletirmos sobre diversos aspectos a respeito da natureza espiritual. Uma das consequências, por exemplo, é o fato dos espíritos normalmente conseguirem revelar às pessoas somente aquilo que a humanidade de alguma forma já sabe, de acordo com o nível da ciência atingido até então (pois, em geral, percebem o mundo a partir dos sentidos humanos). Os espíritos não trazem consigo revelações cientificas que ainda não tenham sido descobertas pela humanidade, embora em alguns casos consigam obter muita informação científica já conhecida (possivelmente respostas mais complexas e precisas são fornecidas por espíritos que se estruturam e se comunicam entre si, formando uma espécie de rede, ou um círculo). Allan Kardec mesmo, forneceu dados científicos que adequavam-se às observações da época, até então, mas que provaram-se incorretos conforme a ciência evoluiu. Isso foi usado como argumento contrário à mediunidade, porém eu dou-lhe um voto de confiança pelos motivos que descrevi.

Como minha proposta é de estimular a livre reflexão, cabe a cada um pensar nas implicações do que lhes descrevi aqui e também dos possíveis paradoxos que surgirem daí.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O Prazer e a Dor

Prazer e dor. Polos opostos cujas gradações populam não apenas a experiência humana, mas também a experiência da vida em si, de todo tipo de vida. A dor nos leva a repelir algo, nos mostrando o que é dissonante de nós, e o prazer nos impulsiona para que nos aproximemos de alguma coisa, revelando o que nos é ressonante.

E, talvez estranhamente, estas sensações não acontecem necessariamente porque algo realmente nos cause prazer ou dor. Na verdade a consciência destes estados não se sente somente com um estímulo imediato, e sim, muitas vezes, como a memória de algo que se sentiu, a lembrança de uma experiência, gerando a expectativa de ter novo prazer, ou de sofrer dor, tal como diz aquele ditado popular: “Gato escaldado tem medo de água fria”. Assim estas sensações não são apenas reações momentâneas, e sim algo que passa a fazer parte de cada um, constituindo a base do nosso aprendizado e dando forma a quem nós somos. Pode-se dizer que as ressonâncias (o prazer) representam respostas que nos completam, expandindo nossa expressão para o exterior, e que as dissonâncias (dor) mostram nossos limites, os quais não nos permitem passar adiante, o ponto a partir do qual cessa o “eu” e começa algo diferente do “eu”.

A princípio, o prazer e a dor parecem opostos, contraditórios em suas naturezas porém, em uma análise mais profunda, percebe-se que estão interligados, sendo complementares entre si. O prazer (que aponta para a expressão de quem somos, a qual diz respeito ao nosso aspecto interior) é complementado pela natureza do que existe ao nosso redor, a qual corresponde à visão do que difere do “eu” (sendo este o aspecto exterior a nós que é revelado pela dor). O interior é complementado pelo exterior. Dessa forma, o desenvolvimento da consciência só é completo na vivência de ambas as percepções. O interior, percebemos por nossos próprios impulsos. O exterior, percebemos pela negação destes impulsos.

No sistema nervoso, os neurônios acrescentam novas considerações à questão da percepção. O neurônio sempre reage a uma certa intensidade mínima de estímulos de forma que, abaixo desse limiar, novas sinapses não ocorrem. No entanto, quando um mesmo estímulo é intenso o bastante mas repetido com frequencia, ele passa a ser ignorado. O motivo disso é o que se chama de imagem consecutiva negativa que é mantida por um tempo, de forma residual, em cada neurônio e que, sendo a imagem negativa do estimulo, ela o cancela. Para se compreender o que é a imagem consecutiva negativa, basta observar alguma cena com cores iluminadas e brilhantes por alguns segundos, e fechar os olhos. Então se verá uma imagem em negativo, a qual é a imagem consecutiva negativa do que se viu.

Há muitas outras experiências físicas nesse sentido como, por exemplo, a percepção do frio ou do calor que tende a se amenizar com o passar do tempo, o eco dos sons que nos incomoda a princípio mas que o ignoramos depois de um certo período, um ruído insistente que passa despercebido quando nos habituamos a ele, e, é claro, isso também se aplica às sensações de prazer e dor e, até mesmo, às experiências subjetivas da rotina do dia-a-dia, as quais não são necessariamente físicas. Na verdade, é este mecanismo que permite que nos acostumemos às mais diversas situações ao nosso redor porém, ao mesmo tempo, nos torna cada vez mais incapazes de perceber o que nos cerca, a menos que os estímulos se tornem mais intensos, ou que sejam intercalados pela ausência de estímulos. Essa é a base da dinâmica do vício: a busca de um estímulo cada vez maior para produzir o mesmo efeito de prazer. É a escravidão de si mesmo à paixão, não no sentido romântico, mas no sentido de tornar-se dependente das próprias sensações.

O vício se origina com uma experiência prazerosa que gera a expectativa da repetição dessa experiência. Seguem então tentativas de reproduzi-la, porém cada nova tentativa tende a proporcionar menos prazer do que as anteriores, justamente pelo fato da pessoa acostumar-se a elas. Como compensação, procura-se experiências cada vez mais fortes para se manter a mesma intensidade de satisfação. Em certo estágio, realiza-se freneticamente diversas tentativas, as quais não produzem qualquer tipo de satisfação real. Quando se percebe a falta de sentido do vício, tenta-se negá-lo e conte-lo, mas aspectos subconscientes foram estimulados por muito tempo até então, adquirindo uma espécie de aprendizado inercial sobre como gerar o prazer através do vício. A abstinência gera insatisfação e a mente começa a sugerir os passos que aprendeu para obter o prazer. Por um tempo, existe uma resistência consciente a estes estímulos porém, gradualmente, começa-se a ceder a atitudes aparentemente sem consequências, porém sedutoras. Estas atitudes provocam ainda mais a imaginação, diminuindo o poder sobre os próprios pensamentos e, por consequência, reduzindo também o auto-controle. E assim, após um período de abstinência que pode ser até mesmo razoavelmente longo, há a recaída, e após a recaída, toda a auto-estima adquirida neste período se esvai, até que se tente novamente vencer o vício. Este processo se aplica a todo tipo de vício, seja o vício de comer exageradamente, usar drogas, fazer sexo, fazer compras, ou qualquer outro.

Na sociedade, o vício provoca deteriorações das mais diversas formas, seja na saúde, nos aspectos financeiros, ou nos relacionamentos pessoais, familiares, sociais e profissionais. Para contrabalançar estas consequências, existem regras para moderar as possibilidades individuais de obtenção do prazer. São as convenções religiosas, morais e legais que têm a função de fixar limites, criar contextos estáveis, e assim estabelecer ciclos que intercalam a satisfação por um lado e o cumprimento de uma função social por outro. O problema está no fato de que estas convenções não conseguem abranger as necessidades pessoais de uma forma plena e homogênea para todos os indivíduos, gerando uma crescente insatisfação na sociedade e provocando conflitos com relação às convenções pré-estabelecidas, nas esferas pessoal, familiar, social e profissional. De fato, é frequente que estes atritos e desequilíbrios sejam transportados para dentro das pessoas, tornando-as indivíduos de “duas faces”, sendo uma destas faces a demonstração de perfeição religiosa e moral, e a outra, de uma natureza oculta, intencionalmente escondida. E também existem as pessoas consideradas virtuosas, embora sejam difíceis de se diferenciar daquelas que são hipócritas, ou seja, das que aparentam ser algo que não são (a não ser pelas contradições inerentes da hipocrisia). Ainda assim, mesmo para o verdadeiramente virtuoso, ainda pesa a insatisfação.

A forma como o prazer e a dor se manifestam (e as condições que se repetem nesse processo) abrange muitos contextos, seja o próprio indivíduo (introspectivamente), ou no ambiente familiar, ou na sociedade de uma maneira mais ampla. Compreender estes aspectos em si mesmo é o primeiro passo para se adquirir o auto-controle e também o controle sobre as possibilidades de transformação da realidade ao redor de si. É necessário que se seja capaz de se ver tal como um observador externo, percebendo a dinâmica de pensamentos, sensações e emoções interna, bem como as interações externas, e então procurar conscientemente interferir nesta dinâmica. Com este tipo de intervenção, através de pensamentos, atitudes e ações, é possível assumir o controle de si próprio para então ser capaz de interagir e orientar melhor o mundo ao redor de si, na direção de uma realização cada vez mais plena. Os resultados são, com frequência, quase desanimadores à princípio e, em meio a um processo de tentativa-e-erro, não há garantia de que nunca surjam motivos para arrependimento mas, para cada ilusão e erro sempre há um aprendizado quando os percebemos e, assim, nos tornamos melhores pelo simples fato de tentarmos sê-lo.

O que se busca é permitir que a satisfação ocorra de forma equilibrada. O filósofo grego Epicuro (341 - 271/270 a.C) criou um método relativamente simples de ser aplicado na busca da realização plena do prazer com equilíbrio, cujo sentido original se deturpou já nos seus primórdios, por seus próprios seguidores: o hedonismo. O hedonismo, na concepção de Epicuro, partia do princípio de que o ser humano tem três dimensões: física, mental e espiritual. A dimensão física diz respeito à satisfação ou insatisfação física; a dimensão mental diz respeito às satisfações ou insatisfações apontadas pelo uso da razão, a qual envolve o intelecto e também a capacidade de imaginar possibilidades; a dimensão espiritual, no entanto, envolve os sentimentos e, em particular, aqueles que nos ligam às outras pessoas e à natureza ao nosso redor, nos tornando capazes de sentirmos satisfação ou insatisfação não apenas por nós mesmos, mas também nos permitindo desenvolver empatia por outras pessoas, nos motivando a agir também pelo bem-estar de outros. Nessa concepção, o hedonismo é ético e pressupõe que, se buscarmos maximizar o prazer nestas três dimensões, permanecendo sensíveis às mesmas, estaremos em equilíbrio. O hedonismo é uma bússola interna para procurar a verdade pois implica na atenção plena às fontes primárias do conhecimento de si próprio e do mundo: o prazer e a dor.