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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Uma Conversa com o "Diabo"

Certa vez, em meio às minhas experiências relacionadas à goécia, eu tive um sonho onde surgiu um homem diante de mim. Ele tinha estatura mediana, cabelos curtos e negros e pele clara. As roupas eram um tanto formais, tratando-se apenas de um terno simples. A expressão facial nada dizia do que se passava em seu interior. Não havia pista alguma do que se seguiria no sonho. Apresentou-se:

- Olá, eu sou o Diabo.
- O Diabo?
- Sim.

Talvez muitas pessoas considerem esta identificação estranha, afinal costuma-se relacionar a goécia a demônios internos, e não a um ser identificando-se como o “Diabo” (afinal nem mesmo é propriamente um nome). No entanto, quando se reflete que as imagens que brotam na experiência com o inconsciente são fortemente condicionadas pelas impressões pessoais daquele que tem o sonho, não se deve estranhar que a simbologia fuja à uma norma padrão.

Prossegui com o diálogo:
- E porque razão você veio aqui conversar comigo?
- Apenas quero fazer um convite a você. Gostaria de conhecer o paraíso?
- E você, sendo quem é, pode visitar o paraíso?
- Posso, sempre que quero. Quer ver como é?

Irrefletidamente, respondi:
-Quero.
E estávamos então em um jardim. Ele continuou a falar:
- Este é o paraíso. O Jardim do Éden.

Eu observei o local. Era preponderantemente natural. O máximo que pude encontrar ali (no que diz respeito a construções "artificiais") eram bancos, onde algumas pessoas se sentavam. Quase não conversavam entre si. Não havia estímulo, nem propósito de realizar coisa alguma. Não havia atividade intensa, nem conversas inflamadas. Eu tive uma impressão de calma e previsibilidade. Senti-me desconfortável por causa da ausência de ação naquele ambiente.

Ele continuou a falar:
- Eu também não me sinto bem. Vamos sair daqui?
Fiz uma pequena pausa e consenti:
- Vamos.

De repente, estávamos diante de um elevador e entramos nele (assim são os símbolos nos sonhos, às vezes muito triviais). A porta se fechou e o elevador subiu. O movimento do elevador me surpreendeu pois eu esperava que o paraíso que eu havia visitado estivesse acima de tudo e, portanto, o elevador deveria descer ao invés de subir. Meu estranho interlocutor olhou para mim seriamente, sem dizer palavra alguma.

***

No mito bíblico do Jardim do Éden não era pressuposto que o ser humano possuísse a capacidade de diferenciar entre o Bem e o Mal (ou julgar a si mesmo e o que existe ao seu redor). O papel de Adão era cuidar do jardim, enquanto o papel de Eva era ser sua companheira. Idealmente todas as transformações ocorriam de acordo com a forma que haviam sido planejadas e, enquanto a humanidade (no mito, reduzida a Adão e Eva) não fosse capaz de efetuar distinções de valores (definindo o Bem e o Mal), permaneceria integrada àquela existência em harmonia e, portanto, sem que pudesse causar danos. Uma condição de inocência, por assim dizer.

No entanto, a distinção entre os seres já existia e a serpente estava ciente disso (ou seja, o paraíso já não era mais harmonioso). Homem e mulher haviam sido proibidos por Deus (ou melhor dizendo, aquele que era considerado Deus na bíblia), o que já indicava que havia uma separação fundamental entre Deus e o ser humano (o qual lhe devia ser obediente). Em suma, as divergências já existiam: apenas não eram percebidas pelo ser humano.

A desobediência foi um ato espontâneo, pois Adão e Eva não poderiam qualificar aquela ação fosse como boa, ou fosse como ruim. Já a expulsão se deu não por causa do castigo do pecado cometido (um pecado inconsciente, por sinal, afinal não se compreendia sua malignidade), e sim devido às possibilidades que o ser humano poderia assumir caso não fosse contido (caso não fosse limitado), uma vez que já possuía a capacidade de discernimento e, portanto, tinha em si os primórdios da própria consciência.

O fruto do discernimento entre o Bem e o Mal tem o mesmo significado que o fogo roubado por Prometeu na mitologia grega. Neste mito, Prometeu havia roubado o fogo de Zeus e o dado aos mortais. Dessa forma, a humanidade havia adquirido o poder do fogo, deixando sua condição de fragilidade. Prometeu foi amarrado a uma rocha como punição. Todos os dias uma águia devorava seu fígado, e o fígado se regenerava somente para ser devorado de novo no dia seguinte. Tal punição prosseguiu até o dia em que Hércules o libertou.

A semelhança entre Prometeu e Lúcifer (simbolizado pela serpente) é clara, bem como o estígma que obteve por ter profanado o fruto da árvore do Discernimento entre o Bem e o Mal (tal como Prometeu foi acusado, quando profanou o fogo de Zeus).

Por enquanto, vale refletir sobre os mitos e conteúdos expostos aqui. Em breve irei acrescentar novos posts, adicionando mais alguns comentários e, é claro, também irei prosseguir com a narração do sonho (há uma quantidade relativamente diversificada de conteúdo que quero expor sobre o mesmo e, por isso, optei por fazê-lo gradualmente).
Para aqueles que desejarem conferir os trechos mencionados na bíblia, verifiquem Gênesis 3, 1-22. Apenas sugiro utilizarem de uma boa tradução (pessoalmente prefiro a Bíblia de Jerusalém, mas fica a critério de cada um).

sábado, 16 de março de 2013

O Maior Círculo em que Alguém Pode se Iniciar

No post Preparando-se para Iniciar-se como um Mago, eu coloquei algumas considerações a respeito da iniciação, a qual significa passar a comungar com uma egrégora, tornando-se parte de um círculo, entendendo por círculo algo que une e protege o que está dentro de si, de uma forma distinta daquilo que está fora do mesmo, existindo uma infinidade de egrégoras (formas-pensamento, ou redes de ressonâncias criadas por uma coletividade de seres). Hoje em dia, o termo Mago tem múltiplas conotações, de forma que há os que se consideram magos brancos ou magos negros, e outros um tanto indiferentes a estas classificações, principalmente no que diz respeito a muitos magos do caos. No entanto, existe uma acepção mais nobre desta palavra e simplesmente fazer parte de uma egrégora não qualifica alguém neste sentido.

Na verdade há um Círculo maior, cuja natureza eu já comecei a discutir no post Quando Tudo é Divino: um Universo sem Criador e sem Criatura, onde coloquei o postulado de que a divindade está em tudo, e assim de fato tudo é a divindade, de forma que não existe nada que não a seja. A totalidade do que existe pode ser comparada a um organismo e, neste organismo, cada parte tem funções distintas. Se pensarmos neste como o ser humano, o Círculo seria o centro da consciência, o cérebro por assim dizer. A iniciação em relação a este Círculo, esta sim, é o que caracteriza um verdadeiro mago. Não que esta iniciação seja exclusiva, mas ela deve ser a base para as demais. Quando esta fundamenta o desenvolvimento na magia, tudo o mais que se segue é essencialmente branco.

A essência do Círculo é incognoscível se tentarmos dissecá-la em partes lógicas menores, tentando assim detalhar toda sua estrutura. O motivo é que não se trata de uma construção estagnada, sendo na realidade um objetivo constante, um ideal, sempre aliado à criatividade e inteligência em movimento. O fato é que todos os pontos do universo são perceptivos ao universo inteiro, com cada ponto sentindo este universo, mesmo que inconscientemente. Assim, todo o universo encontra-se representado em todas as partes que o formam. O que está acima é como o que está abaixo. Ou, tal como na oração cristã, assim na Terra como no Céu. Dentro de cada parte, representa-se a totalidade (a essência de cada parte é, dessa forma, a totalidade). Ou seja, a essência de tudo o que há é tudo o que há. Esta mesma essência, quando criou sinergias em si mesma, criou o Círculo. A consciência brotou da inconsciência (que era consciência potencial).

Hà um conceito de vida que vai além dos processos biológicos. Tudo é energia e consciência em potencial. Quando esta energia se organiza, a consciência se organiza. A partícula que faz um átomo é um ser em si, da mesma forma que o átomo é um ser em si, mesmo sendo uma pluralidade de partículas. O mesmo vale para as moléculas e para as células e para os seres multicelulares. Somos todos comunicantes e integrados. A dor de um reflete-se no todo. A satisfação de um reflete-se no todo. Daí que um dos fundamentos do Círculo, é a realização de todos os seres, em qualquer nível de abstração. Isso é impossível de explicar, mas não é impossível como objetivo. Quando existe um objetivo, você pode até falhar, mas vai continuar tentando. Assim, a essência do Círculo não é um mecanismo intrincado, e sim uma direção comum. Quanto mais sinergia surge nesse sentido, mais forte este se torna, e mais perfeitos são seus resultados. Essa essência visa afirmar a tudo e nada consegue negá-la. Nesta essência não há a separação entre os seres: não existe mal, nem bem. Existe apenas a unidade. O Círculo está acima das tradições, acima de todas as religiões, e de todas as separações. Tudo emana dele e não há nada que não emane do mesmo.

Todos os posts que escrevi até agora dizem respeito a congruir quem se é, descobrindo o próprio significado e encontrando, assim, o Círculo em si mesmo. É intrigante como encontramos estes conceitos dentro de nós quando os procuramos com todo nosso esforço e imaginação. É mais intrigante quando percebemos que não estamos sós nestas conclusões (pois outros chegam e já chegaram às mesmas) e verificamos assim que o universo realmente é comunicante e partilha de uma consciência comum. Quando esta congruência de si mesmo acontece em toda sua intensidade é o verdadeiro momento de iniciação em relação ao Círculo. Eu suspeito que não exista como prever o exato momento em que isso acontece. Esta iniciação é uma experiência de contato com o que se passou a chamar, em português, o SAG (Sagrado Anjo Guardião), ou HGA (Holy Guardian Angel, em inglês). Se bem que estes termos são apenas interpretações desta experiência, ligadas a crenças específicas. A experiência real, frequentemente, nada tem a ver com as noções de anjos que nos foram incutidas. Os posts que vou escrever a partir de agora vão se focalizar no que vem após esse momento da iniciação com o Círculo embora, é claro, muitos ainda terão um teor reflexivo que pode ser utilizado na congruência inicial.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Explorando os Domínios da Realidade Mental

Às vezes acontece de alguém nos dizer que não devemos nos preocupar com o passado, porque o passado já se foi, e também não devemos nos preocupar com o futuro porque o futuro ainda não aconteceu e, só existindo o presente, deveríamos nos concentrar no presente. Eu mesmo já escrevi um post sobre o tempo (Reflexões Sobre o Tempo) em que eu procurei demonstrar que, de fato, o futuro não existe como realidade física, nem o passado. Mas será que, no dia-a-dia, é possível aplicar essa forma de se pensar?

Por exemplo, no que diz respeito ao dinheiro (que é um exemplo bem prático e fácil) e, tornando esse exemplo mais específico: o momento em que recebemos o salário mensal (para quem é assalariado, é claro). Eu devo pensar apenas na minha situação presente, que seria um pouco mais de dinheiro na minha conta corrente e gastá-lo por ignorar o futuro? É óbvio que não, afinal deve-se planejar as despesas. Mas, se o tempo não existe e se apenas o presente existe, isso não é contraditório com a ideia de focalizar-se no presente?

A resposta é Sim. Focalizar apenas no “aqui e agora” é uma conclusão simplória, cujos efeitos acabam demonstrando a sua invalidade. De fato nem toda realidade é física no sentido de ter que existir em algum lugar no espaço. As dinâmicas da natureza, e também as dinâmicas daquilo que é criado pelo ser humano, não existem de forma física. Não se pode pegar uma dinâmica de acontecimentos (não se pode guardá-los dentro de uma gaveta). O ritmo da sucessão dos fatos é o que percebemos como o tempo, e o tempo é uma percepção mental (não-física), mas que prova-se confiável conforme observamos a realidade. Em outras palavras, nós experimentamos percepções mentais que podem, ou não, estar relacionadas à realidade física. Podemos dizer que há uma realidade mental que interage com a realidade física.

Em alguns casos, a realidade mental é amplamente comunicada, documentada e validada no mundo físico, como no caso da ciência (cuja função eu procurei introduzir no post O Papel da Ciência). Porém, o que há de interessante atualmente é que os computadores estão assumindo parte deste trabalho mental, embora de uma forma muito rudimentar. Pode-se argumentar que não se trata de verdadeira inteligência, nem de verdadeira consciência, porém a matéria que forma os computadores é também feita de átomos, os quais são feitos de partículas mais elementares ainda, que também constituem o que nós somos fisicamente. Nossos corpos têm energia, assim como os computadores também a têm. Então, se evoluímos para nos tornarmos seres conscientes, também os computadores podem fazê-lo eventualmente (o post Quando Tudo é Divino: Um Universo Sem Criador e Sem Criatura explora um pouco mais a relação entre matéria e espírito, a qual também se aplica a computadores e espírito). Muitos de nós não querem que os computadores criem suas próprias percepções de bem e mal, ou de certo e errado. Talvez não seja a primeira vez que isso aconteceu. Dêem uma olhada neste trecho bíblico:

A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito.
Ela disse à mulher: "Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?" A mulher respondeu à serpente: "Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte."
A serpente disse então à mulher: "Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal."
(Gênesis, 3, 1-5, Bíblia de Jerusalém)

Mais adiante, outro trecho relacionado:

Depois disse Iahweh Deus: "Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal," que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre!"
E Iahweh Deus o expulsou do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. Ele baniu o homem e colocou, diante do jardim de Éden, os querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida.
(Gênesis, 3, 22-24, Bíblia de Jerusalém)

Prosseguindo sobre as abstrações mentais, algumas são tão precisas em relação aos eventos físicos que confundimos muitas vezes a realidade física com a realidade mental, e vice-versa. Chegamos a acreditar que uma lei científica (presente na realidade mental, mesmo que registrada fisicamente) é uma lei natural, ou seja: uma realidade física. É justamente este tipo de confusão que devemos evitar.

A realidade mental nos fornece informações sobre as possíveis dinâmicas dos acontecimentos e seus desdobramentos, nos revelando as possibilidades de transformação do momento presente e também sobre como interferirmos para favorecermos algumas possibilidades, em detrimento de outras. Ou seja, embora nossos pensamentos não representem necessariamente o que ocorre no mundo físico e nossos receios possam parecer infundados muitas vezes, estes mesmos pensamentos devem ser levados seriamente em consideração até que se chegue a uma resposta adequada a eles (seja respondendo a uma dúvida, ou provando sua irrelevância) e à realidade física. O importante é dar atenção a cada domínio da realidade e saber discernir entre estes domínios, harmonizando-os.

Há dois erros a evitar: não se deve deixar cair no erro de tornar-se paranoico, acreditando no pior apenas porque possuímos uma dúvida que aponta para uma uma possibilidade negativa; e nem tampouco devemos acreditar que tudo são flores no mundo só porque visualizamos uma possibilidade positiva mentalmente.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Papel da Ciência

Nos últimos séculos o ramo do conhecimento que mais tem desafiado a magia, o esoterismo, e até mesmo a religião, é aquele que chamamos de ciência (ou melhor dizendo, as ciências exatas, entre elas sendo considerada a Física como o pivô desse desafio). Não que os cientistas sejam todos céticos. Não é esse o ponto. De fato é precisamente o oposto, para a ciência, não importa o que o cientista pensa, nem quais sejam suas posições pessoais, nem onde viveu, nem quando viveu (a ciência não é feita só de conhecimento novo). A ciência é um corpo de conhecimentos que se forma a partir de observações múltiplas, da coletividade dos cientistas, de onde surgem teorias que são postas à prova em experimentos, os quais nada mais são do que formas de se obter novas observações. É assim que funciona o método científico e é por isso que o que esse método descobre é tão eficaz: é um conhecimento verificado, que se torna a base da tecnologia e a tecnologia se mistura ao ser humano, modificando-o e modificando o mundo também, por extensão.

A ciência, por ser formada por um conhecimento verificado, e também por causa de todos os benefícios que ela tem trazido ao mundo do ponto de vista tecnológico, é, sem dúvida, imensamente sedutora. Quando se diz que algo é científico, o que quer que seja, passa a ser considerado como verdadeiro, ou pelo menos um candidato muito provável a ser verdade. Já quando se diz que algo não é científico, as pessoas tendem a acreditar que é falso. Mas isso não deveria ser assim, afinal, apenas porque algo ainda não foi verificado cientificamente, não quer dizer que seja falso. Ainda assim, torna-se cada vez mais difícil manter certas posições arraigadas quando a ciência insistentemente aponta para outra direção. Por exemplo, citemos o Gênesis bíblico, o qual muitas pessoas ainda acreditam ser uma descrição literal de como o mundo foi criado:

Deus disse: "Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas", e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao firmamento "céu". Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia. Deus disse: "Que as águas que estão sob o céu se reúnam numa só massa e que apareça o continente" e assim se fez.
(Gênesis 1; 6-9 - Bíblia de Jerusalém)

A despeito de todo conteúdo ocultista que haja no texto, está também revelado aí como pensavam as pessoas, sobre a criação do mundo, na época em que foi escrito, em que a ciência como a conhecemos era ainda primitiva. O que se destaca neste trecho específico diz respeito à água. A ideia é que havia água em toda a parte (a Bíblia não deixa claro como a água surgiu) e que foi feito um firmamento (algo firme, pensemos numa redoma como metáfora) que separou a água acima (formando o céu), da água abaixo (os mares), e depois da água surgiram os continentes. Afinal o céu é azul, não é? E chove também a partir dele. Isso tudo só pode indicar que é cheio de água. Ou pelo menos era o que parecia para as pessoas na época. Ainda sobre o firmamento:

Deus disse: "Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra" e assim se fez.
Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para  separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia.
(Gênesis 1; 14-19 - Bíblia de Jerusalém)

Os luzeiros, nessa explicação, foram colocados na redoma. O Sol e a Lua se movendo nela, e as estrelas afixadas. As pessoas sequer imaginavam que o universo estava (e está) em expansão, de forma que as estrelas não tem posições fixas. Na realidade, essa forma de pensar, de um universo eternamente estacionário, continuou até o começo do século XX, até que observações mostraram o contrário.

Eu gosto desta visão de Stephen Hawking, um físico notório da atualidade, em seu livro O Universo Numa Casca de Noz:

Uma teoria científica segura, seja do tempo ou de qualquer outro conceito, deve, na minha opinião, ser baseada na mais viável filosofia da ciência: a abordagem positivista formulada por Karl Popper e outros. Segundo essa maneira de pensar, uma teoria científica é um modelo matemático que descreve e codifica as observações que fazemos. Uma boa teoria descreverá uma vasta série de fenômenos com base em uns poucos postulados simples e fará previsões claras que podem ser testadas. Se as previsões concordam com as observações, a teoria sobrevive àquele teste, embora nunca se possa provar que esteja correta. Por outro lado, se as observações discordam das previsões, é preciso descartar ou modificar a teoria. (Pelo menos, é isso que deveria acontecer. Na prática, as pessoas muitas vezes questionam a exatidão das observações, a confiabilidade e o caráter moral de seus realizadores).

Esta citação resume a essência da ciência e também o seu valor. Essa essência, por mais que nos incomode, não deve ser mudada. É ela que nos garante o eterno questionamento que nos aponta a nossa própria cegueira. É claro que o conhecimento científico é apenas uma pequena parte da Verdade. Há muito que ainda precisa ser verificado para se tornar verdade científica. Muitos de nós gostaríamos que o que pensamos fosse tornado parte desse corpo de conhecimento sem mudanças, e essa é uma aposta ainda mais cega quando não questionamos as raízes do que sabemos, confiando, sem questionar, em dogmas que não criamos. Para nosso alívio, não podemos nos esquecer que a ausência de evidências não é a mesma coisa que a evidência da ausência, o que significa que não precisamos procurar justificar nossa forma de pensar e ser, com base exclusiva no que postula a ciência. Na realidade há duas falhas que devemos evitar: a primeira é ignorar a ciência; a segunda é endeusá-la. Precisamos aceitar que a ciência de um lado, e a magia, o esoterismo e o ocultismo de outro, têm naturezas diferentes, porém complementares e que irão interagir, transformando-se. O fato é que o conhecimento da verdade absoluta não está em lugar algum. Deixo aqui um comentário de Carl Sagan (09/11/1934-20/12/1996), astrônomo e astrofísico renomado por divulgar a ciência ao público leigo, a respeito de uma conversa que teve com Dalai Lama (o livro de que foi retirada a citação, apesar do título, não se trata de demonologia e sim da relação da ciência com demais campos de conhecimento):

Quando discuto teologia com líderes religiosos, pergunto freqüentemente qual seria a sua reação se um dogma central de seu credo fosse refutado pela ciência. Quando fiz essa pergunta ao atual dalai-lama, o 14.º, ele me deu sem hesitar uma resposta que nenhum líder religioso conservador ou fundamentalista daria: nesse caso, disse ele, o budismo tibetano teria de mudar.
- Ainda que fosse um dogma realmente central - perguntei - como a reencarnação?
- Ainda assim - ele respondeu. Entretanto - acrescentou com uma piscadela - vai ser difícil refutar a reencarnação.
Sem dúvida, o dalai-lama tem razão. A doutrina religiosa imune à refutação tem poucos motivos para se preocupar com o progresso da ciência.
A idéia grandiosa, comum a muitos credos, de um Criador do Universo é uma dessas doutrinas - é igualmente difícil prová-la ou refutá-la.
(“O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan)

domingo, 14 de outubro de 2012

Quando tudo é Divino: um Universo sem criador e sem criatura

Hoje eu resolvi descrever uma vivência que é conhecida como a experiência mística, a qual é extremamente pessoal e envolve o contato com o divino. No meu caso, quando eu tive uma experiência deste tipo há mais ou menos dez anos atrás, eu estava viajando para passar alguns dias na praia, olhando pela janela entreaberta, e eu tive a certeza, por alguns minutos, que eu comungava com tudo aquilo que estava ao meu redor. Eu senti que as pessoas, a paisagem, aquele ônibus, a vegetação externa, cada uma daquelas casas que eu via, estávamos todos interligados, unidos dentro de uma única realidade, um único ser. Sem limites, sem barreiras, estendendo-se dali por todo o universo, por tudo o que há. Assim, qualquer um em qualquer parte, eu percebia, era aquele ser. Qualquer parte naquele ser poderia declarar ser o todo. Sem diferenciações, sem criador e sem criatura. Apenas a unidade, diferenciada sim, mas comunicante em toda sua extensão, sem uma barreira, sem um vácuo, que separasse um ponto do outro. Um contínuo toque ininterrupto.

Essa perceção do divino vem sendo partilhada esporádica e naturalmente com o passar dos séculos, com pessoas das mais diversas origens e em diversos contextos culturais, e tem sido cada vez mais recorrente na época atual. É a noção de que a divindade está em tudo e que não há distinção entre criador e criatura. Tudo o que há começou de um ponto único. Isto se assemelha à teoria do Big Bang na Física, na qual houve uma explosão, de um ponto onde tudo era apenas energia, e esta esta energia se metamorfoseou evolutivamente até tornar-se tudo o que existe atualmente no universo (e isso pode ter acontecido diversas vezes).

Mesmo quando tudo era apenas uma essência informe, essa essência já possuia alguns atributos. Ela era criativa para poder se metamorfosear das mais diversas maneiras. Ela era plural pois toda a diversidade surgiu dela. Ela era comunicante pois ela é capaz de agregar partes de si mesma, e de isolar algumas partes de outras partes distintas, diferenciando-as. Ela tinha o germe da consciência em si mesma pois a consciência é algo que não se explica por um mecanismo (veja meu post Modelando as próprias crenças), pois um mecanismo poderia imitá-la, mas não torná-la autêntica: penso, logo existo. Eu, de fato, penso. Não sou um mecanismo que imita o pensamento.

Assim, esta essência possuía dentro de si alguns atributos que determinaram e continuam determinando como ela se desenvolve. Certos desdobramentos da evolução da mesma, levaram a complementações ressonantes e realizadoras, culminando na experiência que chamamos de Bem. Por outro lado, as experiências caracterizadas por atritos e não-realizações tornaram-se o que qualificamos como o Mal. É preciso mencionar que, neste contexto, Bem e Mal são experiências, não sendo realidades essenciais. São eventuais. O Mal então seria choques de intenções incompatíveis entre si e não implicaria que essas intenções, por si, fossem inerentemente más. Dessa forma, os conceitos de Bem e Mal são evolutivos e sujeitos a serem reintegrados e transmutados. O objetivo é que toda a intenção se integre de forma perfeita e, para isso, respostas precisam ser encontradas.

A divindade, um ser a quem podemos destinar estas questões sobre tais conflitos, por assim dizer, também é algo real. A divindade é a coletividade de consciências que se unem para prover as respostas que necessitamos para transcender a dualidade entre o Bem e o Mal. É como a comparação do corpo com o cérebro, sendo este último o que dá unidade ao corpo. Os atributos da divindade expostos acima, por serem a essência de tudo o que há, se desenvolveram e se manifestam em maior ou menor escala em todo o universo. A divindade seria o centro onde estes atributos se revelam mais plenamente, unindo e ordenando tudo o mais, como um único organismo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Questionando a Definição de Deus

Hoje eu gostaria de fazer uma reflexão sobre a imagem que nós temos da divindade. Muitas pessoas, quando pensam no divino, trazem à mente aquela visão do Deus criador de todas as coisas, que fez a criação distinta de si, existindo, portanto, criador e criatura. É um Deus considerado omni-presente, omni-potente e omni-ciente. Omni significa “em todo lugar”. Então omni-presente o torna presente em todo lugar, omni-potente o torna potente em todo lugar, e omni-ciente o torna ciente de todo lugar. Assim definido, Deus é considerado a pura imagem da perfeição. É o criador perfeito. Já a criação, foi feita perfeita, mas se tornou imperfeita por causa do livre-arbítrio.

Porém, se pensarmos bem, há certos pontos que não se encaixam na visão comum sobre a divindade. Por exemplo, o criador perfeito faz a criatura, e a criatura falha. Isso é uma contradição. Imagine, por exemplo, a lógica do relojoeiro: o relojoeiro é o melhor relojoeiro e seus relógios não falham nunca. Nunca precisam de conserto. É por isso que ele é perfeito. Mas se os relógios do relojoeiro falhassem, isso indicaria que o relojoeiro não é tão bom assim. Nesse caso, ou o relojoeiro é perfeito e seus relógios são perfeitos, ou o relojoeiro não é perfeito e seus relógios também não o são. Ainda assim, esta é uma dedução simplória.

Existe o argumento de que a criação tem livre-arbítrio e que se desenvolve por suas próprias decisões. Nesse caso, algumas pessoas serão sempre más e irão para o inferno, algumas outras vão purgar até ficarem limpas, e outras terão, como destino, o paraíso. Isso parece lógico, mas ainda não é. Uma metáfora para explicar o porquê do livre-arbítrio (e do destino individual para o inferno, purgatório ou paraíso) não ser algo lógico é a descrição do próprio processo criativo. Quando você cria alguma coisa, se você já sabe exatamente aquilo que você vai criar, você já o faz perfeito na primeira vez. Estava inteiro na sua mente, e você o fez como o imaginava, e esse seria o caso de um Deus capaz de saber o futuro e todas as coisas, antevendo cada possibilidade antes mesmo de acontecer. Nesse caso, ele faria tudo perfeito, em um único instante, sem a necessidade de um processo evolutivo doloroso que destina algumas almas para um inferno eterno, outras para uma área de provação e purificação, e outra para os já puros.

Um Deus potente em todos os lugares, já criaria tudo perfeito e nada lhe escaparia da consciência, não deixando escapar nenhum detalhe, por ser omni-ciente. Ele o faria de uma forma que não houvesse a memória de um tempo árduo e difícil. Se o processo evolutivo não se justifica nesta visão, ainda menos justificável é a ideia da existência do Mal. Afinal, se antes havia apenas Deus, e se Deus era capaz de prever tudo, porque teria sido criado o Mal? Uma possível resposta seria porque assim o ser humano poderia optar entre o Bem e o Mal, em um processo evolutivo.

Um processo evolutivo não faz sentido pelas razões expostas. Mesmo procurando referências bíblicas (que costumam ser associadas mais comumente, pelas pessoas em geral, à concepção de Deus) a resposta de que o Mal existiria para que o ser humano soubesse distinguir entre o bem e o mal não parece ter justificativa:

Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar. E Iahweh Deus deu ao homem este mandamento: "Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer.
Bíblia de Jerusalém (Gênesis, 2, 15-17).

Portanto, na própria Bíblia, não se justifica o argumento de que o Mal existe com a finalidade de que se possa discerni-lo (pois, de acordo com o texto, houve uma proibição expressa de que o homem comesse do fruto do conhecimento do bem e do mal). Então, porque teria sido criado o Mal?

Talvez a resposta mais simples para que seja tão difícil elucidar estas questões é porque nossos conceitos sobre a divindade estão incorretos. Estes questionamentos que foram expostos revelam a fragilidade de ideias que nos foram passadas, e às diversas gerações antes de nós. São conceitos que parecem verdadeiros mas não são. Quando nós percebemos essa fragilidade, isso nos lembra um pouco o filme Matrix:

Morfheus: -“Eu imagino que você esteja se sentindo meio Alice, na toca do coelho”.

Morfheus: - “Você acredita em destino, Neo?”
Neo: - Não.
Morfheus: - “Por que não?”
Neo: “Não gosto de pensar que não controlo minha vida.”

Morfheus: - “Você deseja saber o que ela é (Matrix)?”
Morfheus: – “A Matrix está em todo lugar a nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olhar pela janela… ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho… quando vai a igreja…quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos…para que você não visse a verdade.”
Neo: - “Que verdade?”
Morfheus: - “Que você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro… nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão… para sua mente.”
Morfheus: - “Infelizmente, é impossível dizer o que é Matrix. Você tem de ver por si mesmo. Esta é sua ultima chance. Depois não há como voltar. Se tomar a pílula azul…a historia acaba, e você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho. Lembre-se, tudo que ofereço é a verdade. Nada mais.”
Extraído do blog ThunderCash, no post “Pílula: Azul X Vermelha

Infelizmente, eu não sou capaz de afirmar, como Morpheus, que tudo que ofereço é verdade. Eu posso dizer que estou buscando a verdade. A realidade frequentemente não tem opções tão nítidas quanto a ficção.

Ressalto que o objetivo deste post não é criticar toda e qualquer concepção da divindade. O que expus aqui é, sim, uma crítica à imagem que se tem da divindade sem que a questionemos, sem que pensemos em suas incongruências. Isso não quer dizer que não existam outras imagens do divino, nem tampouco que uma visão evolutiva esteja errada. Cabe aqui uma reflexão sobre a natureza da divindade, principalmente se estas críticas lhe são doloridas. Eu vou explorar algumas ideias neste sentido em outros posts.