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domingo, 16 de março de 2014

O Diabo e os Folhetos de Missa

No post anterior (Uma Conversa com o “Diabo”), eu comecei a narrar um sonho onde o “Diabo” havia se apresentado a mim (com ressalvas em relação a este nome mas, enfim, era um sonho). A minha narração tinha prosseguido até o momento em que eu e o Diabo havíamos entrado em um elevador e estávamos nos deslocando junto com o mesmo. Prossigo agora com o sonho.

De repente, então, nos materializamos dentro de uma igreja. Ela estava aberta e o ambiente era escuro, da maneira característica de muitos destes templos. Não havia missa naquele momento, porém diante de nós estavam posicionados alguns folhetos que as pessoas costumam utilizar para acompanhar as celebrações e assim poderem participar quando solicitadas.

O Diabo tomou em suas mãos um destes folhetos e mostrou-me. Prosseguiu dizendo:
- Há mais de cem anos eu comecei a mudar a igreja Católica. Lamento não ter conseguido começar antes.

Na sequência, iríamos então nos materializar em um novo local.

***

É certo que o sonho não acaba neste ponto (ainda há mais uma parte) mas pretendo comentar, com alguma profundidade, esta breve passagem descrita aqui. Interpretando-o à luz de minha percepção atual, vêm à minha mente a ocorrência de símbolos e contextos considerados sagrados por muitas pessoas mas que parecem mais familiares do que se supõe que deveriam ser a Lúcifer (é a forma que prefiro chamá-lo, ao invés de “Diabo” como sugere o sonho).

Observe estas afirmações atribuídas ao próprio Jesus:

Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar, e quando eu me for e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também.
E para onde vou, conheceis o caminho". Tomé lhe diz: "Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" Diz-lhe Jesus: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes".
Filipe lhe diz: "Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!" Diz-lhe Jesus: "Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: 'Mostra-nos o Pai!'? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras.
(João 14, 1-11, Bíblia de Jerusalém)

De acordo com esse trecho, Jesus se coloca como o caminho, a verdade e a vida. Ele também se identifica plenamente com o Pai. Ele está no Pai e o Pai está nele. Muitos utilizam desta argumentação para justificar que não existe nenhum outro meio de salvação a não ser por Jesus Cristo e, portanto, pelo cristianismo. Daí que tudo o que é alheio ao cristianismo, é considerado o caminho para a danação, ao invés da salvação.

Quando essa exclusividade (no que diz respeito à salvação) é questionada, a resposta é: “Como podes dizer: 'Mostra-nos o Pai!'? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?”, sendo negada a resposta a este questionamento. A repreensão conclui da seguinte forma: “As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras”.

Não me considero capaz de afirmar se Jesus de fato proferiu estas palavras que lhe foram atribuídas, mas sei que são um argumento perigoso em uma época em que nenhum de nós viu estas obras de fato e, portanto, não podemos atestá-las. O que nos é pedido neste trecho bíblico é que acreditemos em algo que nega tudo o mais sem um bom motivo para fazê-lo. Este “tudo o mais” que é negado representa justamente aquele que muitos chamam de Satanás, ou Lúcifer (embora Lúcifer e Satanás sejam palavras com significados distintos), ou o “Diabo”.

E é aí que entra o papel deste personagem controverso. Ele é diretamente negado pelo suposto sagrado, e daí que é até lógico imaginar um interesse dele nesse sentido. A questão é: que armas ele poderia utilizar? Uma possibilidade é utilizar-se da lógica, da ciência, da filosofia, dos conceitos do esoterismo e do ocultismo, das mais diversas religiões de origem pagã e, enfim, de tudo que não tem laços de dependência em relação ao cristianismo. Mas utilizar-se de toda essa gama de consciência para quê? Simples: para questionar o que, segundo a bíblia, é inquestionável. Questionar é o mesmo que acusar. A palavra Satanás, na verdade, significa exatamente isso: acusador.

Por exemplo, quando culturas inteiras foram expostas ao homicídio em massa (sob requintes de tortura), culminando até mesmo com a morte nas fogueiras, quem era o acusador? Satanás. Aliás, a igreja católica até hoje não se retratou por estes atos de crueldade e violência (embora não tenha sido a única responsável). A humanidade, em geral, não tem memória de atos tão antigos.

Já a palavra Lúcifer tem um sentido bem mais complexo. No mito era um anjo cuja função era conduzir a Luz (Lux Ferre, onde Lux é luz e Ferre é conduzir). Porém, ao invés de desejar ser meramente o condutor, ele pretendeu ser a luz. Ser a luz, de uma forma bem simplista, pode significar também ser consciente (o que envolve toda a gama da consciência que há, e não apenas uma pequena parte, a qual nega a validade do tudo o que lhe é diferente). No entanto, não se trata apenas disso. Ser a luz também significa reconhecer que a divindade está em si mesmo pois ela está em tudo. A divindade é tudo.

Aliás, a palavra Diabo também tem um significado. Ela vem de Diabolos, que é o oposto de Símbolo. O Símbolo dá significado a algo. Já Diabolo, diz respeito a destruir esse significado. De certa forma, também é verdadeira.

O que teriam os folhetos de missa a ver com tudo isso? Há um século não existiam os folhetos de missa pois eram em latim. O conteúdo destes era cifrado para a grande maioria das pessoas, e isto os tornava virtualmente inquestionáveis. A tradução da bíblia católica em diversas línguas (que aconteceu no século passado), bem como a criação dos tais folhetos, trouxe os conteúdos da religião às mentes das pessoas que assim puderam começar a questioná-los.

No próximo post eu vou concluir a narração do sonho e sua interpretação.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Direito de Ser Quem Você Deseja Ser

Trago a vocês um de meus posts originalmente publicado na comunidade Repensando a Magia e o Ocultismo (clique aqui para ver o post especificamente). Apesar das propostas da comunidade e deste blog não serem as mesmas, eventualmente surgem alguns conteúdos que podem ser compartilhados entre os dois espaços.

O post tem forte relação com a história pessoal sobre meu caminho na magia, porém é conceitual. Seu objetivo (assim como de alguns outros) é ajudar a qualificar os eventos que venho narrando. Transcrevo-o abaixo: 


Encontrei recentemente um artigo sobre mapas mentais (http://parquedaciencia.blogspot.com.br/2013/10/cartografia-pessoal-os-mapas-mentais.html). É um conceito novo para mim. Não que se trate de um tema esotérico, mas é uma forma de estudar como um indivíduo se sente em relação ao seu meio. Uma maneira de investigar o subconsciente.

Penso a este respeito, visualizando o que poderia ser feito em termos de investigação no ocultismo. Poderíamos descobrir como as pessoas se sentem em ambientes específicos. Saberíamos as impressões que lhes são causadas. E então, pela soma das respostas, conheceríamos algo sobre como as consciências individuais se dinamizam coletivamente.

Pena que nem todos se permitem dizer exatamente o que pensam e sentem, o que prejudica o estudo neste sentido. Infelizmente vivemos em um mundo cheio de tabus, onde as pessoas são criticadas pelo que desejam mais intimamente. Como se não tivessem o direito de simplesmente ser quem desejam ser... O desejo é reprimido com base em valores morais questionáveis à luz de uma ética simples, a qual deveria ser o limite da liberdade inalienável de ser simplesmente quem você é.

Criam-se dogmas para que as pessoas adequem suas formas de desejar a fim de que se conformem com os mesmos. Reprimindo o que alguém quer mais intimamente, você adquire mais poder às custas deste que é reprimido. E quando o indivíduo reprime a si mesmo em favor de algo que você impõe, ele dá (de livre e espontânea vontade) o poder a você. É uma relação de abuso. E normalmente o abusado torna-se abusador, criando um ciclo vicioso.

Pior que isso, para se impor com mais eficiência, os abusadores chamam-se a si mesmos de detentores da moral (que é uma coisa absolutamente relativa, dentro de cada cultura) e da espiritualidade (que é uma profanação desta palavra).

O segredo oculto à maioria das pessoas é que a pretensa luz é, na realidade, expressão das verdadeiras trevas (trevas no sentido de que você nada pode ver além delas). Tudo o que se coloca além desta pretensa luz foi chamado de diabólico, de demoníaco.

Há apenas diferença e o respeito por esta diferença deveria ser a tônica de todos os relacionamentos, sem maior e sem menor. Rotular alguns seres como divinos e angelicais e outros como demoníacos é um profundo desrespeito à diversidade (observe que a diversidade é realmente muito, mas muito ampla).

Quantos de nós não se sentem mal por algo que se pensa e que vai de encontro aos tabus sustentados por uma maioria inconsciente? Quantos de nós deixamos de fazer algo simplesmente porque a religião não permite?

Acreditam que isso realmente vai libertá-los, que isso vai levá-los à Verdade? Se abusados tornam-se abusadores e se há muitos abusadores, quebremos o ciclo, revertendo-o. Se persistirmos, eventualmente a opressão cessa.

Alguns de meus textos parecem ser um tanto negros, um tanto demoníacos até. Eis a explicação. Não posso me conformar com atitudes inconscientes, mesmo que isso pudesse me trazer algum tipo de conforto.

domingo, 8 de setembro de 2013

O Que Está Dentro é Como o Que Está Fora

Estou retornando de minha pausa em relação ao blog (reconheço, bem antes do que havia imaginado). Por mais que haja objetivos pessoais concorrentes com os quais preciso lidar, não consigo ficar tanto tempo sem escrever (velhos hábitos nunca mudam). A verdade é que já comecei a aprender alguns macetes para administrar melhor meu tempo, sendo que um deles (mas não o único) é tornar a frequência com que escrevo um pouco mais flexível e mais espaçada (foi o que acabei fazendo para compor este post, aproveitando um esboço que já havia começado e desenvolvendo-o quando tive tempo disponível). Assim, ao invés de escrever semanalmente, eu vou fazê-lo mais ou menos mensalmente (precisarei controlar meu impulso de sempre querer rever e acrescentar algo quase que de imediato). Desculpem-me por meu post anterior (Uma Pausa) ter sido tão dramático. Afinal, como ser humano, às vezes eu também faço algumas “tempestades em copo d’água” (e armo alguns barracos também, em situações mais práticas, às vezes). 

Como resultado colateral desta mudança de ritmo, vou levar muito mais tempo lhes contando minha história pessoal no caminho da magia. Mas, na realidade, não tenho pressa e sempre considerei mais interessante apreciar o caminho do que simplesmente chegar aos objetivos pretendidos. As histórias vêm daí, dos caminhos. 

Volto então ao tema da goécia (que iniciei no post Goécia: Refletindo Sobre o que Marginalizamos no Inconsciente). Vamos lá… Certa noite sonhei com uma demônia. Demônia, mas não que tivesse algum defeito na aparência ou que inspirasse algo de desagradável. Na verdade era atraente e invulgar. O conhecimento de que se tratava de uma demônia estava implícito, já em minha mente, sem que tivesse sido comunicado claramente no sonho.

Ela fez uma proposta a mim. Demônios sempre fazem propostas. Normalmente nós temos aquele velho chavão “pacto com o demônio”, e talvez haja algo de verdadeiro nisto, porém normalmente trata-se de exagero. O que eles propõem é usualmente um trato, pura e simplesmente, e quase sempre sem aquela conotação de coisa eterna, para sempre.

No caso, ela propunha me ajudar a entender as pessoas. Ela disse que poderia revelar-me o que realmente motiva os seres humanos, por detrás da aparência das palavras, e por detrás até mesmo da fachada do que alguns acreditam ser suas verdadeiras razões. Segundo ela, assim eu poderia agir com segurança diante do que surgisse diante de mim no dia-a-dia. Não me propunha coisa alguma em troca. Enfim completou: “Então, o que acha dessa ideia?”. Eu não respondi nem com um “Sim”, nem com um “Não” e o sonho terminou assim, com um desfecho em branco.

O leitor pode considerar com uma certa estranheza esta narração que aqui estou expondo. A ideia de perceber o que as pessoas escondem (até mesmo de si mesmas), tendo acesso a algum tipo de informação (sobre a qual não se supõe que deveríamos ter) causa, em geral, uma certa repulsa. Afinal não gostaríamos que fizessem isso conosco. Não gostaríamos que as pessoas soubessem (com um alto grau de certeza) do que realmente pensamos a respeito delas, do mundo, de nossas estratégias. Acreditamos que devemos ocultar-nos, seja para sermos melhor aceitos, seja para nos protegermos. A proposta da demônia, portanto, fere este instinto de ocultação.

No entanto, nos aprofundemos nesta proposta. Consideremos que há duas formas de se conhecer as motivações das pessoas (sem que perguntemos diretamente a elas). A primeira é olhando para dentro de nós mesmos e verificando como reagimos às pessoas, porque sabemos que os efeitos que sentimos interiormente podem corresponder a causas exteriores. Como se o exterior tivesse (e tem) ramificações dentro de nós. É a noção de que somos interligados e que, justamente por isso, não existem segredos de fato.

A segunda forma é pela via inversa. Explico: se somos interligados uns aos outros, toda nossa expressão é transmitida (para outros) e recebida (por outros), em virtude de nos comunicarmos. Dessa maneira temos raízes nas demais mentes (ramificações de nós mesmos em tudo o que nos é receptivo). Por este motivo (e em certa medida) o universo corresponde ao que esperamos dele (equivale a saber como o universo se sente tendo como base como nós mesmos nos sentimos). Entretanto, em tal situação, as demais pessoas nem sempre estão conscientes de nossa influência específica em suas vidas (quando desejamos algo em relação às mesmas). Frequentemente, se esta influência é percebida (e não corresponda a padrões de pensamento e comportamento que o indivíduo considere aceitáveis, ou seja: conforme seus egos), o pensamento é rejeitado, e muitas vezes reconhecido como que de origem externa. Ocorrendo esta rejeição, quem provocou o estímulo é considerado como o tentador (voltando à alusão aos demônios), não importando o quão agradáveis possam ter sido os efeitos enquanto eram meramente inconscientes. Daí se deduz que, neste tipo de situação, uma transformação que permanece fora do limiar da consciência pode ser mais eficaz do que alguma que se evidencie conscientemente.

Tudo se resume no contraste entre consciência e inconsciência. Eu, pessoalmente, sou parte do seu inconsciente (de você, leitor), assim como quase tudo o mais o é. Da mesma forma você é parte do meu inconsciente (assim como quase tudo o mais o é). O que nos impede de vermos isto claramente são nossos egos, os quais tendem a rejeitar tudo que lhes foge à compreensão. Na verdade, o que denominamos demônios é pura e simplesmente aquilo que não se encaixa em nossos estereótipos, incluindo aí nossas noções de moral, do bem e da religião (pois são conceitos que têm relação entre si). A moral deriva do que acreditamos ser o bem, da mesma forma que a religião tem a mesma derivação. Quanto à percepção que cada um tem a respeito da divindade, esta tende a alinhar-se da mesma forma.

O que em geral não se percebe é que a noção comum de bem e mal é baseada na distinção entre os seres (entre uma pessoa e outra, ou entre Deus e o Diabo em um escopo mais amplo), e não na comunhão entre tudo o que há (onde a divindade metamorfoseia-se em tudo, não existindo nada que não seja divino - veja o post Quando tudo é Divino: um Universo sem criador e sem criatura). Estas são percepções opostas e que acabam por provocar uma distorção na consciência do que é o bem (e o mal por extensão). Acabam também por distorcer nossos conceitos morais e, enfim, distorcem a noção da própria natureza da divindade. É precisamente esta distorção que leva à violência explícita (onde um fere o outro, ao invés de unir-se ao outro), da mesma forma que leva aos preconceitos raciais, ao machismo (e também a algumas formas negativas de feminismo, pois nem todas são negativas) e a diversas outras expressões de preconceito. Percebemos, assim, como “demoníaco” o que desafia nossa persistência no isolamento.

Afinal, porque nos parece tão perigoso quando alguém é capaz de perceber realmente o que pensamos ou o que pretendemos realizar? Certamente é porque vemos uns aos outros como que isolados, como em eterno conflito, competindo mutuamente. Desejamos muitas vezes sermos sinceros, mas não ousamos sê-lo.

Embora o contato com os demônios suscite em nós reações egóicas, certamente este não é o propósito destes seres. O objetivo real é que reconheçamos o que nos atrai, ao invés de o negarmos. Nossas necessidades não cessarão se jogarmos para debaixo do tapete o que não conseguimos aceitar em nós mesmos. Pelo contrário, apenas se tornarão mais intensas e falharemos, e nos confessaremos (nas religiões onde a prática se aplica), e falharemos de novo, e permaneceremos em um eterno ciclo onde nada essencialmente se transforma.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Buscando Objetivos e Superando Obstáculos - Introduzindo o Número 4

Após finalizar a descrição do número 3 (no post Transições - Concluindo a Interpretação do Número 3) dentro de um sistema numerológico de 18 símbolos, pretendo agora introduzir o número 4. Como demonstrei anteriormente (em Algumas Bases Numerológicas), tal como na astrologia, os números podem ser qualificados como cardinais (cujas influências objetivam criar resultados idealizados que ainda não se manifestaram), fixos (que têm como objetivo sustentar, manter e fortalecer algo que já se estabeleceu) e mutáveis (que objetivam quebrar um padrão já consolidado, desestagnando estruturas sólidas e criando uma certa dose de caos necessária para que uma mudança seja possível).

O número 1 é cardinal (veja o post Compreendendo o número 1 no sistema de numerologia de 18 símbolos), seguido pelo número 2 o qual é fixo (descrito no post O Número 2 e sua Relação com Meus Primeiros Contatos com a Bruxaria), e então pelo número 3 que é mutável (abordado em A Deterioração e sua Relação com o Número 3). Como trata-se de um ciclo, deduz-se que a natureza do número 4 também é cardinal.

Assim, sob um ponto de vista sequencial, após concluída a deterioração de padrões antigos (caracterizada pelo número 3) segue-se o estímulo do número 4, favorecendo o esforço de se assumir novos propósitos, ao mesmo tempo que firma o intento da superação de obstáculos que eventualmente surjam em oposição a estes. Ressalta-se que, embora a essência do número 4 não trate de qualquer tipo de garantia de sucesso em relação ao propósito que se almeja, ainda assim constitui uma perspectiva extremamente favorável em virtude da determinação de atingir algo, mesmo quando as situações apresentam dificuldades. De uma forma geral, esta determinação acaba por “fazer a diferença”, culminando em transformações reais.

Alguém que possua a data de nascimento ressonante com o número 4 (cujo método de verificação encontra-se no post Compreendendo o número 1 no sistema de numerologia de 18 símbolos) se identifica com os atributos numerológicos relacionados ao mesmo (no que diz respeito às suas atitudes e à forma de pensar e agir em geral). A natureza cardinal estimula esta pessoa no sentido de ser proativa, tornando-se particularmente motivada quando encontrando-se em situações que desafiam seus objetivos e metas. São pessoas determinadas que não se deixam abater por obstáculos.

Na história pessoal de meu caminho na magia (a qual venho narrando) alguns objetivos se destacaram enquanto ocorriam os estímulos do número 4. Houve aqueles que foram mais nítidos como, por exemplo, com respeito ao desenvolvimento de meu relacionamento amoroso (sobre o qual comecei a descrever no post Primeiros Passos no Amor) ou então com relação à minha carreira (mudanças que começam a ser descritas em Um Experimento em um Sonho e Suas Consequências). Porém algumas experiências foram mais sutis, sendo relacionadas à realidade invisível da magia.

Eu irei tratar a respeito de todos estes desenvolvimentos, mas pretendo começar pelos eventos não-físicos, ligados à exploração do inconsciente. No post Goécia: Refletindo Sobre o que Marginalizamos no Inconsciente, descrevi como a goécia é comumente mal interpretada, sendo em geral considerada negra (pois trata-se do contato com o que costuma-se definir como demônios internos, e o termo demônio geralmente produz este tipo de julgamento). É claro que todo tipo de intenções emerge a este respeito, sendo que alguns enxergam nestas interações meios possíveis para que possam tirar proveitos puramente egoistas (entretanto este tema é muito mais amplo do que estas considerações superficiais).

Mas qual a relação entre o número 4 e o contato com demônios internos? É uma relação sutil, a qual pretendo explorar em detalhes, porém posso adiantar que todos os aspectos deste número estão “mesclados” de uma forma ou outra a estas interações (principalmente porque suscitam desejos que podem traduzir-se como objetivos e metas, mas também porque implicam no desafio de manter-se íntegro e evitar corromper-se na busca dos mesmos). Se por um lado tais contatos revelam causas (ou ideais) que podem ser consideradas egocêntricas, esta impressão apenas é assim porque não sabemos conciliar estes propósitos com o bem coletivo. Se de fato não desejássemos a realização que nos parece egoísta, esta não nos faria falta alguma. O desafio é justamente transcender a própria forma de buscar (aperfeiçoando-a a ponto de torna-la benígna), ao invés de pura e simplesmente nos negarmos a prosseguir. Portanto, este tipo de contato tem um caráter enigmático, exigindo uma solução da qual sempre nos aproximamos, mas que talvez jamais cheguemos à uma conclusão definitiva, pautando-se assim pela reflexão constante. Dessa forma, redefine-se os limites entre o que se considera como o bem e o mal, criando-se um contexto cada vez mais permissivo, menos imposto, mais livre e menos restritivo. Trata-se, então, de participar do processo da renovação moral do mundo, descartando rótulos de “certo” e “errado” (os quais não são estáticos e imutáveis), e substituindo-os por relações mais éticas (onde valoriza-se a unidade dentro da diversidade). Quando a consciência individual se amplia (e se comunica com os demais, sendo esta uma condição necessária), todos se beneficiam.

Obviamente, este post diz respeito ao número 4, em um sistema numerológico de 18 símbolos. Para quem deseja ver outros posts relacionados à numerologia, fica aqui este link.

sábado, 27 de julho de 2013

Primeiros Passos no Amor

Certa noite, durante uma viagem de ônibus de Curitiba para Londrina, eu conheci C. Nós nos encontramos absolutamente por acaso e conversamos a noite toda. Quando chegamos ao nosso destino, trocamos nossos telefones. Ela, da mesma forma que eu, ficaria apenas poucos dias ali. Eu estava surpreso pois todas as minhas inibições que me “impediam” de começar um relacionamento (veja o post Transformando a Vida Afetiva para saber mais sobre estas inibições) simplesmente desligaram-se naquela viagem. Eu apenas me expus da forma que realmente era e não houve rejeição alguma por parte dela. Nós nos encontramos e nos reconhecemos, mesmo considerando que jamais tivéssemos nos visto antes. Ocorreu assim uma troca simples e inquestionável de energia. Logo retornaríamos, porém cada um de nós embarcando em ônibus diferentes na volta. Mais alguns dias se passaram, combinamos de nos encontrar e, então, estávamos namorando.

Eu contei a ela que era a primeira vez que eu me relacionava com uma mulher. Eu queria impressioná-la da mesma forma que sentia que ela queria impressionar a mim. Eu não contei a ela sobre como havia me sentido culpado, durante boa parte de minha vida, em função de instintos eróticos que eu reprimia (também no meu post Transformando a Vida Afetiva). Contei sobre minha busca na magia mas evitei entrar em detalhes sobre as experiências que já havia vivido. Eu queria evitar o que poderia afastá-la, afinal era apenas o princípio. Não me parecia fazer sentido relacionar todos os meus “possíveis defeitos” naquele momento.

No entanto, o fato de eu omitir demonstrar aspectos da minha personalidade talvez tenha ajudado a princípio, mas a verdade é que não é possível simplesmente descartar (ou ignorar) algo de si. Não existe meio de jogar fora uma versão antiga de quem se era e substituir-se por um outro “Eu” (ideal?). Não é tão fácil excluir algo de si, uma vez que tenha sido colocado e enraizado em si próprio. O melhor a se fazer é acrescentar algo novo ao próprio jeito de ser, um terceiro elemento que diminua os conflitos interiores e que permita que a expressão total que abrange o ser humano seja cada vez mais harmoniosa e livre de culpas.

Em outras palavras, recorrendo ao exemplo do Médico e o Monstro (Dr Jekyll e Mr Hyde respectivamente): não se trata de isolar um lado e destruí-lo, e sim de somar ambos e criar um novo ser, onde as qualidades de um complementam os defeitos do outro. Escondendo o que havia dentro de mim, eu me mostrava como o bom médico Dr Jekyll e, por outro lado, ocultava Mr Hyde por não saber como poderia apresentá-lo à luz para que outros o pudessem conhecer.

Eu não tinha ainda maturidade para compreender estes conceitos. O que havia em mim (no que diz respeito ao amor, à sexualidade e ao erotismo) estava encontrando ressonâncias na realidade invisível da magia e estas ressonâncias haviam começado a se manifestar na realidade física (nos fatos concretos). O processo de cura (e este foi um processo de cura) implica na expressão de quem se é (não na ocultação), para só então se compreender esta expressão e refiná-la. Só que a maioria das pessoas começaram este tipo de experiências ainda jovens, enquanto eu estava começando aos 31 anos.

Ocultar um lado meu teve efeitos a longo prazo pois, embora eu tentasse dissimular, a magia teria sempre ação sobre todo meu ser e não apenas sobre parte de mim (isso ficou nítido em meu contato com o Sagrado Anjo Guardião, descrito no post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia). O que estava oculto eventualmente se desenvolveria e se manifestaria. Inevitavelmente o que se escondia se tornaria claro e viriam recriminações às quais eu teria de dar respostas. Se eu tivesse exposto tudo isso já no princípio, não haveria o impacto da quebra das ilusões. Por outro lado, se eu tivesse agido com absoluta franqueza, talvez nenhum relacionamento tivesse tido sequência dali.

Fico pensando nos inúmeros casais que começam da mesma forma, com segredos ocultos, e com uma esperança de que tudo dê certo apesar de haver tanto escondido. Na realidade a grande maioria dos casais se separa por causa destes segredos. No entanto eu e C permanecemos juntos até hoje por mais doloridos que tenham sido alguns momentos que experimentamos.

Aquela velha frase “... na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza” - o tempo passou e ela se mostrou mais verdadeira que tudo o mais. Cada um de nós sempre apoiou o outro quando havia questões de saúde, ou nos momentos de dificuldade financeira e em outros momentos difíceis. Da mesma forma sempre soubemos partilhar juntos os bons momentos. Sempre nos preocupamos um com o outro, mesmo quando nossos pontos de vista divergiam, mesmo quando nossas noções de certo e errado (envolvendo moral, ética e religião) divergiam, e frequentemente ainda divergem.

Sempre tivemos nossos atritos mas, nos momentos em que um ou outro precisava de apoio, o outro sempre estava disposto a dar tudo de si. O meu relacionamento com C é algo que ainda estamos dando forma, mas eu suspeito que não é apenas dessa vida que nos conhecemos. Quando nos vimos, pela primeira vez, foi um reencontro. Eu acredito que havíamos esperado a vida inteira para que nos encontrássemos, mas ainda não compreendi totalmente o significado que nós dois temos juntos. É algo que quero descobrir.

O próximo post irá tratar de mudanças profissionais que estavam acontecendo no mesmo período que estou narrando.

sábado, 11 de maio de 2013

Goécia: Refletindo Sobre o que Marginalizamos no Inconsciente

No post Algumas Bases Numerológicas eu demonstrei como o caminho de um mago pode ser pautado por um ciclo que se inicia pela busca de uma transformação visando criar algo novo, seguida por uma ação de fixação (no sentido de maturar algo que se criou mas ainda não possui solidez), e então seguindo-se da quebra de estagnações com o objetivo de que possa existir novamente a possibilidade de se buscar algo novo. Eu também demonstrei neste mesmo post o motivo da adoção de 18 símbolos (os números de 1 a 18) em um sistema de numerologia no qual este ciclo de três ações básicas se repetem diversas vezes. O que falta é responder a questão: porque isto ocorre? Porque estes números necessariamente irão fazer-se sentir no caminho do mago?

O motivo tem a ver com uma arte extremamente mal compreendida, tanto agora quanto no passado, que se denomina Goécia. Acreditava-se (e ainda acredita-se por muitos) que a Goécia tenha como objetivo subjugar demônios internos ocultos no inconsciente (isso seria feito por magos negros). O objetivo seria controlá-los e obter favores dos mesmos. O que se diz é que Salomão dominou estes demônios impondo-lhes o seu selo (que os continha). Segundo a Goécia, seriam ao todo 72 demônios. A questão é que estes demônios não são verdadeiramente demoníacos. A forma e natureza malígna que possuem nada mais são do que o conceito que criamos sobre o que nos é oculto no subconsciente, sobre o qual acreditamos não se encaixar com ideias simplistas do que é o "certo", sendo que tudo o que desafia este "certo" a transcender-se, passa a ser considerado "errado".

Lúcio Manfredi, roteirista da Globo, escreveu o artigo Uma Nova Goécia nos tempos em que mantinha seu blog O Franco-Atirador. Pena que o blog não existe mais. Digo isso porque o conteúdo que existia ali era exposto de uma forma única, com inúmeras referências bibliográficas, mas ao mesmo tempo de uma forma brilhantemente crítica. Lúcio Manfredi é um mago que teve seu encontro com o Sagrado Anjo Guardião, o qual ele denomina SAGA (veja meu post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia para conhecer minhas próprias impressões a este respeito). Mesmo não existindo mais o blog do Franco-Atirador, ainda existe um outro blog referente ao ocultismo, criado pelo mesmo autor mas mantido por outros colaboradores: é o Anoitan (“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”, na própria descrição do blog).

No meu post Expandindo a Consciência Além do Ego, eu ofereço alguns detalhes adicionais a respeito da chamada sombra (usando o termo de Carl Gustav Jung) que reprimimos e que se oculta dentro do insconsciente de todos nós. É interessante perceber que nem sempre estas forças foram consideradas malígnas, ou mesmo sequer benígnas. É o caso dos gênios, referidos na doutrina islâmica. Segundo a tradição, acredita-se que Salomão os conteve e subjugou através de seu selo. Por coincidência ou não, é justamente na surata de número 72 do Alcorão que é definida a natureza dos gênios (siga este link do site Conhecer o Islã para saber mais a este respeito). Existem também os 72 anjos cabalísticos (também conhecidos como gênios).

Mas qual é a relação entre o número 18 com o número 72? É simples: 72 é 18 vezes 4. Como vimos no post Algumas Bases Numerológicas, o número 18 refere-se a ciclos de tempo. Já o número 4 é uma alusão ao espaço (seja como os pontos cardeais indicando o Norte, o Sul, o Leste e o Oeste, ou seja como os tradicionais elementos da natureza, sendo estes o Fogo, a Terra, o Ar e a Água). O número 72 simboliza então: a ação no tempo (o número 18) combinada com a ação no espaço (o número 4). O mago, ao mesmo tempo que tem sua história no tempo, também tem no espaço. É a imagem de um círculo espaço-temporal que se repete e se expande cada vez mais, formando uma espiral que parte de si mesmo. Isso quer dizer que o ciclo de 18 números que determinamos como base de um sistema de numerologia é algo para ser vivenciado inúmeras vezes (não pense apenas em quatro vezes por causa do número 4, pois os símbolos não são literais), como que caminhando por uma espiral.

Na semana que vem eu vou começar a descrever este ciclo que vai do número 1 ao número 18. O objetivo é aprofundar cada pequeno elemento de uma curva única e isolada da espiral, formando todos estes elementos, juntos, 360 graus, tendo em mente que esta espiral tende a se expandir, repetindo-se novamente. Esta experiência cíclica (na qual se interage com o inconsciente) é o verdadeiro sentido que se oculta na Goécia.

sábado, 16 de março de 2013

O Maior Círculo em que Alguém Pode se Iniciar

No post Preparando-se para Iniciar-se como um Mago, eu coloquei algumas considerações a respeito da iniciação, a qual significa passar a comungar com uma egrégora, tornando-se parte de um círculo, entendendo por círculo algo que une e protege o que está dentro de si, de uma forma distinta daquilo que está fora do mesmo, existindo uma infinidade de egrégoras (formas-pensamento, ou redes de ressonâncias criadas por uma coletividade de seres). Hoje em dia, o termo Mago tem múltiplas conotações, de forma que há os que se consideram magos brancos ou magos negros, e outros um tanto indiferentes a estas classificações, principalmente no que diz respeito a muitos magos do caos. No entanto, existe uma acepção mais nobre desta palavra e simplesmente fazer parte de uma egrégora não qualifica alguém neste sentido.

Na verdade há um Círculo maior, cuja natureza eu já comecei a discutir no post Quando Tudo é Divino: um Universo sem Criador e sem Criatura, onde coloquei o postulado de que a divindade está em tudo, e assim de fato tudo é a divindade, de forma que não existe nada que não a seja. A totalidade do que existe pode ser comparada a um organismo e, neste organismo, cada parte tem funções distintas. Se pensarmos neste como o ser humano, o Círculo seria o centro da consciência, o cérebro por assim dizer. A iniciação em relação a este Círculo, esta sim, é o que caracteriza um verdadeiro mago. Não que esta iniciação seja exclusiva, mas ela deve ser a base para as demais. Quando esta fundamenta o desenvolvimento na magia, tudo o mais que se segue é essencialmente branco.

A essência do Círculo é incognoscível se tentarmos dissecá-la em partes lógicas menores, tentando assim detalhar toda sua estrutura. O motivo é que não se trata de uma construção estagnada, sendo na realidade um objetivo constante, um ideal, sempre aliado à criatividade e inteligência em movimento. O fato é que todos os pontos do universo são perceptivos ao universo inteiro, com cada ponto sentindo este universo, mesmo que inconscientemente. Assim, todo o universo encontra-se representado em todas as partes que o formam. O que está acima é como o que está abaixo. Ou, tal como na oração cristã, assim na Terra como no Céu. Dentro de cada parte, representa-se a totalidade (a essência de cada parte é, dessa forma, a totalidade). Ou seja, a essência de tudo o que há é tudo o que há. Esta mesma essência, quando criou sinergias em si mesma, criou o Círculo. A consciência brotou da inconsciência (que era consciência potencial).

Hà um conceito de vida que vai além dos processos biológicos. Tudo é energia e consciência em potencial. Quando esta energia se organiza, a consciência se organiza. A partícula que faz um átomo é um ser em si, da mesma forma que o átomo é um ser em si, mesmo sendo uma pluralidade de partículas. O mesmo vale para as moléculas e para as células e para os seres multicelulares. Somos todos comunicantes e integrados. A dor de um reflete-se no todo. A satisfação de um reflete-se no todo. Daí que um dos fundamentos do Círculo, é a realização de todos os seres, em qualquer nível de abstração. Isso é impossível de explicar, mas não é impossível como objetivo. Quando existe um objetivo, você pode até falhar, mas vai continuar tentando. Assim, a essência do Círculo não é um mecanismo intrincado, e sim uma direção comum. Quanto mais sinergia surge nesse sentido, mais forte este se torna, e mais perfeitos são seus resultados. Essa essência visa afirmar a tudo e nada consegue negá-la. Nesta essência não há a separação entre os seres: não existe mal, nem bem. Existe apenas a unidade. O Círculo está acima das tradições, acima de todas as religiões, e de todas as separações. Tudo emana dele e não há nada que não emane do mesmo.

Todos os posts que escrevi até agora dizem respeito a congruir quem se é, descobrindo o próprio significado e encontrando, assim, o Círculo em si mesmo. É intrigante como encontramos estes conceitos dentro de nós quando os procuramos com todo nosso esforço e imaginação. É mais intrigante quando percebemos que não estamos sós nestas conclusões (pois outros chegam e já chegaram às mesmas) e verificamos assim que o universo realmente é comunicante e partilha de uma consciência comum. Quando esta congruência de si mesmo acontece em toda sua intensidade é o verdadeiro momento de iniciação em relação ao Círculo. Eu suspeito que não exista como prever o exato momento em que isso acontece. Esta iniciação é uma experiência de contato com o que se passou a chamar, em português, o SAG (Sagrado Anjo Guardião), ou HGA (Holy Guardian Angel, em inglês). Se bem que estes termos são apenas interpretações desta experiência, ligadas a crenças específicas. A experiência real, frequentemente, nada tem a ver com as noções de anjos que nos foram incutidas. Os posts que vou escrever a partir de agora vão se focalizar no que vem após esse momento da iniciação com o Círculo embora, é claro, muitos ainda terão um teor reflexivo que pode ser utilizado na congruência inicial.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Perigos na Magia - Princípios para Evitá-los

Um dos maiores obstáculos no caminho de um mago, que verdadeiramente pode lhe impedir de atingir maiores realizações (e até mesmo regredir) é, por mais estranho que possa parecer, as próprias realizações que já conquistou.

O fato é que é mais fácil manter um ideal quando não se tem nada a perder, mas quando obtemos os primeiros frutos palpáveis temos diante de nós um dilema: será que invisto ainda mais, podendo perder isto que já consegui, ou será que desisto da minha busca e fico com o que consegui?

As pessoas frequentemente se esquecem do porquê de terem “chegado aonde chegaram”, ignorando as relações que cultivaram no inconsciente e, até mesmo, afirmando para si mesmas que toda a busca na magia não passou de uma ilusão, e que tudo se deu apenas pela boa sorte e também pelo próprio esforço. Duvidam do que acreditavam e realizaram. Pensam que poderiam ajudar aos que lhes são mais próximos se cuidassem daquilo que já têm em mãos, e desistem, traindo tudo o que os apoiou até então. A partir daí perdem a rede de ressonância que haviam criado, a qual sustentava justamente aquela situação que tanto valorizavam. Pior, a rede de ressonância se torna de dissonância. As coisas simplesmente começam a dar errado, em vários sentidos, pois é mais fácil destruir algo do que construir. Afinal, para destruir basta força bruta. E, enfim, a pessoa está em um ponto pior do que quando começou. Trágico isso, não é? Mas é real no que diz respeito a muitos casos.

Se formos verificar onde ocorreu o primeiro erro, não foi no momento em que se decidiu abandonar a magia, e sim na construção de toda a rede de ressonância cuja motivação que a unia era imperfeita e ilusória. Na sua forma mais perfeita, o fundamento desta rede deve ter um propósito bem definido (o qual pode ser amplo), com base em um ideal pelo qual se valha a pena consolidar a própria vida, de forma que não haja arrependimento. Uma rede de ressonância não deve ser tratada como mero utilitário que pode ser descartado a qualquer momento. É importante considerar que ela pode perdurar por toda a vida, e até mesmo além da vida física e, por isso mesmo, precisa ser criada corretamente. Os valores que a permeiam devem basear-se na mais pura ética possível. Percebendo-se uma falha neste sentido, deve-se estimular a rede para que se torne melhor, mesmo que uma mudança a enfraqueça e a desestabilize em um primeiro momento.

Não devem existir dependências de trocas de favores dentro da rede, de forma que toda ação deve ser espontânea e motivada por um ideal comum em sua plena extensão. E havendo espontaneidade, isso implica na liberdade de agir ou não agir, e de deixá-la ou de permanecer nela. Com estes princípios efetivos, evita-se todos os erros mencionados acima, de forma que se pode sair de uma rede de ressonância quando se deseje, deixando-a livre para continuar agindo de forma independente. Porém, nesse caso, quando a fundamentação é correta, raramente há o desejo de abandonar a rede, embora isto seja possível.

Assim, mais do que obter resultados, o mago deve procurar estabelecer firmemente a correta fundamentação, não importa o tempo que isto leve. Estabelecido o fundamento correto, outros fundamentos serão criados (secundários) e, conforme se estabelecerem estes e outros, a realidade física irá refleti-los. Deve-se procurar pensar e agir da forma mais abrangente que seja possível para que a base seja perfeita. O modo de pensar simplório, que não avalia as possíveis contradições de si mesmo, não é capaz de criar uma rede nesse sentido. É claro que nem sempre reconhecemos que somos simplórios e este é um dos riscos. Porém, ter este risco em mente já é uma condição para agir em relação ao mesmo.

Este post e os demais que já foram publicados têm a finalidade de ajudar a evitar conclusões incorretas ou incompletas na criação de uma rede deste tipo. Quanto aos resultados de uma rede de ressonância, há certas circunstâncias em que, mesmo sendo bem fundamentada, ocorrem revezes. Quanto a estas situações, posteriormente eu vou publicar novos posts a este respeito.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Lidando com Altos e Baixos na Vida

De vez em quando eu já ouvi alguém dizer “As coisas estão indo tão bem que eu até fico com medo de passar a fase boa e vir, então, uma fase ruim”. Será que isso é verdade, que depois de uma fase boa tem que vir uma ruim, e vice-versa? Será que a vida não poderia ser simplesmente constante?

Pode até parecer crendice, mas estas fases realmente acontecem com quase todos que nos relacionamos. O motivo é que temos nossas próprias naturezas e as pessoas que nos relacionamos também têm as delas e, como não há naturezas iguais (embora as pessoas insistam em se rotular), surgem duas situações quando pessoas interagem entre si: ressonância, quando um complementa o outro de uma forma positiva; e dissonância, quando uma natureza obstrui a outra.

Tudo seria fácil se simplesmente pudéssemos definir quem nos é ressonante e quem nos é dissonante. Apenas deixaríamos de lado aqueles que nos obstruem e nos aproximaríamos daqueles que nos complementam. Mas isso não é tão simples assim. No que diz respeito à grande maioria das pessoas com as quais lidamos no dia a dia, há aspectos ressonantes que nos ligam a elas, mas também há aspectos dissonantes que nos colocam em conflito, com as mesmas pessoas. Essa ambiguidade se manifesta ciclicamente, em certos momentos preponderando relações harmoniosas e, em outros, preponderando conflitos.

Pessoalmente eu não gosto deste tipo de ciclo. Digo isso porque, quando isso acontece, há momentos bons mas que sempre atingem um certo limite (não o excedendo), só para reverter na outra direção do ciclo, onde as coisas tendem a piorar. Uma saída óbvia é procurar outras pessoas para se relacionar mas isso nem sempre é ideal. Afinal as pessoas têm laços emotivos e eles não se quebram apenas porque tomamos uma decisão. Separar-se fisicamente, e manter-se ligado emocionalmente, é ser incompleto. É algo que acontece, mas fica uma pendência que não vai simplesmente desaparecer.

Deixar pessoas para trás, como uma forma padrão de desenvolver relacionamentos, não é uma boa ideia também por um outro motivo: é que nenhum relacionamento vai se aprofundar se você descarta-lo por causa dos altos e baixos. A saída seria enriquecer sua própria identidade, complementando sua natureza, e também a identidade da outra pessoa. E a forma de fazer isso é através da comunicação. Ao relacionar-se com alguém, ambos os lados eventualmente sentem satisfação e insatisfação, e estas sensações são a base do aprendizado. É claro que tudo fica mais fácil quando, além de aprenderem por si próprias, as pessoas mantêm o diálogo, compartilhando o que descobriram.

Essa afinação entre pessoas pode levar anos mas, de tempos em tempos, ela dá saltos e, quando este salto acontece, vale a pena todo o esforço. A partir daí, os altos e baixos até continuam, mas se resolvem mais rápido e você se sente melhor na maior parte do tempo. Por esta afinação de consciência ser uma alternativa tão melhor do que deixar pessoas para trás, vale a pena reconsiderar se você se distanciou de alguém.

Estou falando muito em relacionamentos, mas que tipo de relacionamentos? Eu me refiro a qualquer tipo de interação que persista entre duas ou mais pessoas. Seja na amizade, no trabalho, no amor, no que quer que seja. Quando você perceber este tipo de ciclo de satisfação e insatisfação em setores da sua vida, tente associar o ciclo às pessoas, mesmo que se trate de trabalho, ou de dinheiro. Então descubra que tipo de interações com as pessoas interferem de forma positiva, e que tipo de interações interferem de forma negativa, aprendendo assim sobre o aspecto humano que diz respeito ao que você está interagindo. Comunique-se então com as outros para harmonizar-se, e reduzir o impacto da variação entre altos e baixos. Vale ressaltar que a sinceridade deve pautar seus relacionamentos, uma vez que tudo que é sólido depende dessa qualidade.

Estes conceitos também se aplicam na magia, que diz respeito às relações com o invisível. Existem consciências relacionadas ao trabalho, ao dinheiro, ao amor e a muitos outros aspectos da vida e também, com estas consciências, muitas vezes ocorrem ciclos. Porém, antes de tentar transformar o mundo externo através da magia, transforme a si mesmo, harmonizando-se internamente. É impossível harmonizar-se com o mundo ao seu redor se a harmonia não estiver dentro de si. Portanto, na magia, busque primeiramente a harmonia interior, sempre. De forma secundária, você expande esta harmonia para o exterior.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Criando a Mudança em Sua Vida

Seja alguém iniciante na busca de seu caminho de realização pessoal, ou esteja já há muito tempo no mesmo, sempre há situações em que se pretende explorar algo novo e desenvolver-se em algum ponto que ainda não se fortaleceu. Movido pelo desafio, procura-se e encontra-se opções. Surgem algumas possibilidades realmente atraentes, e também outras mais simples, e sempre há um risco envolvido, sendo às vezes muito grande, e outras vezes quase desprezível. E há a questão do quanto investir, do quanto arriscar de si mesmo, do quanto comprometer-se. Este post busca definir algumas diretrizes com o intuito de ajudar as pessoas nesta busca de realizar algo novo.

O primeiro passo é investir inicialmente, mesmo que o mínimo, na direção que se pretende ir, seja através de pesquisas ou realizando contatos. É preciso obter algum material, qualquer que seja, e começar a avaliá-lo. Este material será uma pequena amostra do que existe no mundo e, com um pouco de sensibilidade, percebe-se que há muitos interesses que não o apoiam em sua mudança, de muitas pessoas, seja porque são concorrentes aos seus interesses, ou porque não o compreendem (da mesma forma que você possivelmente também não os compreende). Causar uma mudança em sua própria vida é, com frequência, ir contra a maré de interesses que tenta mantê-lo na direção que você já vem seguindo, e que você quer mudar.

No início não é recomendável expor-se e arriscar-se demais. Com um pouco de sorte, há alguns pontos em sua ideia que têm uma probabilidade maior de serem bem sucedidos com alguma ação prática, mas é muito frequente que haja apenas uma boa ideia, ainda sem raizes para se manter. Mas, se nem sequer uma boa ideia existe em mãos, e se ainda se pretende causar uma mudança bem sucedida, deve-se continuar a pesquisa inicial, reciclando-se, até que se reconheça algo surgindo.

Mesmo quando se tem alguma ação prática que possa ser realizada, ou já haja alguma ressonância concreta em relação ao que se busca, normalmente deve-se investir moderadamente a princípio. É necessário estar consciente de que há outras pessoas, com interesses conflitantes aos seus, e que estas pessoas já estão desenvolvendo-se talvez há muito tempo, estando algumas (com grande probabilidade) melhor estruturadas. Opor-se de frente a estes interesses, em um estágio inicial, é ter o fracasso como resultado quase certo. Durante a maior parte do tempo, o progresso é lento, às vezes ocorrendo retrocessos, mas o que o mantém progredindo é seu interesse e persistência na mudança.

Frequentemente surgem dois ou mais cursos de ação, cada um com perspectivas interessantes, sendo alguns bem atraentes porém arriscados, e outros mais seguros porém menos arriscados. Não se deve desprezar uma posição forte e segura, caso venha a ser obtida, mas também não se deve ignorar possibilidades maiores. Se o investimento pessoal manter-se moderado, não há muito o que se perder em uma nova possibilidade, e ela pode se desenvolver gradualmente, desde que se esteja aberto a novos estímulos.

Conforme for possível, deve-se também desvencilhar-se das pessoas que não têm interesses ressonantes ao seus. O ideal é deixá-los ir em seus próprios caminhos, jamais adotando uma postura de oposição a estes. Não se trata de criar um conflito, mas de sair de dentro do conflito, tornando-se invisível a este e também não o enxergando mais, por estar fora dele. Com menos oposição aos seus interesses, as suas chances de sucesso aumentam e suas ideias se tornam mais prováveis. Uma boa situação passa a ter, então, um ótimo resultado, e uma ótima situação passa a ter, então, um excelente resultado. É necessário ressaltar que sempre existe uma possibilidade de falha, e esta possibilidade diminui ou aumenta com o contexto em que sua ideia está inserida, que pode favorecê-la ou combatê-la. Sempre é necessário avaliar riscos e é recomendável arriscar-se pouco.

De tempos em tempos, uma possibilidade rara e difícil se mantém e se estabelece, ressaltando a importância de se procurar não apenas o que é seguro, mas também aquilo é especial. Quando algo se consolida, pode-se investir mais, expondo-se mais. Esta transformação é algo que ocorre em momentos realmente especiais, não sendo algo rotineiro. Mas sempre é necessário lembrar-se que há interesses que concorrem com os seus e que alguns desses interesses, embora sejam minoria, também se baseiam em oportunidades raras e difíceis que se consolidaram. Assim, sempre se deve lembrar que não se é invulnerável, em situação alguma.

Os sucessos se acumulam e a mudança vai se tornando visível na sua vida, cada vez mais consistente e forte. Essa consistência coloca você em uma situação diametralmente oposta ao início da sua busca pois você não está mais frágil como estava a princípio. No entanto, há alguns valores que devem ser preservados em todo este processo.

A sinceridade é um destes valores perenes. Não se deve mostrar uma imagem falsa de si mesmo, embora muitos que encontre no seu caminho de mudança não sigam este princípio. Tudo o que se constroi, com base em uma imagem falsa, é falso na base e irá ruir eventualmente.

Outro valor perene é a ética. Por mais que se cresça, por mais que se desenvolva, sempre é necessário dar aos outros a liberdade de não fazerem parte da mudança que se cria, de forma que possam procurar a própria mudança. A liberdade de escolha é o verdadeiro fundamento do início de uma busca e é um direito inalienável de todas as pessoas.

A aplicação prática destas diretrizes é clara nas questões objetivas do mundo, porém também podem ser utilizadas nas relações invisíveis que ocorrem na magia, pois somos nós que criamos estas relações, solidificando-as gradualmente. O mago pode aplicá-las tanto internamente, ao desenvolver suas ressonâncias que fundamentarão suas operações mágicas, quanto externamente, como consequência do que se criou internamente.