terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Uma Conversa com o "Diabo"

Certa vez, em meio às minhas experiências relacionadas à goécia, eu tive um sonho onde surgiu um homem diante de mim. Ele tinha estatura mediana, cabelos curtos e negros e pele clara. As roupas eram um tanto formais, tratando-se apenas de um terno simples. A expressão facial nada dizia do que se passava em seu interior. Não havia pista alguma do que se seguiria no sonho. Apresentou-se:

- Olá, eu sou o Diabo.
- O Diabo?
- Sim.

Talvez muitas pessoas considerem esta identificação estranha, afinal costuma-se relacionar a goécia a demônios internos, e não a um ser identificando-se como o “Diabo” (afinal nem mesmo é propriamente um nome). No entanto, quando se reflete que as imagens que brotam na experiência com o inconsciente são fortemente condicionadas pelas impressões pessoais daquele que tem o sonho, não se deve estranhar que a simbologia fuja à uma norma padrão.

Prossegui com o diálogo:
- E porque razão você veio aqui conversar comigo?
- Apenas quero fazer um convite a você. Gostaria de conhecer o paraíso?
- E você, sendo quem é, pode visitar o paraíso?
- Posso, sempre que quero. Quer ver como é?

Irrefletidamente, respondi:
-Quero.
E estávamos então em um jardim. Ele continuou a falar:
- Este é o paraíso. O Jardim do Éden.

Eu observei o local. Era preponderantemente natural. O máximo que pude encontrar ali (no que diz respeito a construções "artificiais") eram bancos, onde algumas pessoas se sentavam. Quase não conversavam entre si. Não havia estímulo, nem propósito de realizar coisa alguma. Não havia atividade intensa, nem conversas inflamadas. Eu tive uma impressão de calma e previsibilidade. Senti-me desconfortável por causa da ausência de ação naquele ambiente.

Ele continuou a falar:
- Eu também não me sinto bem. Vamos sair daqui?
Fiz uma pequena pausa e consenti:
- Vamos.

De repente, estávamos diante de um elevador e entramos nele (assim são os símbolos nos sonhos, às vezes muito triviais). A porta se fechou e o elevador subiu. O movimento do elevador me surpreendeu pois eu esperava que o paraíso que eu havia visitado estivesse acima de tudo e, portanto, o elevador deveria descer ao invés de subir. Meu estranho interlocutor olhou para mim seriamente, sem dizer palavra alguma.

***

No mito bíblico do Jardim do Éden não era pressuposto que o ser humano possuísse a capacidade de diferenciar entre o Bem e o Mal (ou julgar a si mesmo e o que existe ao seu redor). O papel de Adão era cuidar do jardim, enquanto o papel de Eva era ser sua companheira. Idealmente todas as transformações ocorriam de acordo com a forma que haviam sido planejadas e, enquanto a humanidade (no mito, reduzida a Adão e Eva) não fosse capaz de efetuar distinções de valores (definindo o Bem e o Mal), permaneceria integrada àquela existência em harmonia e, portanto, sem que pudesse causar danos. Uma condição de inocência, por assim dizer.

No entanto, a distinção entre os seres já existia e a serpente estava ciente disso (ou seja, o paraíso já não era mais harmonioso). Homem e mulher haviam sido proibidos por Deus (ou melhor dizendo, aquele que era considerado Deus na bíblia), o que já indicava que havia uma separação fundamental entre Deus e o ser humano (o qual lhe devia ser obediente). Em suma, as divergências já existiam: apenas não eram percebidas pelo ser humano.

A desobediência foi um ato espontâneo, pois Adão e Eva não poderiam qualificar aquela ação fosse como boa, ou fosse como ruim. Já a expulsão se deu não por causa do castigo do pecado cometido (um pecado inconsciente, por sinal, afinal não se compreendia sua malignidade), e sim devido às possibilidades que o ser humano poderia assumir caso não fosse contido (caso não fosse limitado), uma vez que já possuía a capacidade de discernimento e, portanto, tinha em si os primórdios da própria consciência.

O fruto do discernimento entre o Bem e o Mal tem o mesmo significado que o fogo roubado por Prometeu na mitologia grega. Neste mito, Prometeu havia roubado o fogo de Zeus e o dado aos mortais. Dessa forma, a humanidade havia adquirido o poder do fogo, deixando sua condição de fragilidade. Prometeu foi amarrado a uma rocha como punição. Todos os dias uma águia devorava seu fígado, e o fígado se regenerava somente para ser devorado de novo no dia seguinte. Tal punição prosseguiu até o dia em que Hércules o libertou.

A semelhança entre Prometeu e Lúcifer (simbolizado pela serpente) é clara, bem como o estígma que obteve por ter profanado o fruto da árvore do Discernimento entre o Bem e o Mal (tal como Prometeu foi acusado, quando profanou o fogo de Zeus).

Por enquanto, vale refletir sobre os mitos e conteúdos expostos aqui. Em breve irei acrescentar novos posts, adicionando mais alguns comentários e, é claro, também irei prosseguir com a narração do sonho (há uma quantidade relativamente diversificada de conteúdo que quero expor sobre o mesmo e, por isso, optei por fazê-lo gradualmente).
Para aqueles que desejarem conferir os trechos mencionados na bíblia, verifiquem Gênesis 3, 1-22. Apenas sugiro utilizarem de uma boa tradução (pessoalmente prefiro a Bíblia de Jerusalém, mas fica a critério de cada um).

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Preço Exigido na Magia

Um dos padrões que percebi no contato com os seres que encontrei no inconsciente é que raramente se fala sobre preço. Talvez você se espante com este conceito que parece tão mundano (preço), e por isso é preciso ressaltar que não se trata de pagar em dinheiro ou vender a alma (na verdade, quando se fala em preço, é isso que as pessoas pensam). Trata-se simplesmente de ação e reação. Para toda ação há uma reação, que pode ser contrária à ação ou não. Esse é o preço.

O universo tem memória. Ele se lembra dos efeitos que sofre e reage a estes. Eu acredito que esta seja uma boa definição para a palavra Kharma (a reação do universo), independente de se crer ou não em reencarnação. Uma das reações possíveis às próprias ações é a qualidade daqueles que você atrai para si, ou seja, da companhia que você tem. Se você buscar o amor, por exemplo, irá atrair quem também busca o amor e se cercará por pessoas assim. Quando você necessitá-lo, irá encontrá-lo. E se você buscar a agressividade, como outro exemplo, irá atrair quem é estimulado pela agressividade. Não espere, portanto, encontrar amor se passar a vida a negá-lo, nem espere encontrar forças para combater algo agressivamente, se tiver reprimido este atributo em si mesmo, sistematicamente, por toda sua vida.

Tratam-se de escolhas e, nestas escolhas, sempre nos unimos a algo e sempre deixamos o que sobra de lado, ou pior: às vezes negamos conscientemente uma qualidade específica, considerando-a um defeito apenas porque não nos convém (ou não nos convém admitir a outros). O que se nega conscientemente terá seus atributos negados na própria existência, distanciados. Portanto, deve-se tomar cuidado caso deseje-se criticar aqueles que possuem fama, dinheiro, prazer, sucesso, etc. Tudo o que se nega, tende-se a excluir de si próprio. Em magia, a pior atitude a se tomar é a hipocrisia.

O preço idealmente é aquilo que tem pouca importância, não sendo de fato o que deveria ser mais relevante. É aquilo que você deixa de lado e que não se importa de excluir de sua vida. É necessário ser fiel a si próprio, com sinceridade para consigo mesmo, para realizar sabiamente as escolhas e seus preços.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Uma Bruxinha e seus Livros

Já há um tempo eu venho falando aqui sobre a Goécia, conhecida como a arte de se entrar em contato com “demônios internos”, mas tenho procurado demonstrar que o termo “demônio” é apenas um estereótipo e, como tal, é só uma forma de se discriminar toda uma pluralidade oculta no inconsciente (veja o post Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda).

É óbvio, portanto, que nem todas as imagens que surgem do inconsciente (dentro desse processo) são demoníacas. Afinal, não é apenas porque rotulamos algo que a experiência real deve se adequar a este rótulo. É o que aconteceu em um sonho que eu tive durante o período em que vivi minha imersão inicial na Goécia, quando vi-me diante de uma bruxa (muito simpática, por sinal) que propunha ensinar-me sobre magia.

Eu acredito que seja um padrão nestas experiências que algo sempre seja oferecido, e talvez seja por isso que pessoas mal intencionadas são atraídas para este caminho (na ânsia de obter coisas). No caso, o que estava sendo ofertado era o conhecimento, e eu o aceitei de bom grado. A bruxa simpática tinha em suas mãos diversos livros, e até mesmo alguns que eu já havia lido.

Estranho repensar um sonho que tive há tanto tempo. Penso principalmente em um livro que vi em suas mãos (Autobiografia de uma Feiticeira, de Lois Bourne) e que já conhecia. Na época em que o li, eu o considerei um tanto questionável, na verdade. Ele reportou alguns fatos que julguei um tanto mágicos demais, forçando um pouco contra a percepção do que se considera normal. Mas hoje em dia eu não sei mais o que pensar sobre o livro, afinal já se passaram treze anos que eu o li. Minha mente se abriu bastante desde aquela época e, se eu o reler, pode ser que eu me surpreenda.

Decidi. Vou relê-lo. Quem sabe eu descubra algo a mais sobre o real significado que aquele encontro com a bruxinha teve em minha vida?

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Um Rito para o Começo de Ano

Ofereço a vocês um rito específico para o começo deste ano de 2014. Eu o publiquei inicialmente na comunidade Repensando a Magia e o Ocultismo. Clique aqui para ver o post original. 

***

O ano de 2014 está chegando e no dia 1 de janeiro haverá Lua Nova, começando já de manhã.
É um fenômeno um tanto incomum, a Lua Nova (que é um começo de ciclo que dura um mês) alinhar-se tão exatamente com o primeiro dia do ano (que é o começo do ciclo do ano). Pelo que sei, a última vez que aconteceu este fenômeno foi de 2005 para 2006.

São duas egrégoras agindo em conjunto. Um bom momento para realizar uma operação mágica. No entanto, como trata-se da Lua, eu não considero interessante realizar um rito de dia (mesmo com a Lua Nova começando de manhã). Este horário não seria respeitoso pois não tem a ver com a noite, que é associada ao simbolismo da Lua. Mas é claro que não se conseguirá ver a Lua à noite, afinal é Lua Nova. Melhor então esperar até tarde da noite para começar.

O objetivo de um rito neste momento seria uma conexão com o sagrado feminino (relacionado à Lua), apresentando-se com sinceridade e humildade (de joelhos pois trata-se do sagrado, em um ambiente sem interferência, e preferencialmente com vista ao ar livre se possível), colocando ali todas as dificuldades, as buscas pessoais, e também aquilo que se ama mais (sempre há algo que amamos e que vale qualquer sacrifício, não é?). Tudo isso representa um nó a ser desatado e às vezes não sabemos como fazer isso. Deve-se pedir neste rito também que este nó seja desfeito, seja qual for e, finalmente, deve-se agradecer. Note que o formalismo do rito não é importante, e sim sua essência.

A magia, quando envolve a Lua, pode produzir resultados iniciais muito rápidos. Isso porque o ciclo da Lua é veloz, levando um mês aproximadamente para se completar. Muitas vezes, já na primeira semana, os indícios iniciais começam a surgir, vindo a se confirmar no decorrer do ciclo lunar.

Só que a Lua Nova é um momento de conjunção da Lua com o Sol, e estamos falando justamente do início do período de um ano, onde o Sol será totalmente circulado pela Terra. Então podemos esperar também resultados neste período. Isso sem mencionar o poder das intenções de tantas pessoas para o novo ano ocorrendo simultaneamente.

Alguns de vocês já devem estar cultuando a alguma divindade especifica feminina que tem relação com a Lua Nova. Se for o caso, não percam o momento.

Caso desejem realizar o rito e obtenham resultados, sintam-se livres para compartilhá-los se assim tiverem intenção.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Edgar, o Dentista

O ano de 2014 está chegando e resolvi preparar um presente para vocês. É a crônica “Edgar, o Dentista” do meu blog Incongruências Urbanas.
Desejo a todos vocês um feliz ano novo, com saúde, felicidade e prosperidade!

****************

Eu era ainda criança quando vi Edgar pela primeira vez. Foi no dia que meu pai me levou ao seu consultório. Recordo-me da primeira impressão que tive: um homem alto, de sobrancelhas grossas, cabelos negros e curtos, pele clara e os olhos característicos dos japoneses e de outros asiáticos. Estava sorridente (quase sempre Edgar é sorridente). Porém eu era pequeno e assustei-me. Não sei porquê algumas pessoas transmitem tranquilidade às crianças e outras não o fazem, não importa quão simpáticas sejam.
Seus pais deram-lhe um nome japonês: Yoshiro. No entanto, nunca sentiu-se confortável com o nome com que fora registrado. Por isso escolheu para si mesmo chamar-se de Edgar, e é assim que gosta de ser conhecido.

No consultório, um fato que chamou-me a atenção já de início foram seus diplomas e certificados. Eram muitos, todos distribuídos pela parede e protegidos por uma superfície de vidro. Aquela seria a primeira de muitas vezes em que eu iria tratar-me com ele. Enquanto aguardava a vez, entre uma revista e outra, eu os admirava. Acredito que nunca deixei de olhá-los, mesmo que de relance, sempre que voltei ali. Cursos, especializações das mais diversas, em muitos lugares e muitas épocas. Eu sempre perguntei a mim mesmo como podia ser possível alguém dominar tantas técnicas e especialidades. É algo que até contradiz o próprio conceito de especialidade. Afinal, se você tem diversas delas, você pode ser considerado um especialista?

Se eu não conhecesse Edgar, eu poderia dizer que todos aqueles documentos eram apenas conversa fiada, e que não era possível alguém conhecer tanto sobre seu ofício. Mas eu o conheço. Edgar é, de fato, um odontologista capaz de fazer qualquer coisa. Do mais banal ao mais complexo. Seja uma simples limpeza, seja um canal, uma obturação, uma extração, uma prótese, etc. Nada lhe causa insegurança.

Na realidade, há uma ressalva: extrações deixam-no impaciente. Certa vez eu perguntei a ele se seria indicada uma extração em um dos meus dentes do siso. Respondeu-me de uma forma, no mínimo, inusitada:
- Rogério, eu posso até extrair esse seu dente, mas vou cobrar mais do que o faria para um canal...

Espantei-me. Era uma forma de cobrar que me parecia bizarramente invertida. Repliquei:
- Nossa! Porque isso? A mim parece não fazer sentido algum.
Ele prosseguiu:
- Na semana passada eu tratei uma doutora, professora universitária. Você não imagina quanto trabalho eu tive para extrair um dente dela. Por isso eu digo: vamos cuidar desse dente ao invés de extraí-lo. Isso vai lhe sair muito mais barato.
E assim o fizemos.

Certa vez eu precisei tratar um canal.  Edgar propôs uma alternativa:
- Bom, este é um caso de canal. Eu posso tratá-lo da forma que se faz usualmente, porém existe uma outra opção.
- Outra opção?
- Sim. É algo que não se faz mais, mas que eu acredito que vai dar certo. Eu posso, como diria... mumificar esse canal. Ele simplesmente vai secar e perder a função.

Edgar e suas experiências. Concordei em deixá-lo realizar o procedimento. Muitos anos se passaram então e eu havia viajado. Mastiguei algo que acabou por quebrar aquele dente. Como iria passar muitos dias ali, resolvi ir a uma clínica odontológica. Após analisar uma radiografia de meu dente, um dos profissionais resolveu pedir ajuda ao vizinho, do outro consultório:
- Não sei como interpretar esta radiografia. Veja só (mostrando a radiografia). Não foi feito o canal, mas aparentemente não há o nervo.
O colega chamou um outro que, enfim, reconheceu a técnica que havia sido utilizada. Voltou-se para mim:
- Esta técnica é bem pouco usual. Não está errada, mas não se costuma realizá-la. Não foi feito o tratamento do canal mas o nervo foi morto. Você estava ciente disso?
- Sim. Eu estava - confirmei.
Esta, na realidade, não foi a única vez em que precisei explicar o tratamento deste meu dente.

Pelo que soube, não demorou muito para que Edgar se tornasse o dentista mais requisitado da Vila Suíça. Digo dentista ao invés de odontologista porque é assim que o povo se habituou a chamá-lo, e eu me incluo no povo. Sua fama cresceu, fosse por todas suas especialidades, fosse pelos tratamentos com valor realmente em conta que sempre praticou, e fosse principalmente pelo prazer com que lida com sua clientela, sempre contando histórias. Certa vez contou-me uma delas:
- Vou contar-lhe algo sobre o Japão.
- Fique à vontade - balbuciei com um lado da boca todo anestesiado.
- Aqui no Brasil é muito perigoso para as crianças atravessarem as ruas sozinhas. Concorda?

Seria certamente mais fácil para mim se eu apenas precisasse ouvi-lo, porém ele frequentemente solicitava que eu interagisse. Eu nada disse e ele repetiu:
- Concorda?

Não havia o que fazer. Eu precisava dar-lhe um retorno:
- Sim. Concordo.
Ele continuou:
- Pois então, no Japão há bandeirinhas para atravessar as ruas. A última criança a atravessar leva a bandeirinha consigo para sinalizar aos condutores dos veículos de que não há mais crianças a passar. Você sabia disso?
- Não. Não sabia - respondi admirado.
- Um país com educação no trânsito tem de dar segurança aos pedestres, e principalmente às crianças - concluiu.

Noutro dia, quando fui ao trabalho, conversei com Sandra, uma colega também de origem japonesa, e contei-lhe o que Edgar tinha dito a mim. No seu ponto de vista, aquela era uma história hilariante. Uma invenção da mente de meu dentista. A imagem pessoal que eu tinha de Edgar feriu-se com aquele comentário.

Dei atenção a algumas pessoas que o julgavam de forma depreciativa apenas por sua simplicidade aparente. Pessoas que consideravam "o livro pela capa", como se costuma dizer. Procurei outros profissionais e descobri que se dividiam em especialidades, cada um enxergando apenas parte do que deveria ser feito. Tratei e retratei meus dentes com estes. Quando comparados a Edgar sempre aparentaram saber menos e os resultados dos tratamentos eram menos permanentes do que quando Edgar os conduzia.

Hoje uma obturação caiu e pensei em Edgar, após muitos anos sem vê-lo. Lembrei-me da história da bandeirinha e procurei alguns termos no Google: bandeirinha, atravessar, rua, Japão. Escrevi tudo junto, sem vírgulas e sem aspas. Encontrei já de cara: "Japão é assim: BANDEIRINHA PARA ATRAVESSAR A RUA". Fiquei surpreso com o achado. Edgar estava certo desde o início. Procuro seu telefone na lista e o encontro. Teclo os dígitos, identifico-me e ouço sua voz em resposta:
- Oi Rogério! Há quanto tempo! Eu nunca mais o vi por aqui.
- Edgar, eu gostaria de tratar um dente. Eu posso ir aí hoje?
- Mas é claro. Pode vir sim. A tarde está bem folgada.

Chego então à Vila Suíça e subo as mesmas escadas, ansioso para revê-lo e para desejar-lhe um Feliz Ano Novo, com votos sinceros de longos anos de vida e muita saúde. É sempre bom quando se reencontra um velho amigo.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque Escolhi o Caminho da Mão Esquerda

As pessoas possuem os mais diversos critérios para definir o que consideram magia branca e magia negra. Muitos relacionam a via sinistra (a do caminho da mão esquerda) à magia negra, enquanto associam o caminho da mão direita à magia branca. Pessoalmente eu não concordo com este tipo de associação e quero acrescentar aqui minha definição pessoal sobre o que considero ser o real divisor de águas entre estes dois caminhos (da mão esquerda e da mão direita), o qual acredito que seja a experiência com Choronzon.

Alguns o consideram um demônio, enquanto outros acreditam que seja meramente uma espécie de dinâmica (um efeito sem personalidade). Na realidade eu já comentei muito sobre minhas próprias experiências com Choronzon em posts anteriores (veja O Início de uma Experiência Assustadora com meu Inconsciente, Um Tempo com Choronzon, A Lição que se Aprende com Choronzon e Entendendo o Papel de Choronzon), mas é óbvio que ainda não esgotei o que gostaria de comentar sobre este tema, como vou demonstrar agora.

Um certo tempo após o encontro com meu Santo Anjo Guardião (veja o post Falando de Minha Própria Iniciação na Magia), eu tive uma experiência de confronto com este ser. O mais interessante nesta experiência é que eu pude ver refletido meu ego, com todas suas ilusões sedutoramente ampliadas. Ao perceber minhas ilusões, eu pude lidar com elas objetivamente pois estas haviam perdido grande parte do poder de manipular-me.

Percebi que o ego fazia-me negar infinitas possibilidades apenas para afirmar um “ideal” que não me satisfazia, que traduzia-se em crenças que me foram instiladas desde minha infância. Eu considerava-me inferior ao comparar-me com os padrões assumidos nestas crenças. Considerava-me fraco, incompleto, cheio de necessidades e com desejos questionáveis. Considerava-me um fracasso por não ser quem eu acreditava que deveria ser. O encontro com Choronzon me fez perceber a insanidade a que eu me impunha ao tentar medir-me por padrões praticamente inatingíveis.

Questionei então se era eu que de fato estava errado por causa de minhas necessidades (às quais eu tentava ignorar e jamais conseguia) ou se o erro estava em ter assumido um sistema de crenças e valores que não inventei, através de uma fé a qual eu não questionava. Foi aí que resolvi abrir-me para a amplitude que existe dentro do inconsciente. Há infinitas possibilidades ali. O que me assustou, a princípio, foi como esta diversidade mostrou-se escura, um tanto demoníaca. Afinal era assim que eu havia me acostumado a julgar esta diversidade, e é assim que o mundo também costuma julgá-la.

Nenhum ser dos que se consideram iluminados apresentou-se ali. Estes seguem regras estritas e possuem caminhos rígidos. Não estendem a mão para quem julgam não possuir o mérito de conhecê-los. Por outro lado, aqueles que se apresentavam receberam-me com cordialidade e passei a interagir com eles, principalmente nos sonhos. Foi assim que optei pela via sinistra, pelo caminho da mão esquerda, o mergulho dentro do inconsciente, e jamais me arrependi. Não encontrei ali o ódio, e sim o profundo amor pela diversidade.

Hoje em dia afirmo conscientemente que amo profundamente aquilo que muitos temem, não por vantagens que isso poderia trazer, pois estas vantagens são ilusórias. O mundo vem instilando há muito tempo o conceito de que a diversidade é malígna e que somente uma opção é benígna. Muitos acreditam nisso e, inspirados por má índole, buscam a via sinistra. São escolhas inconscientes que sempre levam à desilusão.

No meu caso, a escolha pareceu-me simples: era permanecer em um caminho cada vez mais estéril por isolar-se de tudo o mais (o que antes eu julgava ser o caminho certo), ou permitir que toda uma multiplicidade de influências viesse a mim. A opção lógica era abrir-me à diversidade. Eu desconhecia então os conceitos de caminho da mão esquerda (em que acontece a abertura ao inconsciente) e caminho da mão direita (que isola de si grande parte do inconsciente, negando-a). Para mim a escolha parecia ser óbvia. Levei algum tempo para compreender que o caminho que havia escolhido não era o mesmo trilhado por muitos outros.

Ultimamente eu tenho percebido que o caminho da mão esquerda está se tornando mais reconhecido pelas qualidades que tem, e não pelos desejos mesquinhos dos tolos. Isso é bom porque é um caminho para a vida, porque a vida é ampla e múltipla. Precisamos comungar com a vida e não subjugá-la.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Direito de Ser Quem Você Deseja Ser

Trago a vocês um de meus posts originalmente publicado na comunidade Repensando a Magia e o Ocultismo (clique aqui para ver o post especificamente). Apesar das propostas da comunidade e deste blog não serem as mesmas, eventualmente surgem alguns conteúdos que podem ser compartilhados entre os dois espaços.

O post tem forte relação com a história pessoal sobre meu caminho na magia, porém é conceitual. Seu objetivo (assim como de alguns outros) é ajudar a qualificar os eventos que venho narrando. Transcrevo-o abaixo: 


Encontrei recentemente um artigo sobre mapas mentais (http://parquedaciencia.blogspot.com.br/2013/10/cartografia-pessoal-os-mapas-mentais.html). É um conceito novo para mim. Não que se trate de um tema esotérico, mas é uma forma de estudar como um indivíduo se sente em relação ao seu meio. Uma maneira de investigar o subconsciente.

Penso a este respeito, visualizando o que poderia ser feito em termos de investigação no ocultismo. Poderíamos descobrir como as pessoas se sentem em ambientes específicos. Saberíamos as impressões que lhes são causadas. E então, pela soma das respostas, conheceríamos algo sobre como as consciências individuais se dinamizam coletivamente.

Pena que nem todos se permitem dizer exatamente o que pensam e sentem, o que prejudica o estudo neste sentido. Infelizmente vivemos em um mundo cheio de tabus, onde as pessoas são criticadas pelo que desejam mais intimamente. Como se não tivessem o direito de simplesmente ser quem desejam ser... O desejo é reprimido com base em valores morais questionáveis à luz de uma ética simples, a qual deveria ser o limite da liberdade inalienável de ser simplesmente quem você é.

Criam-se dogmas para que as pessoas adequem suas formas de desejar a fim de que se conformem com os mesmos. Reprimindo o que alguém quer mais intimamente, você adquire mais poder às custas deste que é reprimido. E quando o indivíduo reprime a si mesmo em favor de algo que você impõe, ele dá (de livre e espontânea vontade) o poder a você. É uma relação de abuso. E normalmente o abusado torna-se abusador, criando um ciclo vicioso.

Pior que isso, para se impor com mais eficiência, os abusadores chamam-se a si mesmos de detentores da moral (que é uma coisa absolutamente relativa, dentro de cada cultura) e da espiritualidade (que é uma profanação desta palavra).

O segredo oculto à maioria das pessoas é que a pretensa luz é, na realidade, expressão das verdadeiras trevas (trevas no sentido de que você nada pode ver além delas). Tudo o que se coloca além desta pretensa luz foi chamado de diabólico, de demoníaco.

Há apenas diferença e o respeito por esta diferença deveria ser a tônica de todos os relacionamentos, sem maior e sem menor. Rotular alguns seres como divinos e angelicais e outros como demoníacos é um profundo desrespeito à diversidade (observe que a diversidade é realmente muito, mas muito ampla).

Quantos de nós não se sentem mal por algo que se pensa e que vai de encontro aos tabus sustentados por uma maioria inconsciente? Quantos de nós deixamos de fazer algo simplesmente porque a religião não permite?

Acreditam que isso realmente vai libertá-los, que isso vai levá-los à Verdade? Se abusados tornam-se abusadores e se há muitos abusadores, quebremos o ciclo, revertendo-o. Se persistirmos, eventualmente a opressão cessa.

Alguns de meus textos parecem ser um tanto negros, um tanto demoníacos até. Eis a explicação. Não posso me conformar com atitudes inconscientes, mesmo que isso pudesse me trazer algum tipo de conforto.